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As apostas da FLIP 2011



2012-03-11

Pode-se dizer que a oitava edição da FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty se caracterizou, conforme a seleção de autores, por um tom mais político e sociológico, elegendo – num ano de eleições – Fernando Henrique Cardoso para a abertura do evento que homenageou Gilberto Freyre e fez ecoar importantes vozes orientais como as do indiano Salman Rushdie, da iraniana Azar Nafisi e do israelita A.B. Yeoshua no calor do momento em que Lula protagonizava saias justas diplomáticas por ligações, digamos, perigosas com o fundamentalista islâmico Mahmoud Ahmadinejad. Isabel Allende tocou em “veias abertas” ao repassar trechos da história do totalitarismo no Chile e relativizá-los com a atualidade, assim como a cubana Wendy Guerra, para quem, ilhada pelo castrismo, o mar “é um muro”. Foi intensa e oportuna a repercussão na mídia das declarações então.

A FLIP de 2011, sob a curadoria de Manuel da Costa Pinto, homenageia o modernista Oswald de Andrade e parece apostar mais fichas nos autores de ficção, alguns jovens ainda pouco conhecidos do grande público mas, sem dúvida, originais, premiados e avalizados por publicações como a britânica Granta e mestres como Saramago, Piglia e Bolaño: respectivamente, o português nascido em angola valter hugo mãe (nome e obra do autor sempre em minúsculas como em e.e.cummings) e os argentinos Andrés Neuman e Pola Olaixarac.

Boa surpresa promete ser o lançamento do primeiro livro do escritor e jornalista norte-americano Michael Sledge, The more I owe you (Tanto mais lhe devo), título inspirado no soneto do poeta português Luís de Camões: “Quanto mais vos pago, mais vos devo”. A obra se baseia em cartas e relatos reais para recriar o relacionamento entre a poeta americana Elizabeth Bishop e a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares a partir de 1951. A autor traça o percurso afetivo e criativo de Bishop no Brasil.

A safra mais recente da ficção brasileira será representada por Marcelo Ferroni, Eduardo Sterzi, Edney Silvestre e Teixeira Coelho. Antonio Tabuchi, autor de Os três últimos dias de Fernando Pessoa e Noturno indiano, entre outros, tradutor na Itália de Pessoa e de Carlos Drummond de Andrade, que cancelou sua vinda no ano passado, confirmou presença em 2011 e figura no panteão dos consagrados. Na festa, debaterá com Ignácio de Loyola Brandão. O americano James Ellroy, um dos papas do romance noir, autor de Dália negra, transposto ao cinema por Brian de Palma promete trazer bom público ao evento. João Ubaldo Ribeiro, ultrapassada a notória polêmica de 2004, estará na mesa intitulada “Alegorias da ilha Brasil”, no dia 9.

O escritor húngaro Péter Esterhazy, vencedor de mais de 30 prêmios literários lança, na FLIP, Os verbos auxiliares do coração. Kamila Shamsie, paquistanesa que vive em Londres, cujo livro Sombras marcadas foi finalista do Prêmio Orange de 2009 é a única voz do Oriente este ano.

Além da literatura de ficção, a crítica literária é enfatizada já na abertura do evento, com a presença de Antonio Candido, talvez o maior crítico brasileiro vivo e pela própria Oficina que tradicionalmente a festa oferece escolhendo, como tema da vez, a Crítica Literária, a ser conduzida pelo poeta e crítico Frederico Barbosa. A crítica oriunda das universidades chega com o argentino Gonzalo Aguilar, que lançou em 2010 Por uma ciencia del vestígio errático (Ensayos sobre la antropofagia de Oswald de Andrade) e oportunamente comparece no evento em tributo a um dos precursores da Semana de 1922. Márcia Camargos, escritora e jornalista pós-doutorada em História e autora de Villa Kyrial: crônica da Belle Époque paulistana, entre outros, enriquecerá as discussões acerca do mote, bem como o professor de Literatura Comparada da UERJ João Cezar de Castro Rocha, que lança a edição ampliada de Antropofagia hoje? – Oswald de Andrade em cena na FLIP. John Freeman, crítico da Granta, também pisará as pedras de Paraty.

A mesa 4, na quinta, 7, sob o sugestivo título de “O humano além do humano”, deve ser uma das mais disputadas do evento, pela projeção midiática e intelectual de seus integrantes para além dos domínios estritamente literários. Numa interface interessante reunirá o filósofo Luiz Felipe Pondé, doutor pela USP e pela Université de Paris VIII, pós-doutor pela Universidade de Tel Aviv, colunista da Folha de SP e o neurocientista Miguel Nicolelis, codiretor do Centro de Neuroengenharia da Duke University, cujo trabalho com pontes neurais foi aclamado pela publicação Scientific american e pelo MIT (Massachussets Institute of Technology), como uma das “10 tecnologias que mudarão o mundo”. Aliás, um dos sérios candidatos ao Nobel e filho da escritora de livros infanto-juvenis Giselda Laporta Nicolelis. Em tempo: Pondé lançará na FLIP o livro Para entender o catolicismo.

David Byrne (ex-Talking Heads), José Miguel Wisnik, professor de Literatura Comparada da USP, pianista e compositor, e o jornalista e cartunista maltês Joe Sacco (Pulitzer de Jornalismo) darão os desdobramentos mais pop à festa.

Mas ainda há muito mais a dizer!



Revista Pessoa
 



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