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No princípio e de um (outro) princípio



2016-03-09

Por muito tempo, já frequentando outros espaços que não apenas os de meu território de menina nas bordas não letradas da cidade grande, evitava comentar, como se carregasse um pecado original, o de que meu encontro fundamental e abertura para o literário se deu através da leitura da Bíblia.

Não cresci em uma casa cheia de livros. Meus pais nunca liam. Não via sequer tios ou vizinhos manusearem objetos com páginas e capas. Meu avô paterno, quem mais gostava de contar histórias, era analfabeto. Na escola estadual onde completei o hoje chamado Ensino Fundamental, não existia biblioteca e era raro o incentivo de leituras que não fossem as já recortadas nos livros didáticos (alguns deles, quando emprestados para uso no ano letivo, vinham com o carimbo “não consumível”, o que proibia de antemão a antropofagia). Entre as exceções, um ou outro livro infantil figurava como leitura obrigatória, mas nenhum deles me marcou de modo decisivo, ainda que tenha gostado da história de uma menina que visitava uma fábrica de livros. Até enviei uma carta para o autor. Um endereço (ou caixa postal?) no final da edição estimulava os leitores a entrarem em contato. Recebi resposta e era mais ou menos este o tom: “Se você gostou da personagem X, vai adorar Y, do meu livro Z”. Concluí que o autor não tinha prestado a menor atenção no meu comentário e o que queria mesmo era vender.

Na contramão das estimativas, nem o lar nem a escola foram decisivos para que eu me convertesse em leitora apaixonada no início da adolescência. E, por muito tempo, já frequentando outros espaços que não apenas os de meu território de menina nas bordas não letradas da cidade grande, evitava comentar, como se carregasse um pecado original, o de que meu encontro fundamental e abertura para o literário se deu através da leitura da Bíblia. E aqui espero evitar apologias a esta ou aquela profissão de fé ou ao estudo que não seja laico.

Meus pais não eram exatamente carolas quando eu era pequena. Eu tinha sido batizada e quando foi o tempo, me colocaram na catequese. As catequistas seguiam basicamente uma brochura bem simples que orientava os encontros a partir de leituras já bastante facilitadas da Bíblia. Naquele tempo, comecei a ir sozinha à missa e a prestar atenção nas chamadas Primeira e Segunda Leituras entrecortadas por Salmos e nos Evangelhos. Na época ninguém usava Bíblias. Tudo era acompanhado em um folheto em papel jornal chamado “O domingo”. Logo fiquei curiosa em fuçar o original. E, enfim, estava ali um livro (ou uma biblioteca inteira, como vim a descobrir) que existia em minha casa e eu nem desconfiava.

O contato com aqueles textos me proporcionou uma experiência com a linguagem muito particular. As palavras tinham poder criador. “Deus disse: ‘Haja luz’ e houve luz”. Pragas, mar se abrindo, vinganças, bem-aventurados e desgraçados, assombro atrás de assombro, mandamentos de amor, cânticos imperativos de ama-me! Coisa que até Deus duvida. Entre os evangelistas, o meu preferido era João, o autor do prólogo dos prólogos “No princípio era o Verbo/ e o Verbo era Deus” (ou não necessariamente o Autor, não se sabe ao certo se aqueles que dão os nomes aos livros foram de fato seus autores, mas sim discípulos/escribas conhecedores da tradição a ser transmitida, o que na época eu não desconfiava).

A montanha, a planície, o jardim, a superfície das águas, o deserto inscreviam em mim um mapa imaginário de significados outros. Nunca fui coagida a tomar as Escrituras ao pé da letra, nem na igrejinha do bairro onde cresci nem no tradicional colégio jesuíta de São Paulo, onde concluí o segundo grau. Havia sobretudo o imperativo da interpretação nesses contextos. O próprio Jesus falava por meio de parábolas, afinal. Certa vez um padre nos contou que o Gênesis, por exemplo, teria sido escrito muito depois de outros livros bíblicos (primeira noção que tive de edição), provavelmente nos tempos do cativeiro hebreu no Egito, quando o poeta ansiava por um novo começo (versão que na ocasião aceitei como quem aceita o mito, ou melhor, a ordem interna própria da ficção).

Paradoxalmente foi em espaço religioso que eu aprendi muito cedo que só é sagrada a palavra infringida pelo humano, além de uma lição que tantos anos depois reencontrei ao ler Paul Ricouer (1913-2005), que “o significado de um texto é solidário da história inteira da sua recepção” e mesmo a “reconstituição das expressões tidas como mais originais da fé bíblica é [...] ela própria um fenômeno moderno, que também pertence à história da interpretação” (pp. 15 e 41, Amor e justiça, ed. Martins Fontes). Ricouer, a propósito, diz ter uma “adesão” (e não fé) refletida à figura de Jesus. Negava que fosse um filósofo cristão, seria uma “cristão de expressão filosófica, como Rembrandt é pintor simplesmente e cristão de expressão pictórica, e Bach músico simplesmente e cristão de expressão musical” (p. 65, Vivo até a morte, ed. Martins Fontes). Neste mesmo livro, já redigido com as mãos trêmulas, entre seus chamados “fragmentos” estão um dedicado ao “Pai Nosso”, dois sobre “A saga bíblica”, outro à “Ressurreição” com seus “níveis de sentido entre o acontecimento e a estrutura do ser no mundo” (p. 87).

Ateu convicto, um dos grandes nomes da literatura brasileira acreditava que a religião não passava de um anacronismo, mas costumava ler a Bíblia antes de dormir: o livro de cabeceira de Graciliano Ramos (1892-1953) tinha o Antigo Testamento todo anotado à mão nas margens. Parentes afirmavam que o alagoano apreciava os elementos de retórica, as imagens e os ensinamentos contidos em livros como Provérbios e Eclesiastes, os chamados sapienciais. No final da década de 1940, atuando como inspetor de ensino do MEC, e para surpresa geral, Graciliano fez amizade com três monges, entre eles dom Penido, então reitor do Colégio São Bento, com quem conversava sobre literatura francesa, mas também sobre a Bíblia:

“Percebi que ele realmente conhecia a Bíblia. Não era uma leitura no sentido cristão, teísta, mas uma interpretação do ponto de vista humano. Não havia, da parte dele, propriamente uma concordância no plano da crença, mas uma admiração da Bíblia como obra humana e por sua indiscutível beleza enquanto expressão literária. Eu não afasto a possibilidade de Graciliano ter sido impregnado, na infância, pelas raízes cristãs muito fortes da família nordestina”, comentou o beneditino (p. 224, O velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos, de Dênis de Moraes, ed. Boitempo).

Em “Um intervalo”, texto publicado originalmente no jornal Correio da Manhã, na véspera de Natal de 1944, e reunido como capítulo de Infância, livro de memórias que seria lançado no ano seguinte, Graciliano conta sobre seus dias de “ajudante de missa”. O catecismo não lhe inspirava simpatia e sua falta de jeito para lidar com os apetrechos do rito litúrgico era notável. No começo, o padre Loureiro até tentou corrigi-lo para logo dispensá-lo: “E a minha fé pouco a pouco arrefeceu: a liturgia encrencada afastou da Igreja um ministro”. Dessa vivência ao lado dos homens de batina, Graciliano relembra ainda conhecimentos que um outro padre “insinuou”, os primeiros, que ele teria “aceitado com prazer”:

“Narrou-me a viagem de Abraão, a vida nas tendas, a chegada à Palestina. [...] Não hesitei, ouvindo a mudanças de homens e gado, com certeza tangidos pela seca, em situar a Caldeia no interior de Pernambuco. E Canaã, terra de leite e mel, aproximava-se dos engenhos e da cana-de-açúcar. Mantive essa localização arbitrária, útil à verossimilhança do enredo, espalhei seixos, mandacarus e xiquexiques no deserto sírio [...].

Padre Pimentel admitia dúvidas e aclarava os pontos obscuros. Realmente não explicou direito o holocausto goro de Isaac e disfarçou, para evitar-me transtorno, o procedimento das filha de Lot, mas os outros casos se desenrolaram fáceis e naturais. Jacob brigou com Esaú por causa de herança, coisa vulgar entre pessoas ricas, fugiu, foi protegido e enganado por um tio, tomou-lhe um rebanho e casou com duas mulheres [...]. A poligamia, o furto e as safadezas não me espantavam.” (p. 202, ed. Record)

O que espantava o menino Graciliano era o excesso do que não fosse lá muito palpável: “Moisés era um grande chefe, mas teria vencido os egípcios, atravessado o mar a pé enxuto, recebido alimento do céu, tirado água das pedras, visto Deus?” (p. 203)

Erich Auerbach (1892-1957) em seu Mimesis, clássico estudo sobre a representação da realidade na literatura ocidental, comenta que durante a expansão do cristianismo os textos bíblicos enfrentaram a crítica estética dos pagãos. “Estes espantavam-se diante da ideia de que escritos que, na sua opinião, estavam redigidos numa língua impossível, inculta e sem qualquer conhecimento das categorias estilísticas, contivessem a mais elevada das verdades [...] Esta crítica abriu os olhos para a verdadeira e peculiar grandeza das Sagradas Escrituras: o fato de terem criado uma espécie totalmente nova do sublime, da qual nem o cotidiano nem o humilde ficavam excluídos [...] realizou-se uma combinação imediata do mais baixo com o mais elevado” (p. 134, ed. Perpectiva).

No posfácio da edição brasileira de Código dos códigos: a Bíblia e a literatura, de Northrop Frye (1912-1992), o professor Flávio Aguiar, também responsável pela tradução e notas da obra, destaca que a Bíblia tem como tema central o tempo e que a criação começa a transcorrer em temporalidade humana, histórica, ressaltando a condição universal que qualquer personagem bíblico, sem importar qual sua origem social, guarda e que será a base do realismo literário moderno, de acordo com a análise de Auerbach: “Os seres humanos fazem-se assim de fato à imagem de Javé: são partejadores e modeladores de seu próprio destino. Isso inclui as mulheres e, além de dar-lhes um papel relevante ausente em muitas outras culturas e obras, faz que um dos traços marcantes da Bíblia seja o de que qualquer ser humano, em qualquer circunstância, espelhe a humanidade como um todo” (p. 276, ed. Boitempo).

Por sua vez, Frye amplia essa perspectiva de Mimesis ao analisar literariamente a narrativa bíblica e sua imagética (em especial o uso de metáforas paradisíacas, apocalípticas, demônicas). E o que teria levado o crítico canadense às leituras da Bíblia? Ele conta que quando muito jovem se viu ministrando aulas sobre Milton e escrevendo sobre Blake, logo compreendeu “que um estudioso da literatura inglesa que não conheça a Bíblia não conseguirá entender o que se passa”. E a verdade é que esse “inglesa” pode ser substituído por qualquer nacionalidade ocidental.

E se a temática de “No princípio” tomou todo o corpo visível deste texto primeiro neste espaço recém-criado, o d(E)screver leituras, “Um (outro) princípio (causa primeira)” queda, sim, como crença primordial a orientar estes escritos de leituras: “Uno escribe su vida quando cree escribir sus leituras [...]. El crítico es aquel que encuentra su vida em el interior de los textos que lee”, como escreve Ricardo Piglia no epílogo de Formas breves, esse desfecho que é pura abertura.  Ou como nos lembra Proust em seu Tempo redescoberto, um livro é escrita morta enquanto alguém não se torna leitor de si mesmo graças à sua leitura. Desempenhemos nosso papel ressuscitador. Amém!




Luciana Araujo Marques
Luciana Araujo Marques é mestre em Teoria Literária (USP) e doutoranda em Teoria e História Literária (Unicamp). É jornalista e atua no mercado editorial. Está entre os autores selecionados pelo programa Rumos Literatura, do Itaú Cultural, que teve como objetivo apresentar novos nomes da produção crítica brasileira com foco na produção literária contemporânea do Brasil, tendo como resultado a publicação do livro de ensaios "Protocolos Críticos" (2009).



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