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Um movimento suave com a boca de quem pode estar comendo capim ou recitando em voz baixa o tudo vale a pena do Fernando Pessoa.

O problema do prêmio é a cara. Se você ganha tem de fazer cara de surpresa porque você não estava esperando.

"Imagina..."

E se não ganha, tem de fazer cara de condescendência irônica, humpf, enquanto bate palma pra quem ganha. Então já faz tempo que institui o alter do golden retriever. Ele fica lá, com os cabelos louros perfeitamente penteados, pose educadíssima, imóvel e acima de qualquer provocação, sendo que o abaulado na pele da bochecha quer dizer que, sim, embaixo tem dente, de modo que é melhor não.

Funciona. Mas é minha única opção e sempre fico com medo que as pessoas saquem. Até que conheci o Mimoso.

Na hora eu devia estar recebendo um Jabuti, mas compromisso é compromisso, sou séria pra cacete, então eu estava em Caiabu que vem a ser.

O seguinte: umas casas, um pé de algo que me pareceu pitanga, mas muito maior, mais gostoso e que, de pitanga, só teve mesmo o vermelho que manchou minhas duas mãos e, temo, a boca (não tinha espelho disponível em Caiabu) durante toda a palestra que se seguiu ao pé de pitanga. Tinha também uma igreja e um lugar pra chamar de nosso.

Meu e do Mimoso. No pastinho atrás da igreja.

Sou magra, ou tento, e o Mimoso deve ter algumas toneladas. O chifre, disso não vou falar porque não interessa aqui pro assunto tratado. Mas ele também ganhava prêmio, embora em rodeio, o que talvez seja mais fácil, gritos, assobios, música, ninguém prestando muito atenção pra cara que o boi faz se ganha ou não ganha.

Mas achei que eu tinha o que aprender ali.

Um olhar doce atrás de cílios longos, um leve abanar de orelhas sedosas. Achei que valia tentar no próximo. Um movimento suave com a boca de quem pode estar comendo capim ou recitando em voz baixa o tudo vale a pena do Fernando Pessoa.

Uma coisa já melhorei desde essa época e foi o vestido cinza. Nesse Jabuti que não o foi - ou melhor, que eu não fui - porque estava em Caiabu, eu tinha um vestido cinza já há dois anos pendurado no armário, no cabide escrito "prêmio".

Era pra ser um vestido desses que imitam ama inglesa do século XVIII, com rendinha nos punhos e no pescoço, botõezinhos que imitam pérola, tudo muito bonitinho. Mas achei que rendinha era demais e não tinha o modelo com botãozinho. Então ficou só um vestido cinza mesmo que comprei num ano em que achei que não havia como não ganhar o prêmio e, adivinha, não ganhei. O prêmio, não. Os prêmios. Porque uma coisa tem de ser dita. É claro que sou eu que mereço todos os prêmios e os outros só ganham porque:
- o júri ficou com pena, o infeliz está à beira da morte (não exclua assassinato);
- o júri foi comprado por interesses econômicos dos grandes grupos editoriais que são os que de fato comandam as finanças e a política do mundo inteiro;
- o júri é de analfabetos funcionais (função = me dar prêmio).

Mas então eu estava em Caiabu e até pensei que, por honra do Jabuti ausente, devia ir com o vestido cinza na bagagem, mas só ando de mochila e com os livros não coube.

Depois joguei o vestido fora sem nunca usar.

E fiz bem. Em Caiabu, além do Mimoso, tinha um cara que veio da roça, enxada na mão infância inteira. Foi chamado pelo antigo bibliotecário pra ajudar fazendo umas estantes, varrendo o chão, levando livro de cá para lá.

Sabia escrever o nome, e ler, vamos dizer que não sabia, de tão mal que lia.

Aí o bibliotecário que chamou o cara morreu e a cidadezinha ficou só com ele que continuava indo pra tirar o pó, consertar as cadeiras.

Aos poucos foi lendo os livros. Nem eram muitos. Sentava lá, nada pra fazer, e ia lendo os livros.

Se tornou o bibliotecário. E esse cara era tudo o que eu queria. Era ele que eu queria que pegasse um livro meu e lesse e gostasse.

E aí eu não ia precisar de vestido nenhum pra receber esse prêmio. Tempos depois teve outro prêmio em meio a comentários de que minha narradora era dura e fria.

Achei que se tratava de comparação com um feminino idealizado e retrógrado e fui à cerimônia toda de rosinha - saia, blusa e coletinho - só de sacanagem.

Minha ideia era fazer o serviço completo. Mimoso de cabo a rabo, maquiagem ressaltando os cílios e tal.

Aí, ganhando ou perdendo, eu poderia escolher entre:
- A Meiguinha, e olha só eu comendo capim;
- A Artística, e eu murmuraria, enlevada, que tudo vale a pena.

Mas acabei que não. Naquela noite fui mais um golden retriever, desta vez rosinha. Ficou mais pro médio. Perdi prum cara de terno bem cortado.



Elvira Vigna
Elvira Vigna é escritora e desenhista. Nasceu em 1947, no Rio de Janeiro e atualmente mora em São Paulo. Formada em literatura pela Universidade de Nancy, na França, é também mestre em comunicação pela UFRJ. Seu romance Nada a dizer, publicado em 2010 pela Companhia das Letras, recebeu o prêmio de ficção da Academia Brasileira de Letras.
Site oficial: http://vigna.com.br Twitter oficial: @elviravigna



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