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Gotemburgo, 26/09/2015 (segunda parte)



2016-01-02

Então mando mais um email, agora num tom já francamente de pânico. Porque querem que eu vá pra Suécia via Papua-Nova Guiné.

Peguei os números no email pra vocês acreditarem.

1.1LEHMANN/ELVIRA MRS

1 KL 792 22SEP GRU-MAS 1915-1150 23SEP

2 KL 1159 23SEP MAS-GOT 1620-1750

3 KL 1152 29SEP GOT-MAS 0620 0750

4 KL 791 29SEP MAS-GRU 1015 1715

Foi isso que recebi logo de prima e foi isso que, sim, é minha culpa, é sempre minha culpa, digo que está OK.

Porque perguntam se estou de acordo e digo sim.

Depois fui ver no google. MAS é acrônimo do aeroporto de Papua-Nova Guiné.

Aí pensei. Dinheiro público, né, não discuto, é o que for melhor, é o que der.

Uma coisa assim já entranhada de quem lida com cultura. Ênfase no verbo lidar. Porque é o que a gente faz, a gente lida. Pega com a mão, as duas mãos, pra não cair. Pega com um cuidado meio hesitante, não sabe muito bem onde botar, o que fazer, com medo de machucar, rasgar, inutilizar pra sempre e ouvir:

"Desse jeito que ficou, né minha senhora, não vai dar, cultura tem de ter casca brilhante, perfeita, senão ninguém quer. Agora vê só esse amassadinho. Isso é provocado por dúvida. Então eu pergunto pra senhora: a senhora já viu alguém querer dúvida?"

A gente sempre pedindo desculpa, falando por favor, obrigada e sempre tão acostumada a ser tratada tão mal e sempre tão contente por qualquer migalha.

Então Papua, qual o problema.

Porque pensei.

Estão me mandando pra Suécia via Papua-Nova Guiné porque 1) tem um avião com um carregamento de batata que vai pra lá e sobrou um lugarzinho; 2) há um acordo dentro do espírito preferencial pelos pobres em que, sempre que dá, aviões que vão do Brasil pra Suécia param lá pra movimentar o aeroporto e a venda de sanduíches de carne de jacaré; 3) porque não gostam mesmo dos meus livros e querem ver se desisto.

E até então, tudo bem. Porque sou do tipo que topa. Até que vi que precisava de visto e que visto, porque não tem representação legal papuense aqui, nem brasileira lá, o visto, então, se arranjava no aeroporto. O que me soou na linha de dólar na cueca (ambos in absentia). Ou: leva isso na bagagem que fica tudo certo, mas não pode abrir. E até mesmo, mas aí já sou eu delirando: rituais exóticos de acasalamento com chefes tribais na sala dos fundos do aeroporto.

Em tempo: o acrônimo do aeroporto papuense é MAS e o de Amsterdam é AMS. E é aí que entra a estagiária do Itamaraty.  Acho que ela levou a culpa. Mulher é muito boa de levar a culpa. Mulher estagiária então, nem se fala. Ou seja, eu aqui, acho que a culpa é do Clinton, mas a gente não estava falando disso. Então, a estagiária do Itamaraty. Acho que a culpa é do computador. Digitou-se a ele mesmo erroneamente. Foi isso. O que ela, nem eu, notamos é que não podia ser Papua, não tinha como ser Papua. E eu quase fui pra Papua.

Minha filha, que gosta de mim e me entende, dava a maior força.

Vai, mãe, quando é que você vai ter a oportunidade de conhecer Papua. Não fala nada pra ninguém e embarca, sua boba.

Quer dizer, acho que ela gosta de mim.

O que me impediu foi o visto. Não fosse o visto, eu ia. E estava lá até hoje porque ninguém sente muita falta de escritor, como é mesmo o nome daquele que sumiu que fez aquele livro que não vou lembrar o nome?

Vocês já devem ter notado que essa segunda parte de Gotembrugo, 26/09/2015 na verdade devia vir antes da primeira, já que se trata da viagem de ida.  Mas qualquer um que tenha lido livro meu sabe que curto uma marcha ré. E vou continuar pra trás, mais ainda, porque, vocês acreditam?, comecei muito bem, eu.  Aos dezessete anos, meu namorado queria que eu fosse modelo.  Ou pelo menos que botasse um batonzinho pra fingir que era. Uma maneira de ele enfrentar, perante os amigos dele, nossa diferença de altura.

"Ah, ela é modelo." E o sorriso de superioridade de quem come modelo.

Expliquei que preferia ressaltar outra altura, a da pilha de meus futuros originais, mas ah, ela é escritora, não surtia o mesmo efeito e ele acabou indo embora.

Pois nessa viagem de ida a Gotemburgo que quase foi via Papua, sentei ao lado de uma modelo.  Uma moça lindíssima de dezesseis anos, da Ford. Não falava língua alguma além do português. E mesmo essa, mal.  Se espantou quando apontei o Canal da Mancha e falei do túnel por baixo da água. Tinha largado a escola no quarto ano. Vivia num apartamento de oito moças, quatro beliches, dois em cada quarto. As roupas em malas pelo chão.  Era o segundo apartamento dela. No primeiro, houve problema com as outras, um pouco mais velhas.

"Rolou inveja, sabe, elas têm inveja das mais novas."

Às vezes passava uns dias na casa da mãe, no interior de Santa Catarina, mas gostava cada vez menos de ir. 

"As pessoas lá têm inveja, sabe, da minha vida."

Agora, dinheiro, ela, sim, ganhava. E coisas de graça. Academia, restaurantes finos, roupas, perfumes, jóias. Era só tirar umas fotos e pôr no instagram em troca.

E sabem o que fiz com a pobrezinha? Aconselhei que aproveitasse a experiência de vida e escrevesse um diário que fosse base de um livro futuro. Quer dizer, tentei fazer com que ela virasse escritora. E parasse de ganhar dinheiro, claro. E acabasse na Papua.
 



Elvira Vigna
Elvira Vigna é escritora e desenhista. Nasceu em 1947, no Rio de Janeiro e atualmente mora em São Paulo. Formada em literatura pela Universidade de Nancy, na França, é também mestre em comunicação pela UFRJ. Seu romance Nada a dizer, publicado em 2010 pela Companhia das Letras, recebeu o prêmio de ficção da Academia Brasileira de Letras.
Site oficial: http://vigna.com.br Twitter oficial: @elviravigna



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