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O fim da narrativa



2016-01-22

Leia conto que integra o livro Diga a Borges se o encontrar - Histórias de sonambulismo contemporâneo, do escritor Peter LaSalle. Publicado originalmente nos Estados Unidos, o premiado livro sai agora pela Mombak, casa que edita a revista Pessoa, com tradução de Lenita Esteves.

Peter LaSalle, escritor americano, é autor do romance Strange Sunlight and Mariposas Song, da coletânea de contos The Graves of Famous Writers, Hockey Sur Glace, e What I Found Out About Her, sem publicação no Brasil. 

Nos Estados Unidos, ele recebeu os Prêmios Flannery OConnor e Richard Sullivan na categoria Conto. LaSalle cresceu em Rhode Island. Graduado pela Universidade de Harvard, trabalhou como jornalista quando jovem, lecionou em universidades dos EUA e da França e é atualmente é professor de escrita criativa na Universidade do Texas, em Austin.

O autor tem profundas conexões, tanto estéticas quanto biográficas, com a América Latina, como aponta no prefácio de Diga a Borges... Rodrigo Lopes de Barros, professor de Literatura Latino-americana da Universidade de Boston.

"O ser humano que sonha ele mesmo, que revive seu passado em estado sonâmbulo, paradoxalmente modificando-o ao mesmo tempo em que se vê impotente para modificá-lo, o ser humano que reescreve ou tenta reescrever a sua própria memória – que talvez já não seja memória, porém sonho ou delírio em estado de vigília ou simples invenção, é o motor literário retomado por LaSalle". 

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Confira um trecho do conto "O fim da narrativa":

 

Seres irrepresentáveis são percebidos, e percebidos com intensidade quase igual à da alucinação. Eles determinam nossa atitude vital tão decisivamente quanto a atitude vital dos amantes é determinada pelo senso costumeiro, pelo qual cada um de nós é assombrado, do outro ser no mundo.

William James, As variedades da experiência religiosa.

 

1. Claro que houve muitos relatos, como se poderia esperar num caso como este.

 

2. Alguns dizem que foi com Borges que a narrativa acabou. Eu às vezes acredito nisso, e embora aqui apareça bastante esse lance dos blogues online e da linda jovem nova-iorquina com olhos de esmeralda e cabelo castanho-avermelhado brilhante que mantinha um blogue bastante pessoal, prova tão boa quanto qualquer outra do amplo fenômeno do fim da narrativa, mesmo assim, não há como negar que Borges está envolvido.

 

3. É interessante notar que existe um fato sobre ele, documentado em várias fontes, mas que não consta de nenhuma das várias biografias disponíveis, não pelo menos em inglês.

Que incluiriam: Borges: A Literary Biography, de Emir Rodríguez Monegal, Nova York, 1978 (bastante boa, na verdade, bem pesquisada e sincera, escrita por um uruguaio que conhecia e entendia o homem, que até chamava pelo nome de batismo a sufocante mãe de Borges, que em grande medida controlava a vida de solteirão do filho e queria tanto que a linhagem dele fosse reconhecida, que pensassem em seu filho como um aristocrata argentino); e The man in the mirror of the book, de James Woodall, Londres, 1996 (também surpreendentemente boa, com muita verve, como se poderia esperar, já que foi escrita por um jornalista britânico, e ele percebe vários dos deslizes de uma primeira biografia como a de Rodríguez Monegal, coisas miúdas, como o fato de Borges sempre ter alegado que, quando Perón assumiu o poder em 1946 e Borges perdeu o modesto emprego que o sustentava - um trabalho como assistente na filial de uma biblioteca em um subúrbio arborizado porém carrancudo de Buenos Aires - ele foi transferido, numa brincadeira cruel dos capangas da sempre-sorridente, louríssima Eva Perón em pessoa, para um cargo de inspetor-chefe de aves e coelhos no mercado da Calle Córdoba, quando, na realidade, o cargo que foi atribuído a Borges - e que ele naturalmente teve de recusar, perdendo assim todos os meios de sobrevivência - foi simplesmente de inspetor-chefe de aves; B. tendo acrescentado os “coelhos” como embelezamento, o que de repente se transformou num fato em si mesmo, citado por comentadores do mestre argentino durante muitos anos); e a recente Borges: a life, de Edwin Williamson, Londres, 2004 (verdadeiramente terrível, escrita por alguém que se identifica na sobrecapa fornecida pelos editores que, se não fosse por esse detalhe, poderia ser considerada muito elegante  - um título em letras grandes, em amarelo e verde-piscina, encimando a foto em sépia de um Borges envelhecido, vestindo um belo terno de corte inglês e parecendo, em sua cegueira, adequadamente assustado em termos metafísicos, no instante em que a câmera o flagra erguendo os olhos de uma grande escrivaninha - sim, Williamson, identificado ali como “King Alfonso XIII Professor of Spanish Literature at the University of Oxford and Fellow of Exeter College”, faz da vida do escritor argentino um relato arrastado e quase por demais detalhado, que se alonga por quase 600 páginas e é muito semelhante a boa parte da crítica acadêmica dos dias atuais, mais ou menos um alentado trabalho final de literatura de um segundanista que de certo modo deu errado, devido à costumeira e zelosa chatice de martelar à exaustão alguma tese insustentável, nesse caso o argumento de que os contos de Borges, que eram, na verdade, qualquer coisa menos autobiográficos, eram, de fato, muito autobiográficos e em grande medida o produto de uma frustração sexual, com o biógrafo Williamson seguindo obscenamente sempre adiante com uma túrgida, minuciosa e completamente risível análise nesse estilo, embora realmente interessante tenha sido a espetacular resenha de David Forster Wallace no New York Times Book Review, bombardeando a biografia, qualificando-a com todas as letras de essencialmente desonesta, e em seguida uma lamuriosa e tipicamente petulante carta daquele tipo de carta que se espera de uma pessoa intitulada “King Alfonso XIII Professor of Spanish”, pomposamente se defendendo e pessoalmente atacando Wallace e sua própria ficção, que é muito boa; a carta foi publicada no NYTBR na semana seguinte).

Repetindo, um fato importante e frequentemente mencionado da vida de Borges não aparece em nenhum desses três livros, embora tantas pessoas, oralmente e por escrito, o tenham comentado tantas vezes.

 

4. Simples assim, Borges não conseguia nunca dormir em uma cama da qual pudesse avistar um espelho. Verdade, o constante medo do mestre argentino, que beirava a fobia, em relação aos espelhos foi muito bem documentado, e com muita frequência é de fato detectado nos poemas, ensaios e contos; o modo como ele suspeitava que o terror supremo dos espelhos era que eles nos lançassem de volta nosso fantasmático e aguado senso de nós mesmos, ou nos replicassem a ponto de não sabermos quem exatamente somos, se é que, ao fim e ao cabo, somos mesmo alguém. Evitar esse problema em sua própria casa, no apartamento em que viveu a maior parte de sua vida de solteirão com a mãe viúva na Calle Maipú, em Buenos Aires, foi bastante simples. Na realidade, o quarto de Borges era o menor entre os dois quartos, um cômodo que as fotografias do apartamento revelam como quase a cela de um monge, com uma cama com guarda de ferro encimada por uma cruz e com uma única estante feita de madeira escura, sem nenhum espelho, é claro, naquele quarto, ao passo que o suntuoso quarto principal, com fina mobília antiga e tapetes orientais e certamente mais de um espelho, não apenas foi o quarto da mãe durante sua longa vida, mas continuou sendo dela mesmo após sua morte; Borges o conservou exatamente como ela o deixara, aparentemente um santuário dedicado a ela; enquanto ele próprio, envelhecendo e cada vez mais cego, chegando apoiado numa bengala com castão de marfim depois de uma noite fora de casa, no escuro, nunca deixava de anunciar em voz alta, “Mãe, cheguei”. Não, o problema com os espelhos não existia em sua vida doméstica, mas foi um grande problema em sua vida mais tardia, passada em viagens, à medida que o mundo finalmente o descobriu; de repente, na era dos aviões a jato, Borges foi celebrado em escala global como nenhum outro escritor sério tinha sido celebrado antes. Tóquio, Cambridge (Massachusetts), Paris, Cidade do México, San Antonio no Texas, Jerusalém, Madri. Não fazia diferença o lugar, e o cego Borges era conduzido ao quarto de um bom hotel pelo mensageiro que vestia um uniforme bordô com ombreiras douradas, vamos supor, Borges explorava rapidamente o quarto com a bengala e perguntava onde estava o espelho, e então pedia ao mensageiro que chamasse mais alguns mensageiros com uniformes bordôs e ombreiras douradas, vamos supor também, para que lutassem com o imponente móvel de casca de tartaruga e o arrastassem até terem atingido a configuração correta.

Sem o espelho à vista, Borges podia dormir em qualquer cidade estrangeira em que se encontrasse (buzinas soando solitárias na noite negra daquele jeito que elas fazem em uma cidade estrangeira, estranhas vozes assombrosamente reverberando nos corredores noturnos de um hotel, do jeito que elas reverberam no hotel de uma cidade estrangeira), dormir muito confortavelmente após ter feito uma palestra ou simplesmente ter sido, de fato, internacionalmente reverenciado mais uma vez, sabendo que não podia ver um espelho a partir de sua cama, e mais ainda (porque, afinal de contas, ele era cego), sabendo que a placa prateada não o poderia ver.

 

5. Ou, colocando de forma mais precisa, de modo que o espelho não o pudesse ver sonhando, sendo os sonhos um espelho da realidade, e sendo os espelhos, de certa forma, um sonho de irrealidade.

 

6. Pense um instante nisso. Foi nesse momento que a ideia da narrativa terminou, não foi?

 

7. Mas existem outros relatos, outras teorias.

 

8. Quero dizer, pense um pouco mais sobre o tema você mesmo. Houve uma vez em que você viu um estranho na rua que o fez se lembrar de alguém que você nunca conhecera, e a narrativa, para todos os efeitos, terminou.

 

9.  Ou, houve um quebra-cabeças mecânico (dois pregos de sete centímetros retorcidos e enganchados um no outro), e você o segurou nas mãos e se preparou para o ataque mais ágil e habilidoso, encarando o objeto e o perscrutando a fundo, antes de começar o que você tinha certeza de que seria um projeto complicado; e então as peças simplesmente se soltaram com toda a facilidade; um prego cromado de sete centímetros retorcido com uma cabeça circular e chata em uma mão e outro prego cromado de sete centímetros retorcido com uma cabeça circular e chata na outra, e você teve um susto silencioso, ficou meio abalado, ao vê-los se separar sem que fosse feito esforço algum para que eles fossem liberados, soltos como pétalas murchas que caem de uma flor seca, e você disse a si mesmo, sim, “A narrativa acabou”.

 



Revista Pessoa
 



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