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Músico faz estreia na literatura com prosa precisa e vigorosa



2012-08-04

A epígrafe de Albert Camus, que abre Réveillon e outros dias (Editora Record), livro vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2011 na categoria contos, sinaliza sem equívocos as referências e influências na literatura do músico Rafael Gallo.

Em todos os dez contos do primeiro livro de Gallo, o leitor encontrará notas do estilo peculiar de Camus que até hoje faz escola: a prosa concisa, vigorosa e desprovida de ornamentos, econômica nos preâmbulos. Influência como traço marcante, mas não definitivo, uma vez que em seu conjunto, os textos vão singularizando Gallo como um autor de perplexidade não moralizante da imbricação nas relações humanas e, sobretudo, grande aptidão analítica.

A escrita é fluida em busca do essencial. Se há sobras, essas ocorrem talvez pela linguagem que oscila entre uma estruturação mais tradicional e o coloquialismo, o que, por si, não é problema, uma vez que o autor discute o seu tempo no lastro de suas angústias com as ferramentas moldadas por esse próprio tempo: sucessões rápidas e imagéticas como relances de câmera que, no entanto, se salvam da transitoriedade exatamente pelo já mencionado poder de análise.

Nesse sentido, nenhum dos contos desse volume vem ou vai em vão. O autor mostra que sabe contar uma história com seu olhar agudo. “Réveillon”, que abre o livro, distingue-se de forma aguda pela denúncia das filigranas afetivas numa relação pai-filho em que o amor simbiótico não sustenta a separação entre “dois seres humanos extremamente semelhantes”.

“O Vendedor” vai abrindo uma possibilidade interessante de discussão sobre a desmesura da ambição na questão do comércio de órgãos humanos como numa espécie de teatro do absurdo. Com delicadeza implacável aclara a hipocrisia e a misoginia no encontro de um rapaz com a noiva recém-estuprada. O leitor possivelmente se perguntará, depois: qual será, entre a real e a simbólica, a velada, a violência mais deletéria?

Ainda que todos os textos se mantenham numa qualidade que justifique a premiação, é no conto “Espiral” que a mão do artista aparece com toda a sua potencialidade, ao mostrar pouco a pouco o aspecto sombrio da solidão, seus motores, seus produtos. Desadaptação, fracasso, a oxidação dos metais como metáfora, a cadela e sua prenhez de prole incestuosa vão se tecendo como anticlímax para a surpresa final, um desfecho sem nenhum tabu.

Com Réveillon e outros dias, Rafael Gallo chega à nova literatura brasileira e dá mostras de que vem para ficar – um autor de seu próprio tempo.

  Réveillon e outros dias
Rafel Gallo
Editora Record



Revista Pessoa
 



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