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Mulheres em tempos sombrios



2016-04-27

Em 17 de abril de 2016, dia em que 367 deputados votaram a favor do processo de impeachment de Dilma Rousseff e 137 contra, a única soma numérica que me permiti celebrar foram os 131 anos do nascimento de Karen Blixen (1885-1962). (Não votei na presidente nas últimas eleições, sou crítica a seu governo e alianças, mas até tempos atrás acreditava na legitimidade da democracia no país e, sobretudo, foi assustador acompanhar os alcances da onda misógina nesse processo). Numa tentativa de resto de domingo em família-por-afinidade, não aquela tão evocada nos dizeres dos que votaram “sim”, pela esposa, pelo filho, pela avó, por Deus e o Diabo, abri Sombras na relva (1960), da aniversariante escritora dinamarquesa.

Ainda com o deboche dos cartazes que diziam “tchau, querida” entalado na garganta, li logo em uma das primeiras páginas da edição da Editora 34 de Sombras..., tradução de Maria Luiza Newlands: “Uma comunidade formada senão por um único sexo seria um mundo cego. Em 1940, quando eu estava em Berlim, contratada por três jornais escandinavos para escrever sobre a Alemanha nazista, as mulheres – e todo o universo das mulheres – estavam tão visivelmente subjugadas que talvez eu estivesse de fato circulando por uma tal comunidade monossexuada”. E essas palavras dão o tom de uma crença e posição que também é a minha. Tampouco me interessaria uma comunidade monossexuada formada por mulheres ou por qualquer outra identidade única.

Esse retrato de mulheres sem rosto (sem expressão) surge como exemplo entre metáforas que Blixen constrói em defesa de uma “Unidade” criativa, onde os componentes individuais deveriam ser de natureza diferente. “Uma orquestra é uma Unidade, e pode ser perfeita como tal, mas vinte contrabaixos atacando a mesma música é o Caos”, este é outro exemplo que ela dá para falar de como a introdução na vida dela da alteridade (no caso, a africana) expandiu seu mundo.   

Era necessário respirar, tomar fôlego e Blixen sempre cumpriu para mim este papel de oxigênio via imaginário, que no caso dela está longe da noção de desligamento da realidade, mas sobretudo de sua transfiguração. Nesse sentido, o tradutor de Anedotas do destino (1958), Per Johns, comenta sobre os contos em questão na edição da Cosac Naify: “No itinerário dessa busca de algo irresolvido, mas não inexistente, o destino trama sua urdidura em múltiplas variações. Por vezes, é a ficção que interfere na realidade e, por vezes, é a realidade que interfere na ficção, tornando-as indistintas. [...] quase como se fosse um testamento da autora a seus leitores”. Comentário que, a meu ver, poderia se estender a toda a obra de Blixen. Para ele, o conflito entre o imaginado e o possível, termos que associa às imagens do voo seguido do retorno ao chão, não permite que os textos de Blixen se fixem em uma única explicação.

Mas o livro que abri naquele domingo não foi o Anedotas nem Sete narrativas góticas (1934), sua estreia oficial na literatura, foi, repito, o Sombras na relva, no qual Blixen rememora episódios e pessoas quase trinta anos depois de sua experiência como proprietária de uma fazenda de café no Quênia, país que deixou após a falência financeira e a perda do amante, morto em acidente. Nessas memórias, o caráter autobiográfico do relato opera aquela mediação de leitura já experimentada em A fazenda africana (1937), sobre o período entre 1914 e 1931 em que viveu nesse solo africano, onde além de fazendeira atuava também como uma espécie de médica dos nativos, e Contos de inverno (1942), que reúne memórias de sua infância e, não à toa, também lendas de sua terra natal.

Em tais casos, o pacto com o leitor é o próprio das escritas de si. O eu que narra é o eu que assina, ainda que Blixen “em parte ocultava, em parte mostrava sua autoria prefixando ao seu sobrenome de solteira [Dinesen] o pseudônimo masculino ‘Isak’, aquele que ri [em hebraico]”, como bem lembra Hannah Arendt (1906-1975) em Homens em tempos sombrios. “O riso supostamente resolveria vários problemas um tanto incômodos, entre os quais o menos sério talvez fosse sua firme convicção de que ser uma autora, portanto uma figura pública, não era algo muito conveniente para uma mulher”, escreve a pensadora alemã, aqui na tradução de Denise Bottmann para a Companhia das Letras. Blixen bem tinha conhecido essa dimensão de lançar-se ao público sendo mulher: sua mãe fora uma defensora dos direitos políticos das mulheres, lutando pelo voto feminino na Dinamarca.

Ainda sobre a perspectiva autobiográfica, é preciso destacar que a primeira pessoa em Blixen está sempre voltada para o Outro, seja encarnado nos seres humanos com quem conviveu de perto, seja em outros seres que a rodeiam e com que interage toda sua corporalidade, das árvores ao ar, este último, por exemplo, tornado personagem capaz de suspender quem habita o planalto africano. Assim, a dimensão do espaço natural não é naturalizada, isto é, nunca é tomada como mero cenário sem autonomia e força próprias. E mais, o verídico em Blixen jamais exclui a imaginação, que opera incessantemente ao se contar histórias, por isso as lendas ouvidas nos tempos de menina se unem às reminiscências do chamado real. “Equitare, arcum tendere, veritatem dicere” [“Cavalgar, empunhar o arco, dizer a verdade”, Heródoto, na tradução latina de Tácito – grifo meu] é justamente a epígrafe de A fazenda africana, e diz do mote de sua escrita.

“Blixen é uma Sherazade”, ouço repetidas vezes a voz da Lena [Maria Helena Arrigucci, que trabalhou na edição de alguns dos livros da autora pela Cosac Naify, onde trabalhamos em salinhas vizinhas de porta]. A figura da mulher, que salva todas as outras mulheres do reino que estariam condenadas à morte porque a mulher do rei o traíra, nunca me pareceu tão pertinente. E cada amanhecer segue instaurando um suspense quanto à próxima noite. Michel Foucalt diz na epígrafe da nota editorial do tradutor do Livro das Mil e Uma Noites (Biblioteca Azul), Mamede Mustafa Jarouche: “Eu penso em As mil e uma noites: falava-se, narrava-se até o amanhecer para afastar a morte, para adiar o prazo deste desenlace que deveria fechar a boca do narrador”. E de narradoras, silenciadas já em vida.

Remeto essa reflexão ao artigo “Mulheres e ficção”, de Virginia Woolf (1882-1941) que integra a antologia O valor do riso traduzida e organizada para a Cosac Naify por Leonardo Fróes, com coordenação editorial da Lena e de Livia Deorsola. Publicado originalmente em 1929 na revista Forum, de Nova York, o texto permanece atual e o que ela localiza na Inglaterra se dá em toda parte. Como em toda parte há homens e mulheres torcendo o nariz para quando se bate nesta tecla, como se se tratasse de vitimização, desqualificando um lugar de fala sempre sujeitado ao “cale-se, sua louca, você não sabe o que diz”. Em outro polo, também não faltam os/as que identificarão em Karen Blixen, Hannah Arendt e Virginia Woolf um discurso falocêntrico. Claro, mulheres canonizadas e europeias e com dinheiro, o que poderiam testemunhar sobre falta de voz? Sherazade é o nome que mais uma vez evoco como resposta em espiral. Vamos ouvi-la, vamos sobreviver juntos à ameaça de degola dos poderosos.     

Virginia diz que o título “Mulheres e ficção” contém uma ambiguidade intencional, alude tanto às mulheres e à ficção que elas escrevem quanto às mulheres e à ficção que é escrita sobre elas: “Porque sobre as mulheres muito pouco se sabe. A história da Inglaterra é a história da linha masculina, não da feminina. De nossos pais sempre sabemos alguma coisa, um fato, uma distinção. Eles foram soldados ou foram marinheiros; ocuparam tal cargo ou fizeram tal lei. Mas de nossas mães, de nossas avós, de nossas bisavós, o que resta? Nada além de uma tradição. Uma era linda; outra era ruiva; uma terceira foi beijada pela rainha. Nada sabemos sobre elas, a não ser seus nomes, as datas de seus casamentos e o número de filhos que tiveram”.

Como não pensar, a partir desse trecho publicado por Virginia originalmente em 1929 na revista Forum, de Nova York, no perfil “Bela, recatada e do lar”, feito pela Veja em pleno 2016, sobre Marcela Temer, casada com Michel, o dono do sobrenome? A pergunta fica enquanto sugiro mais uma vez a leitura de Virginia. Cito abaixo este longo trecho de seu “Profissões para mulheres”, lido por ela em janeiro de 1931, na Sociedade Nacional de Auxílio às mulheres, reunido em edição homônima ao título do texto pela L&PM, com tradução de Denise Bottmann:

“[...] descobri que, se fosse resenhar livros, ia ter de combater um certo fantasma. E o fantasma era uma mulher, e quando a conheci melhor, dei a ela o nome da heroína de um famoso poema, ‘O Anjo do Lar’ [de Coventry Patmore, que idealizava o papel doméstico das mulheres]. Era ela que costumava aparecer entre mim e o papel enquanto eu fazia as resenhas. Era ela que me incomodava, tomava meu tempo e me atormentava tanto que no fim matei essa mulher. Vocês, que são de uma geração mais jovem e mais feliz, talvez não tenham ouvido falar dela – talvez não saibam o que quero dizer com o Anjo do Lar. Vou tentar resumir. Ela era extremamente simpática. Imensamente encantadora. Totalmente altruísta. Excelente nas difíceis artes do convívio familiar. Sacrificava-se todos os dias. Se o almoço era frango, ela ficava com o pé; se havia ar encanado, era ali que ia se sentar – em suma, seu feitio era nunca ter opinião ou vontade própria, e preferia sempre concordar com as opiniões e vontades dos outros. E acima de tudo – nem preciso dizer – ela era pura. Sua pureza era tida como sua maior beleza – enrubescer era seu grande encanto. Naqueles dias – os últimos da rainha Vitória – toda casa tinha seu Anjo. E, quando fui escrever, topei com ela já nas primeiras palavras. Suas asas fizeram sombra na página; ouvi o farfalhar de suas saias no quarto. Quer dizer, na hora em que peguei a caneta para resenhar aquele romance de um homem famoso, ela logo apareceu atrás de mim e sussurrou: ‘Querida, você é uma moça. Está escrevendo sobre um livro que foi escrito por um homem. Seja afável; seja meiga; lisonjeie; engane; use todas as artes e manhas de nosso sexo. Nunca deixe ninguém perceber que você tem opinião própria. E principalmente seja pura’.”

Ah, sim, “a intenção da matéria da Veja, inclusive escrita por uma mulher, era ser irônica”, defendia-se por aí esse viés. Nada contra a ironia, tudo contra ela ser usada para recontar a clássica ficção sobre ser mulher, sem sequer problematiza-la abertamente. Não importa aqui se esta ou aquela mulher tem a chance de escolher ser bela, recatada e do lar, porque até as belas, recatadas e do lar não são só isso o tempo todo, muito menos se investigadas em suas razões (ou a falta de) mais profundas. O que se quer ocultar sob essa máscara da mulher idealizada em moldes conservadores sobre o homem que aceita ser vice, almejando outro posto?

Mais contra ainda ao que se pode ler dessa “ironia” nas entrelinhas dos valores em voga no momento que vivemos. “Lugar de mulher é o recato do lar, é para ser no máximo uma bela primeira-dama, e não presidente”. Li e ouvi esse tipo de insinuação repetidas vezes nesse processo todo com pesar, pesar que nada tem que ver com as críticas que tenho ao governo de Dilma. No trânsito ou no Planalto, o grito de “vá pilotar fogão” não respeita sinais vermelhos, especialmente os que contornam a boca de quem tem muito o que dizer. Inclusive, voltarei a Blixen, a Hannah, a Virginia e a outras mulheres notáveis em outros contextos de leituras, porque também não vale falar da literatura ou pensamento dessas mulheres apenas para atacar o machismo. O lugar da mulher também não pode estar restrito aos recortes que contemplam o seu gênero em oposição a um outro e nada mais.


P. S.: Enquanto pesquisava fotos de Karen Blixen para ilustrar este texto, me deparei com as fotos da viagem da dinamarquesa pelos Estados Unidos, em 1959, quando foi homenageada por escritores como Carson McCullers (na foto acima) e Arthur Miller, então casado com Marilyn. Poucos anos atrás, trabalhei na preparação do livro Os últimos anos de Marilyn Monroe, de Keith Badman, lançado pela Benvirá, e agora não paro de pensar na vida (relacionamentos com homens poderosos, como o próprio presidente americano John Kennedy, entre outros) e condições da morte precoce da diva (Blixen morreu em 7 de setembro de 1962, um mês depois da jovem Marilyn, então com 36 anos). Diva, aliás, era apenas uma de suas facetas.



Luciana Araujo Marques
Luciana Araujo Marques é mestre em Teoria Literária (USP) e doutoranda em Teoria e História Literária (Unicamp). É jornalista e atua no mercado editorial. Está entre os autores selecionados pelo programa Rumos Literatura, do Itaú Cultural, que teve como objetivo apresentar novos nomes da produção crítica brasileira com foco na produção literária contemporânea do Brasil, tendo como resultado a publicação do livro de ensaios "Protocolos Críticos" (2009).



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