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Turpilóquios e tabuísmos



2012-06-25

Interessante saber que, pronto em 1974, nos anos de chumbo da ditadura militar, o dicionário O dicionário do palavrão e termos afins, de Mário Souto Maior, foi proibido pela censura, que liberou sua publicação apenas na época da Anistia. Talvez os palavrões fossem ameaça à segurança nacional ou simplesmente ataque aos bons costumes, tão caros aos nossos censores

Num soneto provavelmente escrito no final do século XVIII, que começava com o verso “Dizem que o rei cruel do Averno imundo”, o poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage, usando linguagem chula, perguntava, provocativamente, por que tínhamos órgãos sexuais se Deus não nos dava liberdade para usá-los. Em seguida, numa celebração hedonista, espécie de carpe diem pornográfico, ele dizia que as pessoas deveriam praticar sexo à vontade, pois “as horas do prazer voam ligeiras”. Esse tipo de verso – que chamamos fescenino, devido a seu caráter obsceno e licencioso – foi cultivado por célebres escritores, de Gregório de Matos a Carlos Drummond de Andrade, embora ainda cause polêmica, pois o palavrão parece, para muitos, não combinar com a linguagem literária.

Mas o palavrão (que poderia ser denominado também arrieirada, linguarada, pachouchada ou turpilóquio) anda vencendo obstáculos, continua a existir apesar das dificuldades e vai se impondo como registro linguístico indispensável.

No Brasil, existe até um dicionário especializado no assunto: O dicionário do palavrão e termos afins, de Mário Souto Maior. Com mais de quatro mil entradas, a obra explica o significado de palavras ou expressões que podem ser consideradas grosseiras, ofensivas, libidinosas, de todas as regiões do país.

Interessante saber que, pronto em 1974, nos anos de chumbo da ditadura militar, o dicionário foi proibido pela censura, que liberou sua publicação apenas na época da Anistia. Talvez os palavrões fossem ameaça à segurança nacional ou simplesmente ataque aos bons costumes, tão caros aos nossos censores. A Anistia, “ampla, geral e irrestrita”, acabou por anistiar também os palavrões. Felizmente.

O sociólogo Gilberto Freyre, que assina o prefácio do tal dicionário, reconhece: “No momento exato, sim, o palavrão é necessário. É insubstituível. Em termos por assim dizer fisiológicos, ele é, num momento desses, equivalente do arroto ou do peido alto”.

Na terminologia linguística, podemos colocar os palavrões no grupo dos “tabus” ou “tabuísmos”. O Dicionário de Linguística, de Jean Dubuois (et alii), analisa a existência de “palavras tabus (tabus sexuais, religiosos e políticos)”, cujo emprego ensejaria “a rejeição do falante pelo grupo social ou, pelo menos, a depreciação então ligada a seu comportamento”. O Houaiss, explicando o que é “tabuísmo”, fala em palavras ou expressões “consideradas chulas, grosseiras ou ofensivas demais na maioria dos contextos”, mostrando que elas estariam ligadas ao metabolismo, aos órgãos e funções sexuais ou a condutas nem sempre aceitas pela sociedade.

Aliás, não deixa de ser curioso notar que os palavrões acabem por refletir os preconceitos sociais. Chamar uma mulher de “puta” ou alguém de “filho da puta” contém boa dose de machismo; afinal, não existem xingamentos do mesmo nível para homens. Uma mulher de vida lasciva merece críticas. Um homem, não. Da mesma forma, costuma ser ofensivo chamar uma pessoa de “veado”, “bicha”, “sapatão” ou “chibungo”, como se ser homossexual fosse insulto.

Todos esses tabuísmos, se usados em situações formais de comunicação, causariam transtornos, pois os palavrões funcionam como a maioria das gírias: deve-se saber em que contextos é mais aceitável usá-los. Porém, não é viável fingir que eles não existem. Até porque, às vezes, os palavrões não são exatamente palavrões...

Se um sujeito descalço, andando pela sala da própria casa, tropeça na quina do sofá, ele pode soltar um palavrão. Mas, nesses casos, os palavrões, usados em função interjetiva, exprimem a emoção em estado bruto e, por isso, estão destituídos de grande parte de carga semântica depreciativa que costumam ter. Dizer “carambola” ou “caderneta”, em alto e bom som, produziria efeito parecido.

Em todas as línguas há palavrões. Quase todas as pessoas sabem usá-los e os usam. Existem dicionários de palavras tabus em inglês, francês, alemão, espanhol, italiano ou árabe. Na hora de ofender ou provocar, os idiomas são muito criativos.

E condenar sumariamente o emprego de palavrões teria um fundo moral ou religioso, jamais linguístico, pois, para os estudiosos da linguagem, o palavrão apresenta riqueza de significados que nos assiste apenas estudar.



Eduardo Calbucci
Eduardo Calbucci é mestre e doutor em Linguística pela USP. É professor na USP e consultor do Núcleo Educativo da TV Cultura. Autor de Saramago: um roteiro para os romances. Foi curador da exposição “Menas – o certo do errado, o errado do certo”, do Museu da Língua Portuguesa.



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