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Saudação a Walt Whitman



2014-03-27

Dedicada à literatura de língua portuguesa, a revista Pessoa reserva esta seção para a literatura universal. Aqui o leitor encontrará contos inéditos, trechos de obras da literatura contemporânea no prelo e algumas leituras de clássicos. Estreamos com a saudação de Álvaro de Campos ao grande poeta, ensaísta e jornalista norte-americano Walt Whitman.


Saudação a Walt Whitman
Portugal — Infinito, onze de Junho de mil novecentos e quinze.
Hé-lá-á-á-á-á-á-á!
De aqui de Portugal, todas as épocas do meu cérebro
Saúdo-te, Wallt, saúdo-te, meu irmão do Universo,
Ó sempre moderno e eterno, cantor dos concretos absolutos,
Concubina fogosa do universo disperso,
Grande pederasta roçando-te contra a diversidade das coisas.
Sexualizado pelas pedras, pelas árvores,
pelas pessoas, pelas profissões,
Cio das passagens, dos encontros casuais das meras observações
Meu entusiasta pelo conteúdo de tudo.
Meu grande herói entrando pela Morte
dentro aos pinotes,
E aos urros, e aos guinchos, e aos berros
saudando-te em Deus!
Cantor da fraternidade feroz e terna com tudo,
Grande democrata epidérmico, contíguo a tudo em corpo e alma,
Carnaval de todas as acções, bacanal de todos os propósitos
Irmão gémeo de todos os arrancos,
Jean-Jacques Rousseau do mundo que havia de produzir máquinas.
Homero do insaisissable do flutuante carnal,
Shakespeare da sensação que começa a andar a vapor,
Milton-Shelley do horizonte da electricidade futura!
Incubo de todos os gestos,
Espasmo pra dentro de todos os objectos de fora
Souteneur de todo o Universo,
Rameira de todos os sistemas solares,
paneleiro de Deus!
Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado,
Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt,
Não sou indigno de ti, basta saudar-te para não o ser…
Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio,
Sou dos teus, tu bem sabes, e
compreendo-te e amo-te,
E embora te não conhecesse, nascido pelo ano em que morrias,
Sei que me amaste também, que me
conheceste, e estou contente.
Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste,
Sei que é isso que eu sou, quer em
Brooklin Ferry dez anos antes de eu nascer, Quer pela rua do Ouro acima pensando em tudo o que não é a rua do Ouro,
E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas,
De mãos dadas, Walt, de mãos dadas,
dançando o universo na alma.
Quantas vezes eu beijo o teu retrato.
Lá onde estás agora (não sei onde é mas é Deus)
Sentes isto, sei que o sentes, e os meus beijos são mais quentes (em gente)
E tu assim é que os queres, meu velho, e agradeces lá,
Sei-o bem, qualquer coisa mo diz, um agrado no meu espírito,
Uma erecção abstracta e indirecta no fundo da minha alma.
Nada do engageant em ti, mas ciclópico e musculoso,
Mas perante o universo a tua atitude era de mulher,
E cada erva, cada pedra, cada homem era para ti o Universo.
Meu velho Walt, meu grande camarada, evohé! Pertenço à tua orgia báquica de sensações-em-liberdade,
Sou dos teus, desde a sensação dos meus pés até à náusea em meus sonhos,
Sou dos teus, olha pra mim, de aí desde Deus vês-me ao contrário:
De dentro para fora … Meu corpo é o que adivinhas, vês a minha alma — Essa vês tu propriamente e através dos olhos dela o meu corpo — Olha para mim: tu sabes que eu, Álvaro de Campos, engenheiro,
Poeta sensacionista,
Não sou teu discípulo, não sou teu amigo, não sou teu cantor,
Tu sabes que eu sou Tu e estás contente com isso!
Nunca posso ler os teus versos a fio… Há ali sentir demais…
Atravesso os teus versos como a uma multidão aos encontrões a mim,
E cheira-me a suor, a óleos, a actividade humana e mecânica
Nos teus versos, a certa altura não sei se leio ou se vivo,
Não sei se o meu lugar real é no mundo ou nos teus versos,
Não sei se estou aqui, de pé sobre a terra natural,
Ou de cabeça pra baixo, pendurado numa espécie de estabelecimento,
No tecto natural da tua inspiração de tropel,
No centro do tecto da tua intensidade inacessível.
Abram-me todas as portas!
Por força que hei-de passar!
Minha senha? Walt Whitman!
Mas não dou senha nenhuma…
Passo sem explicações…
Se for preciso meto dentro as portas…
Sim — eu franzino e civilizado, meto dentro as portas,
Porque eu neste momento não sou franzino nem civilizado,
Sou EU, um universo pensante de carne e osso, querendo passar,
E que há-de passar por força, porque quando eu quero passar sou Deus!

Tirem esse lixo da minha frente!
Metam-me em gavetas essas emoções!
Daqui pra fora, políticos, literatos,
Comerciantes pacatos, polícia, meretrizes, souteneurs,
Tudo isso é letra que mata, não o espírito que dá a vida.
O espírito que dá a vida neste momento sou EU!

Que nenhum filho da puta se me atravesse no caminho!
O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo, deixa-me ir…
É comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito…
Prà frente!
Meto esporas!
Sinto as esporas, sou o próprio cavalo em que monto,
Porque eu, por minha vontade de me consubstanciar com Deus,
Posso ser tudo, ou posso ser nada ou qualquer coisa,
Conforme me der na gana… Ninguém tem nada com isso…
Loucura furiosa! Vontade de ganir, de saltar,
De urrar, zurrar, dar pulos, pinotes, gritos com o corpo,
De me cramponner às rodas dos veículos e meter por baixo,
De me meter adiante do giro do chicote que vai bater,
De me […]
De ser a cadela de todos os cães e eles não bastam,
De ser o volante de todas as máquinas e a velocidade tem limite,
De ser o esmagado, o deixado, o deslocado, o acabado,
E tudo para te cantar, para te saudar e […]
Dança comigo, Walt, lá do outro mundo esta fúria,
Salta comigo neste batuque que esbarra com os astros,
Cai comigo sem forças no chão,
Esbarra comigo tonto nas paredes,
Parte-te e esfrangalha-te comigo
E […]
Em tudo, por tudo, à roda de tudo, sem tudo,
Raiva abstracta do corpo fazendo
maelstroms na alma…

Arre! vamos lá prà frente!
Se o próprio Deus impede, vamos lá prà
frente… Não faz diferença…
Vamos lá prà frente
Vamos lá prà frente sem ser para parte nenhuma…
Infinito! Universo! Meta sem meta! Que importa?
Pum! pum! pum! pum! pum!
Agora, sim, partamos, vá lá prà frente,
pum!
Pum
Pum
Heia… heia… heia… heia… heia…

Desencadeio-me como uma trovoada
Em pulos de alma a ti,
Com bandas militares à frente prolongo saudar-te…
Com um grande cortejo e uma fúria de berros e saltos
Estardalhaço a gritar-te
E dou-te todos os vivas a mim e a ti e a Deus
E o universo anda á roda de nós como um
carrocel com música dentro dos nossos                 crânios,
E tendo luzes essenciais na minha epiderme anterior
Eu, louco de musical sibilar ébrio das máquinas,
Tu célebre, tu temerário, tu o Walt — e o instinto,
Tu a sensualidade ponto
Eu a sensualidade curiosamente nascente
até da indigência
Tu a inteligência […]

11-06-1915


b

Porta pra tudo!
Ponte pra tudo!
Estrada pra tudo!
Tua alma omnívora e […]
Tua alma ave, peixe, fera, homem, mulher,
Tua alma os dois onde estão dois,
Tua alma o um que são dois quando dois são um,
Tua alma seta, raio, espaço,
Amplexo, nexo, sexo, Texas, Carolina, New York,
Brooklyn Ferry à tarde,
Broobkly Ferry das idas e dos regressos,
Libertad! Democracy! Século vinte ao longe!
Pum!, pum! pum! pum! pum!
PUM!

Tu, o que eras, tu o que vias, tu o que ouvias,
O sujeito e o objecto, o activo e o passivo,
Aqui e ali, em toda a parte tu,
Círculo fechando todas as possibilidades de sentir,
Marco miliário de todas as coisas que podem ser,
Deus Termo de todos os objectos que se imaginem e és tu!
Tu Hora,
Tu Minuto
Tu Segundo!
Tu intercalado, liberto, desfraldado, ido, Intercalamento, libertação, ida,
desfraldamento,
Intercalador, libertador, desfraldador, remetente,
Carimbo em todas as cartas,
Nome em todos os endereços,
Mercadoria entregue, devolvida, seguindo…
Comboio de sensações a alma-quilómetros à hora,
À hora, ao minuto, ao segundo. PUM!

E todos estes ruídos naturais, humanos, de máquinas
Todos eles vão juntos, tumulto completo de tudo,
Cheios de mim até ti, saudar-te
Cheios de mim até ti,
Vão gritos humanos, vão choros de terra,
Vão os volumes dos montes,
Vão os rumores das águas,
Vão os barulhos da guerra,
Vãos estrondos da […], os […] da […]
Vãos os ruídos dos povos em lágrimas,
Vãos os sons débeis dos ais no escuro
E vão mais cerca da vida, rodeando-me,
Prémio melhor do meu saudar-te
Os ruídos, cicios, assobios dos comboios
Os ruídos modernos e das fábricas,
Som regular,
Rodas,
Volantes,
Hélices
Pum…
c
Hé-lá que eu vou chamar
Ao privilégio ruidoso e ensurdecedor de saudar-te
Todo o formilhamento humano do Universo,
Todos os modos de todas as emoções,
Todos os feitios de todos os pensamentos,
Todas as rodas, todas os volantes, todos os êmbolos da alma.
Heia que eu grito
E num cortejo de Mim até ti estardalhaçam
Com uma algarvia metafísica e real,
Com um chinfrim de coisas passado por dentro sem nexo,
[…]
Ave, salve, viva, ó grande bastardo de Apolo,
Amante impotente e fogoso das nove musas e das graças,
Funicular do Olimpo até nós e de nós ao Olimpo,
Fúria do moderno concretado em mim,
Espasmo translúcido de ser,
Flor de agirem os outros,
Festa porque há a vida,
Loucura porque não há vida bastante em um p’ra ser todos
Porque ser é ser bastardo e só Deus nos servia.
Ah, tu que cantaste tudo, deixaste tudo por cantar.
Quem pode vibrar mais que o seu corpo em seu corpo,
Quem tem mais sensações que as sensações por ter?
Quem é bastante quando nada basta?
Quem fica completo quando um só [?vinco?]
de erva
Fica com a raiz fora, do seu coração?



d

Por isso é a ti que endereço
Meus versos saltos, meus versos pulos,
meus versos espasmos,
Os maus versos-ataques-histéricos,
Os meus versos que arrastam o carro […]
dos meus nervos.
Aos trambolhões me inspiro,
Mal podendo respirar, ter-me-de-pé
me-exalto,
E os meus versos são eu não poder estoirar de viver.
Abram-me todas as janelas! Arranquem-me
todas as portas!
Puxem a casa toda para cima de mim!
Quero viver em liberdade no ar,
Quero ter gestos fora do meu corpo,
Quero correr como a chuva pelas paredes abaixo,
Quero ser pisado nas estradas largas como as pedras,
Quero ir, como as coisas pesadas, para o fundo dos mares,
Com uma voluptuosidade que já está longe de mim!

Não quero fechos nas portas!
Não quero fechaduras nos cofres!
Quero intercalar-me, imiscuir-me, ser levado,
Quero que me façam pertença doída de qualquer outro,
Que me despejem dos caixotes,
Que me atirem aos mares,
Que me vão buscar a casa com fins obscenos, Só para não estar simplesmente escrevendo estes versos!

Não quero intervalos no mundo!
Quero a continuidade penetrada e material dos objectos!
Quero que os corpos físicos sejam uns dos outros como as almas,
Não só dinamicamente, mas estaticamente também!

Quero voar e cair de muito alto!
Ser arremessado como uma granada!
Ir parar a… Ser levado até…
Abstracto auge no fim de mim e de tudo!

Clímax a ferro e motores!
Escadaria pela velocidade acima, sem degraus!
Bomba hidráulica desancorando-me as entranhas sentidas!

Ponham-me grilhetas só para eu as partir! Só para eu as partir com os dentes, e que os dentes sangrem
Gozo masoquista, espasmódico a sangues, da vida!

Os marinheiros levaram-me preso.
As mãos apertaram-me no escuro,
Morri temporariamente de senti-lo,
Seguiu-se a minh’alma a lamber o chão do cárcere-privado,
E a cega-rega das impossibilidades
contornando o meu acinte.

Pula, salta, toma o freio nos dentes, Pégaso-ferro-em-brasa das minhas ânsias inquietas,
Paradeiro indeciso do meu destino a motores!
Salta, pula, embandeira-te,
Deixa a sangue o rasto na imensidade nocturna,
A sangue quente [? mesmo de longe?],
A sangue fresco [? mesmo de longe?],
A sangue vivo e frio no ar dinâmico a mim!
Salta, galga, pula,
Ergue-te, vai saltando, […]
e
Numa grande marche aux flambeux-todas-as-cidades-da-Europa,
Numa grande marcha guerreira a indústria e comércio e ócio,
Numa grande corrida, numa grande subida, numa grande descida
Estrondeando, pulando, e tudo pulando comigo,
Salto a saudar-te,
Berro a saudar-te,
Berro a saudar-te,
Desencadeio-me a saudar-te, aos pinotes,
aos pinos, aos guinos!
Hé-lá

Ave, salve, viva!...

Arregimento!
Comigo, coisas!
Sigam-me gentes!
Máquinas, artes, letras, números – comigo!
Vós que ele tanto amou, coisas que são a terra:
Árvores sem sentido salvo verde,
Flores com a cor na alma,
[…]
Escura brancura das águas,
Rios fora dos rios,
Paz dos campos porque não são as cidades
Seiva lenta ao emergir da avareza das crostas


f
Onde não sou o primeiro, prefiro não ser nada, não estar lá,
Onde não posso agir o primeiro, prefiro só ver agir os outros.
Onde não posso mandar, antes quero nem obedecer.

Excessivo na ânsia de tudo, tão excessivo que nem falho,
E não falho porque não tento
«Ou Tudo ou Nada» tem um sentido pessoal para mim.
Mas ser universal — não o posso, porque sou particular.
Não posso ser todos, porque sou Um, um só, só eu.
Não posso ser o primeiro em qualquer
coisa, porque não há o primeiro.
Prefiro apenas o nada de ser apenas esse nada.

Quando é que parte o último comboio, Walt?
Quero deixar esta cidade, a Terra,
Quero emigrar de vez deste país, Eu,
Deixar o mundo com o que se comprova falido,
Como um caixeiro-viajante que vende navios a habitantes do interior.

O fim a motores partidos!
Que foi todo o meu ser? Uma grande ânsia inútil —
Estéril realização com um destino
impossível —
Máquina de louco para realizar o motu-contínuo,
Teorema do absurdo para a quadratura do círculo,
Travessia a nado do Atlântico, falhando na margem de cá
Antes da entrada na água, só com olhos e o cálculo,
Atirar de pedras à lua
Ânsia absurda do encontro dos paralelos Deus-vida.
Megalomania dos nervos,
Ânsia de elasticidade do corpo duro,
Raiva do meu concreto ser por não ser o auge-eixo
O carro da sensualidade do entusiasmo abstracto
O vácuo dinâmico do mundo!

Vamo-nos embora de Ser.
Larguemos de vez, definitivamente, a aldeia-Vida
O arrabalde-Mundo de Deus
E entremos na cidade à aventura, ao rasgo
Ao auge, loucamente ao Ir…
Larguemos de vez.

Quando parte, Walt, o último comboio p’ra aí?
Que Deus fui para as minhas saudades serem estas ânsias?
Talvez partindo regresse. Talvez acabando, chegue,
Quem sabe? Qualquer hora é a hora. Partamos,
Vamos! A estrada tarda. Partir é ter ido.
Partamos para onde se fique.
Ó estrada para não-haver-estradas!
Terminus no Não-Parar!
g

Um comboio de criança movido a corda,
puxado a cordel
Tem mais movimento real do que os nossos versos…
Os nossos versos que não têm rodas
Os nossos versos que não se deslocam
Os nossos versos que, nunca lidos, não saem para fora do papel.
(Estou farto — farto da vida, farto da arte —,
Farto de não ter coisas, a menos ou a medo —
Rabo-leva da minha respiração chagando a minha vida,
Fantoche absurdo da feira da minha ideia de mim.
Quando é que parte o último comboio?)
Sei que cantar-te assim não é cantar-te — mas que importa?
Sei que é cantar tudo, mas cantar tudo é cantar-te,
Sei que é cantar-me a mim — mas cantar-me a mim é cantar-te a ti
Sei que dizer que não posso cantar é
cantar-te, Walt, ainda…
h
Heia? Heia o quê e porquê?
O que tiro eu de heia ou de qualquer coisa, Que valha pensar em heia!?

Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos…
No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,
E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio
Mas o Império finda nas nossas veias agudas
E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir…
Tu, cantador de profissões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Forte,
Tu, músculo da inspiração, com musas
masculinas por destaque,
Tu, afinal, inocente em viva histeria,
Afinal apenas «acariciador da vida»,
Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção, — Bem… isso era contigo — mas onde é que aí
está a vida?

Eu, engenheiro como profissão, farto de tudo e de todos,
Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas
Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,
Bóia das minhas sensações desgarradas pelo temporal,
Âncora do meu navio já quebrada pró fundo
Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas? Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos — E afinal sincero como tu, ardendo com ter toda a Europa no cérebro,
No cérebro explosivo e sem diques,
Na inteligência mestra e dinâmica,
Na sensualidade carimbo, projector, marca, cheque
Pra que diabo vivemos, e fazemos versos?
Raios partam a mandriice que nos faz poetas,
A degenerescência que nos engana artistas,
O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos,
Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida
Porque nada fazemos e nada somos, a vida
corre-nos lenta nas veias.
Vejamos ao menos, Walt, as coisas com plena verdade…

Bebamos isto como um remédio amargo
E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida
Por quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão

Isto, afinal é saudar-te,
Seja o que for, é saudar-te,
Seja o que valha, é amar-te,
Seja o que calhe, é concordar contigo…
Seja o que for é isto. E tu compreendes, tu gostas,
Tu, a chorar no meu ombro, concordas, meu velho, comigo —
(Quando parte o último comboio? —
Vilegiatura em Deus…)
Vamos, confiadamente, vamos…
Isto tudo deve ter um outro sentido
Melhor que viver e ter tudo…
Deve haver um ponto de consciência
Em que a paisagem se transforme
E comece a interessar-nos, a acudir-nos, a sacudir-nos…
Em que comece a haver fresco na alma
E sol e campo nos sentidos despertos
recentemente.
Seja onde for a estação, lá nos encontraremos… Espera-me à porta, Walt; lá estarei…
Lá estarei sem o universo, sem a vida, sem eu-próprio, sem nada…
E relembraremos, a sós, silenciosos, com a nossa dor
O grande absurdo do mundo, a dura inépcia das coisas
E sentirei, o mistério sentirei tão longe, tão longe, tão longe,
Tão absoluta e abstractamente longe,
Definitivamente longe.
i

Heia o quê? Heia porquê? Heia pra onde?
Heia até onde?
Heia pra onde, corcel suposto?
Heia pra onde, comboio imaginário?
Heia pra onde, seta, pressa, velocidade
Todas só eu a não tê-las por todos os meus nervos fora.

Heia pra onde, se não há onde nem como?
Heia pra onde, se estou sempre onde estou e
nunca adiante
Nunca adiante, nem sequer atrás,
Mas sempre fatalissimamente no lugar do meu corpo,
Humanissimamente no ponto-pensar da minha alma,
Sempre o mesmo átomo indivisível da
personalidade divina?

Heia pra onde ó tristeza de não realizar o que quero?
Heia pra onde, para quê, o quê, sem o quê?
Heia, heia, heia, mas ó minha incerteza, pra onde?

Não escrever versos, versos, versos, a
respeito do ferro,
Mas ver, ter, ser o ferro e ser isso os meus versos,
Versos — ferro — versos, círculo material-psíquico-eu.

(quando parte o último comboio?)
j
A expressão, aborto abandonado
Em qualquer vão-de-escada da realidade
O que é a necessidade de escrever versos senão a vergonha de chorar?...
O que é o desejo de fazer arte senão o adultismo pra brinquedos?
(Quando é que parte o último comboio, Walt,
Quando é que parte o último comboio?)

Bonecos da minha infância com quem eu
imaginava melhor que hoje
[…]
A química por baixo do Aqui jaz…
A dor, febre que hoje é química só, lá longe na cavada encosta
À hora em que era costume ele vir para casa
E o mesmo candeeiro hoje iluminado [.]
E apenas o silêncio já sem nos dizer que o fazem por se terem calado.
l
Para saudar-te
Para saudar-te como se deve saudar-te
Preciso tornar os meus versos corcel,
Preciso tornar os meus versos comboio,
Preciso tornar os meus versos seta,
Preciso tornar os versos pressa,
Preciso tornar os versos nas coisas do mundo
Tudo cantavas, e em ti cantava tudo —
Tolerância magnífica e prostituída
A das tuas sensações de pernas abertas
Para os detalhes e os contornos do sistema do universo.

m
Abram falência a nossa vitalidade!
Escrevemos versos, cantamos as coisas-falências; não as vivemos.
Como poder viver todas as vidas e todas as épocas
E todas as formas da forma
E todos os gestos do gesto?
O que é fazer versos senão confessar que a vida não basta
O que é arte senão um esquecer de que é só isto Adeus, Walt, adeus!
Adeus até ao indefinido do para além do Fim.
Espera-me, se aí se pode esperar,
Quando parte o último comboio?
Quando parte o último comboio?
Quando Parte? (Quando partimos)
n
Choro como a criança a quem falta a lua perto
, Como o amante abandonado pela que não tem
ainda, Com o livro inexplícito do seu Reino por vir,
O que se julga em vão Motor,
Eixo do movimento dos espíritos,
Fulcro das ambições sombrias,
Auge dinâmico das tropas da ascensão,
Ou, mais claro e mais rápido,
Protoplasma do mundo matemático do futuro!

Quem sou eu, afinal, por que te saúdo?
Quem com nome e língua e sem voz?

A labuta prostituta do caldeamento de […]
Nos altos-fornos de mim!

  Minha oração-cavalgada!
Minha saudação-arranco!
Quem como tu sentiu a vida individual de tudo?
Quem como tu esgotou sentir-se – a vida — sentir-nos?
Quem como tu tem sempre o sobresselente por próprio
E transborda por norma da norma — forma da Vida?
[…]
a minha alegria é uma raiva,
o meu arranco um choque
(Pá!)
em mim…

Saúdo-te em ti ó Mestre da minha doença de saúde
o primeiro doente perfeito da universalite que tenho
o caso-nome do «mal de Whitman» que há dentro de mim!
St. Walt dos Delírios Ruidosos e a Raiva! p

Abram todas as portas!
Partam os vidros das janelas!
Omitam fechos na vida de fechar!
Omitam a vida de fechar da vida de fechar!
Que fechar seja estar aberto sem fechos que lembrem,
Que parar seja o nome alvar de prosseguir,
Que o fim seja sempre uma coisa abstracta e ligada
Fluida a todas as horas de passar por ele!
Eu quero respirar!
Dispam-me o peso do meu corpo!
Troquem a alma por asas abstractas,
ligadas a nada!
Nem asas, mas a Asa enorme de Voar!

Nem Voar mas o que fica de veloz quando
cessar é voar
E não há corpo que pese na alma de ir!

Seja eu o calor das coisas vivas, a febre
Das seivas, o ritmo das ondas e o […]
Intervalo em Ser para deixar de Ser ser…!

Fronteiras em nada!
Divisões em nada!
Só Eu.

q
Para cantar-te
Para saudar-te
Era preciso escrever aquele poema supremo,
Onde, mais que em todos os outros poemas supremos,
Vivesse, numa síntese completa feita de uma análise sem esquecimentos,
Todo o Universo de coisas, de vidas e de almas,
Todo o Universo de homens, mulheres, crianças,
Todo o Universo de gestos, de actos, de emoções, de pensamentos,
Todo o Universo das coisas que a humanidade faz,
Das coisas que acontecem á humanidade — Profissões, leis, regimentos, medicinas, o Destino,
Escrito a entrecruzamentos, a intersecções constantes
No papel dinâmico dos Acontecimentos,
No papirus rápido das combinações sociais,
No palimpsesto das emoções renovadas constantemente.


r

O verdadeiro poema moderno é a vida sem poemas,
É o comboio real e não os versos que o cantam
É o ferro dos rails, dos rails quentes, é o ferro das rodas, é o giro real delas.
E não os meus poemas falando de rails e de rodas sem eles.

s
No meu verso canto comboios, canto
automóveis, canto vapores,
Mas no meu verso, por mais que o ice, há só ritmos e ideias,
Não há ferro, aço, rodas, não há madeiras, nem cordas,
Não há a realidade da pedra mais nula da rua,
Da pedra que por acaso ninguém olha ao pisar
Mas que pode ser olhada, pegada na mão, pisada,
E os meus versos são como ideias que podem não ser compreendidas.
O que eu quero não é cantar o ferro: é o ferro.
O que eu penso é dar só a ideia do aço – e não o aço —
O que me enfurece em todas as emoções da inteligência
É não trocar o meu ritmo que imita a água cantante
Pelo frescor real da água tocando-me nas mãos,
Pelo som visível do rio onde posso entrar e molhar-me,
Que pode deixar o meu fato a escorrer, Onde me posso afogar, se quiser,
Que tem a divindade natural de estar ali sem literatura.
Merda! Mil vezes merda para tudo o que eu não posso fazer.
Que tudo, Walt — ouves? — que é tudo, tudo, tudo?

Todos os raios partam a falta que nos faz não ser Deus
Para ter poemas escritos a Universo e a
Realidades por nossa carne
E ter ideias-coisas e o pensamento
Infinito!
Para ter estrelas reais dentro do meu pensamento-ser
Nomes-números nos confins da rainha emoção-a-Terra.


t

Futilidade, irrealidade, […] estática de toda a arte,
Condenação do artista a não viver!

Ó quem nos dera, Walt,
A terceira coisa, a média entre a arte e vida
A coisa que sentiste, e não seja estática nem dinâmica
Nem real nem irreal
Nem nós nem os outros —
Mas como até imaginá-la?
Ou mesmo aprendê-la
Mesmo sem a esperança de não a ter nunca?

A dinâmica pura, a velocidade em si,
Aquilo que dê absolutamente as coisas,
Aquilo que chegue tactilmente aos sentidos,
Construamos comboios, Walt, e não os cantemos,
Cavemos e não cantemos, meu velho, o cavador e o campo,
Provemos e não escrevamos,
Amemos e não cantemos,
Metamos dois tiros de revólver na primeira cabeça com chapéu
E não façamos onomatopeias inúteis e vãs no nosso verso
No nosso verso escrito a frio, e depois à máquina e depois impresso.

Poema que esculpisse em Móvel e Eterno a escultura,
Poema que esculpisse palavras [...]
Que […] ritmo o canto, a dança e […]
Poema que fosse todos os poemas,
Que dispensasse bem outros poemas,
Poema que dispensasse a Vida.
Irra, faço o que quero, estorça o que estorça no meu ser central,
Force o que force em meus nervos industriados a tudo,
Maquine o que maquine no meu cérebro furor e lucidez,
Sempre me escapa a coisa em que eu penso,
Sempre me falta a coisa que […] e eu vou
ver se me falta,
Sempre me falta, em cada cubo, seis faces,
Quatro lados em cada quadrado do que quis exprimir,
Três dimensões na solidez que procurei perpetuar…
Sempre um comboio de criança movido a corda, a cordel,
Terá mais movimento que os meus versos estáticos e lidos,
Sempre o mais verme dos vermes, a mais química célula viva
Terá mais vida, mais Deus, que toda a vida dos meus versos,
Nunca como os duma pedra todos os vermelhos que eu descreva,
Nunca como numa música todos os ritmos que eu sugira!
Nunca como […]

Eu nunca farei senão copiar um eco das coisas,
O reflexo das coisas reais no espelho baço de mim.

A morte de tudo na minha sensibilidade (que vibra tanto!)
A secura real eterna do rio lúcido da minha imaginação!
Quero cantar-te e não posso cantar-te, Walt!
Quero dar-te o canto que te convenha,
Mas nem a ti, nem a nada, — nem a mim, ai de mim! — dou um canto…

Sou um surdo-mudo berrando em voz alta os seus gestos,
Um cego fitando à roda do olhar um invisível-tudo

Assim te canto, Walt, dizendo que não posso cantar-te!
Meu velho comentador da multiplicidade das coisas,
Meu camarada em sentir nos nervos a dinâmica marcha
Da perfeita físico-química da […]
Da energia fundamental da aparência das coisas para Deus,
Da abstracta forma de sujeito e objecto para além da vida

Andamos a jogar ás escondidas com a nossa intenção…
Fazemos arte e o que queremos fazer afinal é a vida.
O que queremos fazer já está feito e não está em nós fazê-lo,
Ou fá-lo o […] melhor do que nós, mais de perto,
Mais instintivamente […]
Sim, se o que nos poemas é o que vibra e fala,
O mais casto gesto da vida é mais sensual que o mais sensual dos poemas
Porque é feito por alguém que vive, porque é […] porque é Vida.


u

Paro, escuto, reconheço-me!
O som da minha voz caiu no ar sem vida.
Fiquei o mesmo, tu estás morto, tudo é insensível…
Saudar-te foi um modo de eu querer animar-me,
Para que te saudei sem que me julgue capaz
Da energia viva de saudar alguém!


Ó coração por sarar! quem me salva de ti?


In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002



Revista Pessoa
 



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