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Elevador da Gastão Bahiana (1980)



2016-03-29

Eu, a sensacional, achei que era uma oportunidade pra ser sensacionalíssima e começo a olhar o teto, as paredes, o chão e sou boa nisso, de olhar pra tudo que é desinteressante com máxima atenção. O raciocínio é que o Chico devia estar de saco cheio de olhares, palavrinhas e tentativas de aproximação. E que a boa educação era nem cumprimentar

Esse "morrendo" é ele próprio um "morrendo" porque comecei a escrever durante a passeata contra a Dilma do dia 13/03 e fiquei meio enrolada: tinha o complemento "de rir" que eu também deveria honrar, mas estava difícil.

Enfrentei, com a passeata, minha própria burrice: eu não esperava a radicalização.

Acabei lembrando que, afinal, tenho 68 anos e por causa disso eu sabia muito bem do repeteco. Se conseguisse escrever ficava até engraçado, porque a primeirona, a de 1964, se chamou Marcha Com Deus Pela Liberdade e a liberdade foi aquela que se viu depois, todo mundo preso. E torturado, e sumido e fugido, os mais sortudos, largando tudo. E forcei, sozinha no quarto, um rárárá, não é engraçado?, mas não era.

A janela estava fechada por conta dos buzinaços e dos gritos de exultação dos que protestavam porque nunca vi protesto mais feliz. Todo mundo tão feliz, papai, mamãe, criancinha, todo mundo fitness e feliz (e branco) acenando e sorrindo para a câmara da TV Globo com aquela confiança dos que acham que vencem sempre.

Porque eu estava no quarto com a janela fechada, mas pus a TV Globo sem som e tinha The Voice Kids, com menininhas lindinhas que franziam a sobrancelha e faziam biquinho num microfone, presumo cantando músicas românticas, falando de experiências amorosas que não poderiam ter. Uns oito anos. Vestidas de oito anos, aliás, com saias no meio da canela, rodadas, tão bonitinhas. E quase, pois, que esse "morrendo" não sai porque tinha esse programa, interrompido de cinco em cinco minutos pra mostrar Goiânia, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, e a Paulista, cheias de gente vestida de amarelo. E foi me dando uma tristeza paralisante e quem me salvou foi o Chico. O Buarque. O petista. O que reclama.

Porque pensei: pronto, bobeia começa tudo outra vez, vão me hostilizar outra vez nos lugares cotidianos em que todo mundo tem de ir. Vou ter de me defender de abusos todos os dias, ou talvez até de coisa pior. E eu e o Chico podíamos então fazer o que a gente já vem fazendo - e com tantos mais - e além disso também fundar um bloco, o Hostilizados Da Esquina. Pro próximo carnaval, que com certeza há de vir.

Mas só se eu conseguisse me dar bem com o Chico, o que não era nem um pouco garantido e não estou nem me referindo ao fato de eu não ter gostado de um ou outro livro dele. Não, é bem pior. E está aqui o meu "de rir":

Começou no início dos anos 1980 e naquele tempo ele não era ainda um escritor e eu sim. E trabalhava em O Globo, onde eu entrava sempre que a chuva em cima de mim ficava mais forte, e de onde saía sempre que arranjava um sol.

Portanto chovia, e forte, em cima de mim, naquela época.

Mas eu tinha alguns momentos em que conseguia me sentir sensacional e um deles era quando pessoas olhavam, surpresas, pro grupo formado por mim, Roberto, Edu (o pai biológico da Caró), Ellen (a nova mulher do Edu) e as crianças todas, sempre juntas. Sempre juntos, nós. Nos dávamos bem, estávamos sempre juntos, rindo o que dava pra rir.

E foi um dia em que a Mônica (filha da Ellen) fazia aniversário e era um dia desses, em que as pessoas olhavam pra gente, admiradas, e eu me sentia então, mesmo que por poucos minutos, sensacional.

Então era uma rara Elvira do tipo sensacional que esperava o elevador, Caró segurando o presentinho da Mônica, na Gastão Bahiana, casa do Edu e da Ellen. Aí chega o Chico com a Silvia, também com seu presentinho. Silvia era colega da Mônica na escola. E ficamos lá os quatro.

Eu, a sensacional, achei que era uma oportunidade pra ser sensacionalíssima e começo a olhar o teto, as paredes, o chão e sou boa nisso, de olhar pra tudo que é desinteressante com máxima atenção. O raciocínio é que o Chico devia estar de saco cheio de olhares, palavrinhas e tentativas de aproximação. E que a boa educação era nem cumprimentar.

Depois piora porque, crianças entregues, ficamos os dois esperando o elevador de volta. Que chega. Ele abre a porta, gentil, mas rosno.

"Pode ir, vou no próximo."

Ficou me olhando com olhos esbugalhados de quem não conseguia acreditar na minha - achava eu, que sou completamente louca - sensacionalíssima boa educação.

E piora mais ainda.

Porque mesmo depois que me toquei que eu era isso, uma completa louca, dei de ombros. Paciência. O cara famosão, imagine, nunca mais vou encontrá-lo, dane-se.

E claro, né.

Um desses eventos em que às vezes tenho de ir. O Chico. Gritos de "chico" e saias passavam voando em direção a um buraco negro que devia ser ele. Não averiguei. Me virei de costas e teve uma hora em que tive que dar uma andadinha um pouco mais pra direita e dei a andadinha de costas. Isso tudo, como é meu hábito, olhando o teto. Podia dizer aqui que eu estava tentando ser educadíssima outra vez. Mas não. Acho só que eu preferia que ele não me visse. O lance com o elevador, as meninas ainda pequenas, tinha sido há muito tempo. Mas resolvi não arriscar.

Depois me ocorreu que justamente por ter ficado o tempo todo de costas pra ele, que era a estrela da noite, eu me tornava reconhecível. Quem mais, no mundo.

Até hoje não sei. Sei que não sei o que vai acontecer outra vez neste país, eu provavelmente perdendo, que é uma tendência minha. Sei que tenho muitas histórias dessas. Em que eu, frente a algo ou alguém pra o quê ou quem o mundo espera que eu sorria e acene como pinguim de desenho animado, eu rather not.

Nem mesmo bilu-bilu faço, embora do bilu-bilu eu me arrependa.

Foi antes disso tudo. Tinha me separado de quem parecia ser o único amor da minha vida e, porque essas coisas vêm sempre juntas, também tinha perdido o emprego. Outro elevador, eu indo visitar minha mãe que costumava (e fez isso por décadas) me olhar com cara de pena, cara de eu não disse. E ajeitava um pouco meu cabelo e suspirava.

"Faz um corte mais pra cima, vai te rejuvenescer."

Eu tinha 19 anos.

Junto comigo no elevador uma ex-vizinha pra quem tudo dava certo. Ficou noiva por dois anos de rapaz de futuro, eu vivendo em uma quase república sem marido formal à vista. Casou com bela festa de muitos convidados (eu inclusive, mas não fui), enquanto acabei casando, sim, mas no cartório e sem avisar ninguém. Adiei filho até conseguir dinheiro pra comida, enquanto ela, nove meses depois do casório, aparecia com belo rebento. E menino!!! A cara do pai!!!

Ela estava de costas pra mim, a criança no seu colo me olhando por cima dos ombros. Fiz uma careta horrorosa, o pobrezinho abriu o choro. O que foi, o que foi? A moça se virou, fiz gesto de não entender nada de criança, ela saltou do elevador e entrei na casa da minha mãe me sentindo muito bem, ela até estranhou.

Casei legalmente uma segunda vez, muitos anos depois, sempre em cartório, meu lugar preferido pra essas coisas. Comigo e com o Roberto estavam o Edu e a Ellen, as crianças todas, as dela e as minhas (nunca filho meu nasceu eu estando casada com o pai da criança) e foi inesquecível de bom. E é bom até hoje. Porque tem isso, a gente perde até a hora que ganha. Não fiz careta pro Chico, então ele até que deu sorte. Ou fui eu quem deu sorte. Hoje posso aventar a possibilidade do bloco. E estão todos convidados. E do riso (quando der). E estão todos convidados.



Elvira Vigna
Elvira Vigna é escritora e desenhista. Nasceu em 1947, no Rio de Janeiro e atualmente mora em São Paulo. Formada em literatura pela Universidade de Nancy, na França, é também mestre em comunicação pela UFRJ. Seu romance Nada a dizer, publicado em 2010 pela Companhia das Letras, recebeu o prêmio de ficção da Academia Brasileira de Letras.
Site oficial: http://vigna.com.br Twitter oficial: @elviravigna



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