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Dez contos para ler sentado



2012-09-17

O projeto integra o Art on Chairs - Uma ideia para o Mundo numa cadeira, um conjunto de nove exposições espalhadas em 3 pontos da cidade de Paredes, distrito do Porto, norte de Portugal. No que é considerado o maior evento mundial de Arte e Design serão apresentados pela primeira vez mais de 150 artefatos de designers portugueses e estrangeiros, além de cadeiras que se tornaram ícones na história do mobiliário. Com o objetivo de conciliar tradição e inovação, foi concebido um espaço para reinterpretações feitas por estudantes, artistas e escritores desse objeto tão presente no nosso cotidiano.

A vertente literária do projeto, organizada por Tito Couto, consiste na instalação de dez cabines telefônicas nos jardins da Casa da Cultura de Paredes, onde as pessoas podem ouvir cada um dos contos que têm como mote a cadeira escritos por 10 autores lusófonos. A ideia segundo os idealizadores é remeter para a comunicação transatlântica da Língua Portuguesa. Dez contos para ler sentado serão editados em livro pela Editora Caminho em Outubro. A vinda da exposição para o Brasil está sendo negociada com patrocinadores.

Confira trechos dos dez contos abaixo.







-A dona da ausência

Mia Couto (Moçambique).


O homem soltou uma gargalhada. Ele, soldado, pentear a mulher? Ele, o homem, fazer serviço de cunhada? Jamais, disse, acentuando a palavra “jamais”. E repetiu: jamais aceitaria uma tão servil condição. Andei por campos de fumo e cinza, rasguei a alma por entre ruínas e despojos e agora, quando deveria ser coroado soberano, eis que me pedem a mais inusitada das humilhações. Foi assim que falou, palavras como se fossem disparos e balas.  

- As cebolas tornam-nos maus

Sandro William Junqueira (Portugal).


Todas as manhãs, chegado à esquina, desdobra a cadeira portátil que traz apertada ao sovaco. Senta-se. O homem canta para escapar à vida. As canções saem boca fora. Tristes, alegres, melancólicas. Sem auxílio de outro instrumento. Apenas o chapéu preto, deitado no chão, de abas pedintes.

Alguns largavam moedas, é certo. Mas, quase sempre sem desacelerar - ou travar - o passo. Moedas leves saíam de certos bolsos. Com o intuito de acertar no cesto do chão (o chapéu) a dois metros e vinte e cinco de distância. Mais pelo gozo da perícia. Atirar moedas fracas para tentar acertar no chapéu: eis a bondade.



-A pequena fábrica de sabão artesanal do Sr Chong

Ana Paula Maia (Brasil).


Costumo ler na hora do almoço, porque ele dura somente quinze minutos. Como pouco e rápido. Os outros quarenta e cinco minutos eu me afogo em palavras. Assim como me afogo em rabos à noite, depois da janta. Nunca regurgito o que como, seja orgânico, animal, infestado, doente. Palavras e secreções; é nisso que penso na maior parte do tempo enquanto mexo o panelão com meus pés fincados na cadeira, minha cadeira.

- O bloqueio

Arthur Dapieve (Brasil).


O que se ouve aqui são apenas insetos e pássaros que se ocultam na hera e nos galhos. Um pouco adiante na rua em declive e de seus infinitos muros verde-escuros há um ângulo reto à direita. Quando se dobra essa esquina depara-se com a traseira de um automóvel prateado. Como a rua em declive calçada por paralelepípedos nunca deixa de ser estreita, ele está estacionado ao longo da via, com as duas rodas direitas sobre a calçada de cimento, de modo a deixar a passagem livre para outros automóveis. Na calçada, sobra espaço para uma pessoa magra passar de lado, desde que tome cuidado para não esbarrar no espelho retrovisor. O espelho retrovisor mostra um homem numa cadeira de rodas.

- A cadeira de sândalo

Luís Cardoso (Timor-Leste).


Desde o início que dei conta que o meu pai, apesar de manter os olhos abertos, mostrava nos músculos do rosto um esgar. Como se tivesse feito um esforço para se libertar de uma força que o prendia. Ao esticar-se na cadeira de lona deixou-se prender pelo assento. Como se este tivesse mãos que não o largavam por nada deste mundo

- Não te atrevas

a tocar-lhe com as mãos. Ausentou-se para um sítio distante, fatigado de guerras. Por não ter dormido durante tantos anos. Sempre a conjecturar batalhas desde o dia em que o promoveram a coronel. Agora que a guerra estava acabada precisava de descanso. Trouxe de lá de cima das montanhas essa cadeira de lona.


-Três cadeiras

João Tordo (Portugal).


Inclino-me na cadeira e roubo uma moeda de trás da orelha do tipo que está à minha frente, do lado esquerdo, o tipo que está a fumar. Ele tem um ataque de fúria e é o outro (o que me é familiar, eu conheço-o, já o vi algures) que impede o tipo do lado esquerdo de me ralhar. Embrulho-me no cobertor cinzento e já estou quente outra vez. Vou explicar, então, por que motivo o tempo é uma ilusão. Tomemos o exemplo da magia, que me é particularmente caro. A magia é diferente de todas as outras ciências naturais e artes performativas. A magia é a arte de manobrar o tempo.

- Kosava: um vento que chegava aos sonhos

Ondjaki (Angola).


A mulher levantou-se bruscamente, deu a volta, abriu a cortina do confessionário. O Padre, em susto, não se moveu. A mulher ergueu a mão na direcção do seu ombro. O Padre recolheu-se o quanto podia. A mão dela, trémula. A dele, imóvel.

A mulher queria tocar.

Tocar a parte lateral da cadeira. Uma oblonga saliência retorcida, fálica, que não era simétrica à outra. E tocou. A mulher deixou os dedos deslizarem pela madeira entrançada. Suspirou.

Fechou os olhos e retirou-se.

-Sapateiro pela liberdade da pátria

Waldir Araújo (Guiné-Bissau).


Sem dúvida, uma cadeira digna de um distinto dirigente, de um Régulo, de um Rei. Digno de um sapateiro como Martinho Silvino, como eu acabaria por entender mais tarde. Mas o sapateiro não estava sentado na imponente cadeira, mas sim num típico banco curvo e baixo, muito usado na Guiné-Bissau. Fomos apresentados. Carrancudo, o homem respondeu com um “bom dia” entre dentes e nem sequer olhou para mim, pregou com mais força a sola de um velho sapato castanho. “– Se pensa que vou falar sobre o passado, está enganado. O passado já lá vai e eu não gosto de jornalistas”, martelou o homem curvo de tez morena e cabelos de neve.

- A cadeira do pai

Vinicius Jatobá (Brasil).


Dulce terminou de passar o café escuro e arrumou uma bandeja com uma fatia do bolo de fubá e uma xícara com o tanto de açúcar que sabia que Elizar gostava e atravessou gatuna todos os quinze cômodos da casa até a varanda. Mas meu pai não fez gesto de sentir o cheiro do café. Nem o cheiro do café, nem o calor mulato de Dulce ao seu lado. A mão de meu pai não buscou as ancas de Dulce naquela manhã. Estavam quietas, cheias de veias. Dulce então viu o cachimbo no chão e o fumo caprichoso espalhado e o barulho que vinha da rua era imenso e o vento tranquilo. E Dulce entendeu tudo em um grito que Jorge da Botica ouviu dois quarteirões abaixo de nossa casa.


-Moxin

Abraão Vicente (Cabo Verde).


O que será que quer dizer “ninguém os vai amar como nós” quando pronunciada por um mero objecto em tom de ameaça. Aquele onde nos sentamos por exemplo. Praga de madeira pega? Se não batemos em madeira para afastar o mau-olhado batemos em quê. Moxin sempre teve as manias de pensar que era a minha ama. Mal sentava à mesa sussurrava-me:

- Põe-te direito menino.

E eu recompunha a coluna olhando para o pai indiferente.

-Deixa-te estar menino.



Revista Pessoa
 



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