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Confira trecho de Hereges, de Leonardo Padura



2015-09-26

Parte do capítulo 3

Quando Joseph Kaminsky e seu sobrinho Daniel chegaram ao porto na manhã de 27 de maio de 1939, o sol ainda não havia nascido. Mas, graças aos refletores colocados na alameda de Paula e no cais de Caballeria, descobriram com entusiasmo que o luxuoso transatlântico já estava ancorado na baía, havendo chegado várias horas antes do previsto, incitado pela presença de outros navios carregados de passageiros judeus, também em busca de um porto americano disposto a aceitá-los. A primeira coisa que chamou a atenção de Pepe Carteira foi que o navio teve de fundear longe dos pontos onde costumavam atracar os barcos de passageiros: o cais de Casablanca, onde ficava o Departamento de Imigração, ou o da linha Hapag, a Hamburgo-Amerikan Linen, à qual pertencia o Saint Louis e onde desembarcavam os turistas de passagem por Havana.

Nas imediações do porto já estavam reunidas centenas de pessoas, na maioria judeus, mas também muitos curiosos, jornalistas e policiais. E por volta das seis e meia da manhã, quando se acenderam as luzes do convés e se ouviu o sinal da sirene, ordenado pelo capitão do barco, para abrir os salões do café da manhã, muitos dos que se reuniam no cais pularam de alegria, provocando uma prolongada algazarra à qual se juntaram os passageiros, pois tanto uns como outros presumiram que era uma indicação de desembarque iminente.

Com o passar dos anos, e graças à informação coletada, Daniel Kaminsky compreendeu que aquela aventura destinada a traçar o destino de sua família havia nascido tortuosamente macabra. Na realidade, enquanto o Saint Louis navegava em direção a Havana, já estavam marcados os passos da tragédia em que terminaria aquele episódio, um dos mais vergonhosos e mesquinhos da política em todo o século XX. Porque no destino dos judeus embarcados no Saint Louis cruzaram-se, como se quisessem dar forma às espirais de um laço de forca, os interesses políticos e propagandísticos dos nazistas, empenhados em mostrar que permitiam que os judeus emigrassem, e as estritas políticas migratórias exigidas pelas diferentes facções do governo dos Estados Unidos, mais o peso decisivo de suas pressões sobre os governantes cubanos. O lastro dessas realidades e manipulações políticas se somaria, como clímax, ao maior mal que afligiu Cuba durante aqueles anos: a corrupção.

As indispensáveis autorizações de viagem concedidas pela agência cubana estabelecida em Berlim foram uma peça-chave no jogo perverso que envolveria os pais e a irmã de Daniel e muitos outros dos 937 judeus embarcados no transatlântico. Mais tarde se saberia que a venda das autorizações era parte de um negócio montado pelo senador e ex-coronel do Exército Manuel Benítez González, que, graças à proximidade de seu filho com o poderoso general Batista, exercia na época o cargo de diretor de Imigração. Por intermédio de sua agência de viagens, Benítez chegou a vender cerca de 4 mil autorizações de entrada a Cuba, a 150 pesos cada uma, o que produziu um fabuloso ganho de 600 mil pesos da época, dinheiro com o qual deve ter molhado a mão de muita gente, talvez até a do próprio Batista, que controlava todos os fios que moveram o país desde sua Revolta dos Sargentos de 1933 até sua vergonhosa fuga na primeira madrugada de 1959.

Evidentemente, ao tomar conhecimento desses movimentos, o então presidente cubano, Federico Laredo Brú, decidiu que era chegada a hora de entrar no jogo. Movido por pressão de alguns ministros, pretendia mostrar sua força ante o poder de Batista, mas também, como era o costume nacional, dispunha-se a ficar com uma fatia do bolo. O primeiro gesto presidencial foi aprovar um decreto segundo o qual cada refugiado que pretendesse chegar a Cuba deveria contribuir com quinhentos pesos para demonstrar que não seria um ônus público. E, quando as autorizações de Benítez e as passagens do Saint Louis já estavam vendidas, editou outra lei que cancelava os vistos de turista já concedidos e exigia dos passageiros o pagamento de quase meio milhão de dólares ao governo cubano para permitir seu ingresso na ilha na condição de refugiados.

Os embarcados no transatlântico, é óbvio, não podiam pagar essas quantias. Ao deixar o território alemão, os supostos turistas só tiveram permissão para levar uma mala de roupa e dez marcos, equivalentes a cerca de quatro dólares. Mas, como parte do jogo, Goebbels, o chefe da propaganda alemã e demiurgo desse episódio, fizera circular o boato de que os refugiados viajavam com dinheiro, diamantes e joias que representavam uma enorme fortuna. E o presidente cubano e seus assessores deram ao alto funcionário nazista muito mais que o benefício da dúvida.

Quando amanheceu, a multidão aglomerada no porto já ultrapassava 5, 6 mil pessoas. O menino Daniel Kaminsky não entendia nada, pois os comentários que circulavam eram contínuos e contraditórios: uns despertavam esperança e outros, desconsolo. As pessoas começaram a fazer apostas: se desembarcariam ou não desembarcariam, apoiando suas opiniões em diferentes argumentos. Para consolo dos passageiros e de seus parentes, alguém informou que os procedimentos administrativos de desembarque só haviam sido adiados por ser fim de semana e a maioria dos funcionários cubanos estar de folga. Mas a maior confiança dos familiares estava depositada na certeza de que em Cuba tudo se podia comprar ou vender, e por esse motivo logo chegariam a Havana enviados do Comitê para a Distribuição dos Refugiados Judeus dispostos a negociar os preços estabelecidos pelo governo cubano.

Na realidade, Joseph Kaminsky e seu sobrinho Daniel tinham uma razão muito forte para estarem mais otimistas do que os outros familiares de viajantes aglomerados no porto de Havana. Tio Pepe Carteira já havia contado ao menino, no maior segredo, que seus pais e sua irmã traziam algo muito mais valioso que vistos: uma chave capaz de escancarar as portas da ilha aos três Kaminskys embarcados no Saint Louis. Com eles viajava, subtraída de algum modo ao confisco nazista, a pequena tela com uma pintura antiga que durante anos estivera pendurada em uma parede da casa da família. Aquela obra, assinada por um famoso e bem cotado pintor holandês, era capaz de atingir um valor que, supunha Joseph, superaria de longe as exigências de qualquer funcionário da polícia ou da Secretaria de Imigração cubanas, cujas benesses se costumavam comprar por muito menos dinheiro.



Revista Pessoa
 



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