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Você diz Trem, Eu digo comboio

Imagem: João Concha



2010-11-30

De Lisboa ao Rio de Janeiro, à procura de um sentido para a lusofonia

 

1. “O que quer / o que pode esta língua?” (Caetano Veloso)

Ângelo Torres, realizador, actor, contador de histórias, São-Tomense a viver em Lisboa, atende o telefone: “Luso-quê?!”

“Luso-fonia”, insisto. A voz vai mudando do outro lado do telefone – escritores, cantores, Lisboa, Rio de Janeiro – mas mantém-se o tom: ninguém sabe dizer o que é, ao certo, a lusofonia, se existe, e ainda que exista, talvez não baste. É preciso discutir, discordar, estrebuchar, concordar, amar perdidamente, ficar insatisfeito, porque bom, bom, era a utopia, aquela dos tempos de “descobrir” o mundo. Como se o mundo não existisse antes de nós o dizermos – em português. E é como se cada falante herdasse com o código genético da língua, os versos de “O Quinto Império”, de Fernando Pessoa: “Triste de quem vive em casa, / contente com o seu lar”.

Mas o que quer, afinal, esta língua? Em Lisboa, a resposta parece ser sempre esta: partir. Ainda agora, da minha janela, parou de chover, é fim de dia, o rio Tejo uma pista prateada.

 

2. “It looks as if we two will never be one / Something must be done” (Louis Armstrong)

Dizer batata ou tomate, baunilha ou ostra, pijama ou riso, com sotaque diferente, como na canção de Louis Armstrong, nunca impediu americanos e ingleses de se entenderem, muito menos, de se lerem.

Você diz trem, eu digo comboio. Mas porque não, sugere o poeta brasileiro Heitor Ferraz, criar um dicionário online onde se possa procurar trem e encontrar comboio, procurar comboio e encontrar trem?

“Você escreve ideia, eu escrevo idéia.” E Heitor Ferraz vai continuar a escrever idéia, garante, mesmo com acordo ortográfico. E se ele ainda não está publicado em Portugal, não é por escrever “idéia” mas porque não há suficiente interesse em publicar e ler poesia (nem de um lado nem do outro do Atlântico), e deviam gastar-se recursos a tentar perceber porquê.

Eu digo giro, você diz legal. Apesar do acordo ortográfico, a escritora brasileira Tatiana Salem Levy vai continuar a dizer legal. Vai continuar a colocar pronomes onde os portugueses não colocam, vai continuar “escrevendo”, “chamando” “você”.

Tatiana Salem Levy nasceu em Portugal, por acaso. O seu primeiro romance, “A Chave de Casa”, nasceu primeiro em Portugal, por acaso. A relação dela com Portugal, mais do que profissional, é afectiva. E por isso custa um bocadinho quando vem a Portugal e alguém lhe diz: “Falas brasileiro.”

Todos nós dizemos que falamos português.

 

3. A língua magoa

E nesse dicionário ideal, estaria “cota” ou “mais velho” e outras expressões africanas. Custa quando alguém diz: “Com esse sotaque africano, não podes representar Shakespeare, fazer teatro clássico.” O actor Ângelo Torres aprendeu a ter sempre resposta para a discriminação da língua. Pode ser esta: língua é como cor de pele. “Mais até do que o nome, é a língua que nos dá uma identidade”, diz, “tirando-nos a língua, tiram-nos a identidade”, e então acontece que a língua deixa de ser “pátria”.

Lisboa, por exemplo, está cheio de apátridas da língua. Gente que mistura crioulo cabo-verdiano com português. Negros com sotaques de branco. Brancos com sotaques africanos. Todos apátridas.

 

4. A língua faz sofrer de amor

Para o escritor angolano José Eduardo Agualusa é esta a explicação para a discussão sobre o acordo ortográfico ter sido tão quente – a língua é tão íntima que ninguém se pode meter com ela. No seu novo romance, Milagrário Pessoal, um mais velho angolano tem um sonho em que uma seita procura e mata os assassinos da língua portuguesa.

Mas apesar do amor que existe pela língua, realça Agualusa, existem demasiados equívocos. É como se quiséssemos esquecer os anteriores amores e as pequenas traições da língua. Já ninguém se lembra que “cachimbo” veio do quimbundo de Angola. Já ninguém se lembra que um dia em Portugal nem só os alentejanos e os algarvios utilizavam, como os brasileiros, o gerúndio. Já ninguém se lembra que “antes de Portugal colonizar África durante 400 anos”, diz Agualusa, “África colonizou Portugal durante 800 anos”. Tudo isso deixou marcas na língua.

Também toda a gente diz que agora Lisboa está a ficar cosmopolita. Lisboa tinha era deixado de ser cosmopolita. Há muitos anos. Ninguém se lembra.

 

5. Legal, fixe e cool

Quando Kalaf atendeu o telefone, faltavam duas horas para embarcar para o Rio de Janeiro, onde ia actuar no Canecão – a primeira banda portuguesa a actuar no icónico palco carioca desde Amália Rodrigues.

Quando chegasse provavelmente iam perguntar-lhe – em toda a parte perguntam – se os Buraka Som Sistema são angolanos ou portugueses. Talvez respondesse que são lisboetas de uma Lisboa que não é branca e nunca foi. Os brasileiros iriam ficar baralhados. Em toda a parte – Nova Iorque, Londres, Nova Deli – as pessoas ficam baralhadas.

Muitas vezes perguntam se os Buraka – nome de bairro de subúrbio de Lisboa mas com “k” (outro acordo ortográfico, portanto) – representam um ideal de multiculturalismo; se representam – em carne e osso – a tal lusofonia.

Mas Kalaf não anda a empunhar nenhuma bandeira. Os Buraka limitam-se a fazer música – e as letras das canções escrevem-nas na língua que usam todos os dias. Nos concertos improvisam: pode sair legal, pode sair fixe, pode sair cool.

“Nós já não nos vemos como angolanos ou portugueses”, diz. “Somos cidadãos do mundo.”

 

6. Você e Teresa Salgueiro

Teresa Salgueiro acabou de regressar da Bahia, onde cantou um repertório de música portuguesa ao qual chamou “Viagens na minha terra”. Antes disso esteve em São Paulo a gravar “Você e eu”, um disco de versões de canções brasileiras: Pixinguinha, Vinicius de Moraes, Chico Buarque da Holanda, entre muitos outros. Em Novembro voltava ao Brasil para mais concertos.

Teresa Salgueiro gosta de cantar em português, no Brasil gostam de ouvir cantar português,  e gostam  do seu português de Portugal.

Quando em Portugal um músico se queixa que é difícil entrar no mercado brasileiro, ela aconselha: tentem, ela nunca sentiu “barreira ao interesse por músicas vindas de Portugal”.

Ela gosta de cantar em português, primeiro porque é uma língua boa para cantar; e segundo, porque é uma língua “inspiradora”, precisamente por nela caberem “várias línguas portuguesas”.

 

7. O nosso destino é…

O Tejo outra vez. Um terraço. Talvez a última noite do verão da Europa. José Eduardo Agualusa lança Milagrário Pessoal, a personagem principal é a língua portuguesa.

O romance parte daqui – um angolano a olhar o rio – atravessa continentes e séculos, procurando a origem e o destino das palavras.

É um livro que fica bem lido alto, como na sessão de lançamento. A frase que mais fica no ouvido é: “O nosso destino é o de nos engolirmos uns aos outros.”

 

8. O que a língua (não) pode contra os (maus) costumes

Fazer, fazer, fazer. Em vez de falar, falar, falar. A Casa Fernando Pessoa, diz a sua directora, Inês Pedrosa, prefere fazer: colaboram com o Instituto Moreira Salles, já organizaram o festival Letras em Lisboa, em parceria com o Fórum das Letras de Ouro Preto.

A escritora portuguesa acha que falta trabalho – a nível governamental – para incentivar a circulação de obras e de escritores no espaço de língua portuguesa: “Vejo grandes declarações de intenções, mas não vejo vontade firme, medidas explícitas.” E isto, acrescenta, tanto “cá” como “lá”.

 

9. A mania das grandezas

E agora que Portugal está com os dois pés na Europa, há paz nos países africanos de língua portuguesa, e o Brasil vive finalmente o futuro, dá-nos, mais uma vez, a mania das grandezas.

Em Portugal, todos os dias saem notícias sobre a língua portuguesa: “Português deve ser adotado oficialmente nas grandes organizações internacionais, defende Adriano Moreira, presidente da Academia das Ciências de Lisboa”, escreve o jornal i (e escreve seguindo já o acordo ortográfico); “Macau organiza colóquio da lusofonia em Abril”, anunciou o Diário Digital no mesmo dia, 29 de Setembro. No dia seguinte, começava no Centro Nacional de Cultura, em Lisboa, uma série de conferências sobre o “Balanço Literário da Década no Mundo Lusófono”, começando com: “A expressão literária como esteio da lusofonia”.

Em todos os artigos e colóquios, citam-se sempre os números mágicos: mais de 200 milhões de falantes em 8 países em 4 continentes. Num país pequeno como Portugal, sem por onde crescer, o que pode esta língua fazer por nós?

 

10. Como dizer sonho

A olhar para o Tejo, quase se acredita na lusofonia. Seja como for que você ou eu diga “rio” – este, o Tejo, ou outro –, ou “luz” – esta, a de Lisboa, ou outra – a água continuará a brilhar depois da chuva e você e eu continuaremos a nos comovermos, a querer partir e a escrever: da minha janela eu vejo a língua portuguesa.



Susana Moreira Marques
Susana Moreira Marques nasceu no Porto, em Portugal, em 1976. Escreve para jornais e revistas desde 2004 e recebeu vários prémios de jornalismo. Em 2012 lançou em Portugal o seu primeiro livro, “Agora e na Hora da Nossa Morte”, com a editora Tinta-da-china. Vive em Lisboa com o companheiro e a filha. Foto de Luísa Ferreira.



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