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Estou com um saco de batatas nas mãos e um vestidinho novo. Tenho de explicar as batatas e não o vestidinho novo porque, afinal, estou indo prum evento em minha homenagem e não quero que vocês pensem que vou em eventos em minha homenagem segurando batatas, embora não haja problema de ir nessas coisas com vestidinho novo - o que dá um ensaio filosófico sobre gênero e capitalismo, mas numa outra hora.

Não vou com batata de propósito de jeito nenhum, como às vezes pode parecer.

Nesse caso, e em outros parecidos que sim, os houve, é porque não tenho nada pra fazer.

Nunca tenho. Passo a vida olhando o vazio. E aí saio sempre cedo de casa e chego cedo nos lugares e as pessoas estranham. Então, posso escolher: ou as pessoas estranham de eu chegar tão cedo ou as pessoas estranham de eu ter passado antes no supermercado pra fazer hora.

Mas chego. E pergunto na portaria onde é o evento com a escritora, me indicam e eu entro e é no auditório que é enorme e está vazio porque, apesar das batatas, ainda é cedo pra cacete.

E aí sento numa das últimas filas e fico lá rezando pra não ter mosquito porque, já falei, estou de vestido.

Entram pessoas, algumas olham pra mim de cara feia, o que estou fazendo lá, o evento é interno da escola e tinham avisado que não era pra chamar os pais porque só de alunos já enchia aquilo tudo.

E encheu.

Quando enfim deram por mim, que eu era eu, tinha bem uns, sei lá, sou ruim de número, mas acho que bem uns trezentos.

E dar por mim quer dizer que olharam bem pra minha cara e eu não era nem um pouco o que eles esperavam que fosse, não tinha luzinhas piscando na testa e eu não tinha nem um pouco cara de quem merecia evento em sua homenagem.

Mas eu era o que havia, então, que remédio, me levaram pro palco e as crianças, em uníssono:

"Elvira!!! (pam, pam, pam) Elvira!!!! (pam, pam, pam).

O pam, pam, pam, não sei como faziam, se com os pés no chão, as mãos na poltrona ou batendo com toda a força nos livros (os meus) que tinham no colo.

Colégio Benett. Enorme. Em Botafogo, Rio de Janeiro.

E há muito, muito tempo.

Depois larguei a literatura infantil e nunca mais.

Esse dia ficou conhecido como meu Dia De Zico. Não sei muito bem quem foi o Zico, além de ter sido um jogador de futebol. Mas Dia De Zico porque escritores de literatura pra adulto me disseram, verdes de inveja:

"Aí, hein, parece o Zico."

Nunca mais.

Até Pacaembu.

E eu não estava mais com o saco de batata nas mãos, mas com o Nada a dizer.

Que vem a ser o seguinte: palavrões em uma história de adultério com detalhes de quarto de motel.

Mas, na minha frente, as mesmas trezentas crianças. Devem ter juntado das cidades vizinhas.

E eu pensando que algo deu errado. Porque avisei que ia ser o Nada a dizer e que o público, portanto, era de adulto, e mais do que adulto, adulto com a mente aberta e preparado pra discutir essas coisas que às vezes acontecem com adultos. E acrescentei que eu, aliás, há mais de trinta anos, não escrevia pra criança.

Mas nessas cidadezinhas que dormem, é difícil convencer adulto. Criança está lá, você manda: vai pra lá, vem pra cá. E elas vão. Fica mais fácil.

Então, o público era de criança.

Analisei algumas possibilidades de improvisação.

1) A falibilidade do ser em um contexto não teológico:

"Papai e mamãe às vezes fazem caca. Quem mais faz caca aí?"

E depois de algumas histórias de caca, lápis e papel pra todo mundo desenhar a caca feita.

2) O limiar da indiscernibilidade entre ética individual e moral coletiva.

"Mentir é feio, estão ouvindo. Quem mentiu aí?"

E depois de algumas histórias de mentira, lápis e papel pra todo mundo desenhar o inferno bem vermelhinho.

"E nada de passar o vermelho por cima da margem, hein!!"

3) Estruturação da linguagem no inconsciente, segundo Lacan.

"Não pode falar palavrão. A tia escreveu esse livro aqui inteirinho pra mostrar que é feio falar palavrão."

E lápis e papel pra todo mundo escrever Um Dia Com O Vovô sem usar nenhum palavrão.

"Nenhunzinho, principalmente se for sem querer, ouviram?"

Os professores resolveram que o melhor era eu ficar calada e as crianças fazerem perguntas.

Acabou cedo.

O motorista tinha sumido. Fiquei esperando sentada no murinho do lado de fora ele reaparecer.

Tinha ido visitar uma "pessoa".

Essas viagens pro interior são com você e o motorista dias e dias na estrada, se hospedando no mesmo hotel, olhando a mesma reta de asfalto sem fim na sua frente. O melhor é conversar, mas não sou muito boa de conversa mole, o futebol, a política. Pacaembu não era a primeira parada, longe disso. No começo ele tentou uns papos, depois desistiu. Música eu também não gostava. Então apareceu o apito. Algo apitava no relógio dele em intervalos regulares.

"O que é isso?"

"É pra eu não dormir no volante."

Não perguntei se ele usava aquilo sempre. Achei que sabia a resposta.

Não. Só quando dirijo pra escritora chata.

Depois de Pacaembu e da minha espera por ele, eu sentada no murinho, as coisas melhoraram. Acabou contando do casamento falido, da "pessoa". Não usou mais o apito no resto da viagem. Dei meu exemplar do Nada a dizer na despedida. Plateia de um. Não me importo. Em geral me comovo com minhas plateias, sejam elas do tamanho que for. Olho quem está na minha frente e descubro, quase sempre, uns malucos alucinados iguais a mim. Gente que, em caminhos muito retos, precisa de apito pra não desistir de vez.



Elvira Vigna
Elvira Vigna é escritora e desenhista. Nasceu em 1947, no Rio de Janeiro e atualmente mora em São Paulo. Formada em literatura pela Universidade de Nancy, na França, é também mestre em comunicação pela UFRJ. Seu romance Nada a dizer, publicado em 2010 pela Companhia das Letras, recebeu o prêmio de ficção da Academia Brasileira de Letras.
Site oficial: http://vigna.com.br Twitter oficial: @elviravigna



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