Imagem IMG_0942-1024x768.jpg

Memórias cruzadas



2015-10-21

Guiomar de Grammont, escritora e pesquisadora de Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Minas Gerais, esteve no dia 24 de setembro, na UERJ, como parte do projeto “Literatura Brasileira Hoje”.

Em dois tempos, Guiomar – reconhecida com o Prêmio Casa de Las Américas no ano de 1993, por seu livro O fruto de vosso ventre e também historiadora – manteve uma saborosa conversa com os alunos de Letras. A primeira parte versou sobre o livro, Aleijadinho e o aeroplano o paraíso barroco e a construção do herói colonial (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008), que conta com um “Prefácio” de Roger Chartier. Já na segunda parte, Guioimar apresentou o romance Palavras Cruzadas (Rio de Janeiro: Rocco, 2015).

Esculpir a memória
O mito parece vir voando, etéreo desde o céu. Em algum momento, a fama e o legado fazem que o que um dia foi corpo, se comece a desmaterializar, a ganhar asas, e enfim a ter o dom da ubiquidade... ainda mais se o mito atinge dimensões nacionais.

Eis o caso de Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido como Aleijadinho, considerado o maior artista brasileiro do período colonial. Mas, o que fazer diante de tais figuras, que às vezes sobrevoam permanentemente a identidade nacional?

Guiomar de Grammont explica que o seu propósito não foi fazer mais uma biografia do artista, mas uma reavaliação do personagem Aleijadinho, através das fontes mais importantes, como a conhecida biografia escrita por Rodrigo José Ferreira Bretas ou a recuperação feita pelos modernistas.

De maneira detalhada, e em um tom agradável, a historiadora partilha com os alunos da pós-graduação, as descobertas que fez no trajeto da pesquisa a partir da comparação das inúmeras versões, ditos e anedotas que fazem parte da mitologia de e sobre Aleijadinho.

Na voz de um dos alunos presentes, surge imediatamente o outro grande artista brasileiro da colônia: Gregório de Mattos! Sim, as indeterminações, os furos, as incertezas os aproximam muito mais do que comumente se acredita.

Descobre-se então que boa parte das coisas que se dizem sobre o grande artista mineiro, desde a atribuição de autoria de não poucas obras, até narrações extraordinárias, são simplesmente invenções, produto de repetições ou considerações sem possibilidade de corroboração. Mas o que acontece quando se toca um mito nacional?

A fala se encaminha às repercussões que tem produzido o trabalho de Guiomar de Grammont: fazer que um anjo volte à terra, sem dúvidas, provoca que os fieis e os crentes do templo se incomodem, da mesma forma que o mercado artístico. E se alguém tem noção disso é a própria pesquisadora, quem tem tido uma intensa relação com a difusão da arte e da literatura na última década. Guiomar acrescenta que Aleijadinho, na própria cidade de Ouro Preto, assim com entre os especialistas, tem provocado sobretudo inquietação e até mesmo rejeição.

É natural quando o indeterminado recobra alguns dos seus limites. Mas será que um mito pode ter limites? Guiomar de Grammont abertamente declara que o seu trabalho se afasta decididamente da procura da verdade. Ora, no fundo, a historiografia não será uma interpretação possível entre tantas outras?

Nesse percurso, surge o que talvez seja a maior contribuição do encontro com os alunos de pós-graduação. Num giro inesperado, a fala por um momento faz voltar Aleijadinho à terra e os ouvintes descobrem que o trabalho de Guiomar faz do mito do maior artista barroco do Brasil um esforço de esculpir a memória... O esforço da historiadora tem feito da pesquisa e da escrita um cinzel para entalhar o grande mito chamado Aleijadinho.


Memória e desaparições
A segunda parte do encontro começa com um público maior. Guiomar apresenta o seu novo romance, Palavras Cruzadas. Pego então a caneta para continuar as anotações, mas imediatamente a fala da escritora me dá um golpe, pois sua ficção trata dos desaparecidos na guerrilha do Araguaia... Em dois dias, no meu país, o México, cumpre-se um ano do desaparecimento de 43 estudantes normalistas. Não posso evitar que as palavras comecem a se cruzar, com o presente, com a ausência, com aqueles que hoje também faltam no meu país e que se somam a mais de 20 mil desaparecidos nos últimos 8 ou 10 anos.

Guiomar conta como foi difícil a escrita do romance, desde a pesquisa, a leitura e releitura das fontes, até as reviravoltas que enfrentou desde o ponto de vista narrativo. E eu fico pensando que, às vezes, a memória é amordaçada e negada, mas, ao mesmo tempo, de alguma forma também é indestrutível. O que se pode fazer quando se tem ocultado sistematicamente os fatos e só fica reverberando, cru, o vazio que deixam as desaparições de seres humanos nas mãos de outros seres humanos? O que se pode fazer quando não fica nada além da pura ausência explodindo no ar?

A tentativa de Guiomar sugere que fica a escrita, que a ficção pode mostrar de alguma forma as ruínas da memória. Assim, desde os escombros, dos rastros minúsculos, talvez ressurja o bater da lembrança, que ganha voz, palavra, e seja possível então começar a preencher, ainda que de um modo doloroso, os ocos, os apagamentos, o esquecimento.

Palavras que se cruzam: o diário de um guerrilheiro, documentos históricos, conversas entre os personagens em torna da ausência.

Palavras que se cruzam: Guiomar falando do seu romance, do que significa a perda para os familiares. E, no meu país, os pais e as mães dos 43 normalistas que exigem com o risco de suas próprias vidas que os seus filhos lhes sejam devolvidos com vida.

Reconheço então que a Literatura, às vezes, é a única forma de lutar contra o esquecimento. Sim, através de fabulações. O Brasil também foi marcado por desaparecimentos; certo, bem diferentes, mas enfim desaparecimentos. Por isso, elaborar a memória silenciada pode ser o princípio de uma redenção.

Eis o que Guiomar de Grammont teve, e não só no seu romance, a coragem de fazer: cruzar as palavras para que a memória viva.


Seguem abaixo três perguntas para Giommar de Grammont, por Emiliano Mastache.

1. Qual é para você o papel da escrita (em geral e a literária) en relação com a Historia?

Penso que a escrita é uma das expressões humanas mais ricas, uma vez que, junto com a língua vem toda a história de um povo. As referências são inúmeras, tantas que é quase impossível descrever tudo o que uma palavra apenas é capaz de siginificar. Vejo a escrita literária como uma forma de doação. de entrega.


2. Por quê considera importante a re-avaliação histórica de figuras nacionais, como Alejadinho?

A ereção do mito serviu a interesses políticos econômicos que nada têm a ver com as motivações que estimularam o boom de construção de obras arquitetônicas, escultóricas e pictóricas em MInas no século XIIII. Entre esses interesses, por exemplo, encontram-se os do lucrativo mercado de obras de arte, fundado na atribuição da autoria de determinadas obras a nomes que se tornaram famosos.

Essas noções não existiam no momento em que essas obras foram realizadas. Assim como não existiam a arte e o artista tal como compreendemos hoje. O artista do período colonial não assinava suas obras e, na Europa, temos casos como o de Rembrandt, que assinava as melhores obras de seus discípulos como uma forma de distinção. Mas o que está em questão não é o uso de categorias anacrônicas, porque isso é inevitável para o historiador da cultura (até mesmo a noção de “século” é um anacronismo). O problema é quando essas categorias servem para dar fundamento a versões que violentam aspectos da história. Muitos críticos atribuíram obras ao Aleijadinho apenas para valorizá-las, aproveitando a “aura” do mito. Isso gerou distorções e injustiças, por exemplo, um belo chafariz de Ouro Preto, encimado por um busto de mulher que, segundo os documentos, foi realizado por Manuel Francisco Lisboa. Contudo, os críticos o atribuíram ao Aleijadinho, que, na época, teria 13 anos, de acordo com sua certidão de óbito. O que provocou esse excesso de atribuições a um único artista, claro, foi o fato de Aleijadinho ter se tornado um personagem tão famoso. O mito fez com que inúmeros artistas que produziram no período colonial fossem esquecidos e nem sequer pesquisados, pois todos os interesses se voltaram para a atibuição de toda e qualquer obra do período colonial à autoria do Aleijadinho. É muito importante resgatar esses artistas do esquecimento, daí a importância de desconstruir o mito.


3. No seu romance Palavras Cruzadas acontece um encontro entre ficção e memória, nesse sentido: qual é o papel da Literatura?

A literatura pode ser, como a história, uma forma de revisitar o passado, dando-lhe um novo sentido, a partir do presente. Contudo, a diferença entre a ficção e a história é a liberdade. A narrativa ficcional pode fazer um uso onírico da memória. Não se trata de juntar peças em um quebra-cabeças, redesenhando o que falta a partir da ruína, como faz a história. A literatura pode recriar, transformar, mesclar história, subjetividade e sonho. Como está em Borges, é o duplo: o homem que sonha pode ser o homem sonhado: o fogo não o queima, a agua não o molha. A literatura é redentora e sacrificial, mas no melhor sentido da epifania, como se o narrador se entregasse a seus leitores em uma pira incandescente.


Essa crônica bem como a entrevista com Guiomar de Grammont fazem parte do projeto Literatura Brasileira Hoje, que tem curadoria de João Cezar de Castro Rocha.    



Emiliano Mastache
Emiliano Mastache (México – D.F) é graduado em Letras Hispánicas(UNAM), Mestre em Letras Latinoamericanas(UNAM)e atual doutorando no Programa de Literatura Comparada na UERJ.



Desenvolvido por:
© Copyright 2019 REVISTAPESSOA.COM