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O humano além do humano



2012-03-11

Quando o racionalismo da neurociência e o ceticismo da filosofia se juntam numa mesma mesa, o resultado é quase sempre de alta voltagem. O debate entre o neurocientista Miguel Nicolelis (na foto) e Luiz Felipe Pondé, mediado por Laura Greenhalg, editora de Cultura do jornal O estado de São Paulo, ontem, 7, na FLIP, sobre o tema “O humano além do humano”, animou ainda mais o público ávido pelo intercâmbio de ideias de ponta nesse inverno em Paraty.

A discussão foi um movimento dialético dos mais interessantes. De um lado Miguel Nicolelis, professor titular de neurobiologia e engenharia biomédica e co-diretor do Centro de Neuroengenharia da Duke University, candidato ao Nobel, aclamado pela Scientific American como um dos vinte maiores cientistas do mundo mostrou a uma plateia mesmerizada pelo alcance da ciência a imagem e o som, captados em laboratório, da atividade neuronal, ou seja, reproduziu visualmente e mostrou que ruído tem um pensamento – aparentemente, a imagem de uma carta escrita a máquina e o som de uma rádio AM mal sintonizada. Depois demonstrou com recursos visuais o seu trabalho com próteses neurais e a criação de avatares que reagem aos comandos cerebrais de primatas. Em síntese, está desenvolvendo uma tecnologia que promoverá “a libertação do cérebro dos desígnios e limites do corpo humano”, segundo suas palavras. Grosso modo, o cérebro humano sendo capaz de comandar do ponto de vista motor e sensorial, com seus sinais elétricos, neuropróteses para a restauração dos movimentos. Essa pesquisa vem de um consórcio entre universidades do mundo inteiro intitulado Walk Again Project. Sua apresentação foi marcada pelo otimismo e esperança por aquilo que podemos chamar de um mundo melhor.

Não por acaso, no outro vértice da discussão estava Luiz Felipe Pondé, filósofo, doutor pela USP e pela Université de Paris VIII, pós-doutor pela Universidade de Tel Aviv, colunista da Folha de São Paulo cujo discurso tangencia certo pessimismo lúcido ao niilismo filosófico, embora nele não creia absolutamente, uma vez que “a experiência da ciência na sua radicalidade pode produzir um niilismo perigoso, em que acreditamos poder tudo”, pondera. Autor do livro Contra um mundo melhor, entre vários outros, Pondé pratica a filosofia dentro do princípio da dúvida e do questionamento das verdades, perpassando o viés psicanalítico de que “o ser humano é humano porque é atravessado pela falta”. Em sua visão, o projeto de transformação de um ser humano cada vez melhor carrega riscos de se gerar monstros. “Desconfio disso porque desconfio dos cérebros humanos, não creio que tenhamos controle daquilo que somos”, emendou.

Para fazer contraponto ao otimismo de Nicolelis nas tecnologias que auxiliarão o homem em seu aspecto faltante mais material, o do próprio corpo biológico, passeou pelas utopias filosóficas desde a República, de Platão, que já trazia o grão da loucura no plano de uma sociedade perfeita a partir, também, de corpos biológicos perfeitos – a ideia da eugenia – até chegar no ideário do fascismo e do nazismo para desaguar sua dúvida quanto ao “projeto de eugenia na matriz de toda a ciência”. Isso para destacar o aspecto crente do ser humano em seu ideal de perfeição, ou seja, a ciência como substituta da religião : “O humano mata Deus e continua operando numa instância mítica de auto-superação. A briga interessante, hoje, do ceticismo, não é com a religião, mas com a ciência e com a razão”, provocou.

Neste ponto, Nicolelis ressalvou a sua concepção da alma humana fora de paradigmas filosóficos ou religiosos, demonstrando a limitação da máquina diante do homem: “a neurociência compreende a alma no seu conceito operacional, do ponto de vista neural. Mas é impossível que a máquina substitua o homem. A história do cérebro não é computável. E se constrói a partir de uma sequência de eventos ontológicos e subjetivos não reproduzíveis. Nosso cérebro tem uma proteção intrínseca à clonagem. O romance da vida de cada um de nós é irreproduzível. A riqueza da mente humana não é redutível”.

Conflitantes e complementares em sua oposição, permanece a ideia de que ciência e filosofia são instâncias que necessariamente – entre farpas e fugazes gentilezas – caminham juntas.


Mosaico cultural
A profusão de artistas de rua em Paraty faze lembrar as Ramblas em Barcelona. Estátuas vivas em seus movimentos robóticos – uma sereia prateada, um bufão veneziano, um Capitão Gancho de quase dois metros de altura, uma rotunda dama de meia-idade transplantada do século dezoito em trajes longos e saia armada, leque espalmado -, artistas plásticos pintando quadros em técnicas várias, um criador de mandalas maleáveis em arame, poetas e ficcionistas itinerantes. Tudo isso se viu ontem nessa cidade. A literatura de cordel, representada na rua pelo casal Macambira e Querindina, vindo de Esperança, Paraíba, atraiu muita gente. Caracterizados como uma versão atual de Lampião e Maria Bonita, com seu sotaque sertanejo e sintaxe invertida, eles apresentaram seus vinte oito publicações de cordel. Desde 2003 viajam o país mostrando sua literatura em festas como a FLIP, uma escrita que vai da “ficção à conscientização”, de acordo com Querindina. Entre seus títulos está o livreto O dia em Macambira morreu. “Brincadeira, morreu não, olha ele aqui, vivinho! É que na literatura a gente pode inventar o que quiser”, cutucou Querindina.



Revista Pessoa
 



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