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FNAC da Paulista (março de 2012)



2016-05-02

E eu fui pro Guarujá num apartamento da minha prima, caindo aos pedaços, e era agosto e chovia sem parar e eu estava sozinha e não tinha um puto e queria tanto fazer uma história de amor. E foi o que deu

Você fala Irmãos Karamazov, entram música e luz indireta, e o cara solta:

"Sim! É mesmo interessante refletir sobre comunidades reminiscentes do arcaico e seu choque em relação ao dinheiro no contexto do pós-capitalismo. Vou pegar. Em russo ou traduzido?"

Mas, claro, imagina. E desnecessário. Pois, mesmo sem isso, sempre gostei de vendedor de livraria. Pra mim, que detesta quem tenta me vender seja lá o que for, havia essa exceção.

Mudei. Primeiro, não tenho mais esperança de chegar e ter uma standing ovation, ela chegou!, ela chegou! O máximo que houve até agora foi uma vendedora de óculos e espinha no nariz que teclava meu CPF pro desconto futuro na Cultura. Apareceu meu nome, ela olhou, era o mesmo da capa.

"Ah! você é você?!"

E achou engraçadíssimo, me esforcei pra achar também e ficou nisso.

São coisas que machucam. Por exemplo, essa ausência de standing ovation.

Mas o problema foi outro. Um livro meu tinha saído um mês antes, de modo que nem procurei. Literatura, todo mundo sabe, é uma espécie de legume. Na prateleira, no máximo as de ontem, então fui direto.

O que deu para fazer em matéria de história de amor.

O vendedor me olhou com total enfado.

"Sei. Mas qual livro a senhora quer?"

Foi isso que de fato mudou minha vida. Digo, pra pior. Sim, uma das vezes.

Porque tenho esse carma.

O que pensei:

1 - O vendedor olhou pra minha cara e achou que eu estava tentando contar minha vida pra ele porque minha cara é mesmo de alucinada que vai tentando contar a própria vida pra vendedor de livraria;

2 - O vendedor achou que eu estava tentando contar minha vida pra ele porque isso acontece todos os dias, várias vezes por dia, mulher de montão entrando lá só pra contar a vida pra vendedor da livraria; nada comigo, pessoalmente, imagina.

E eu precisava saber então se era o 1 ou o 2.

Fiquei com essa angústia até que conheci o Tuca. Mentira. Conhecia o Tuca de antes, de Curitiba. Ele fazia pós, era hilário, tinha um blog literário e nem pensava em trabalhar em livraria. Depois é que veio pra São Paulo e foi trabalhar na Cultura.

"Você me dá uma entrevista?"

E aí ele sentou no meu sofá, ofereci bolo e tasquei.

"É comum mulher entrar em livraria e despejar a vida dela pro vendedor?"

"Não."

Achei que ele não tinha entendido a pergunta.

Dei mais bolo, contei uns casos, que chuva, né. E repeti.

"Não."

Ele acabou indo embora, eu afundada no sofá, o olhar vago, os ombros baixos, não conseguia nem falar.

Depois me consolei.

Essa lance do O que deu para fazer em matéria de história de amor foi na FNAC da Paulista. E foi o único. Então, podia ser pior. Podia ser sempre.

Nada a dizer.

"Claro, perante a infinitude do universo, ó meu saco. Poesia é ali, na prateleira de baixo perto do banheiro."

Deixei ele lá e vim.

"Fez muito bem, querida, é o melhor mesmo. Mas qual livro vai ser?"

Coisas que os homens não entendem.

"Vou chamar uma vendedora mulher que não estou nessa vibe de feminismo, não."

Por escrito.

"É como é hoje em dia, ninguém mais tem classe, vai tudo em mensagem do Whatsapp. Mas vai escolher qual livro?"

Às seis em ponto.

"Obrigado, seria até legal, mas vou direto pra faculdade, quem sabe outro dia. E não quer levar um livro em vez de?"

E só vai piorar, tenho certeza.

Como se estivéssemos em palimpsesto de putas.

"Estivéssemos, nós quem, minha senhora?"

E aí ele vai dizer que eu é que sei da minha vida. Mas que com ele foi só daquela vez porque depois ele entrou pra igreja e jogou a peruca fora. E vai me olhar com aquele olhar de ira divina quando a ira divina recebe o reflexo azul de um monitor aberto em programa de controle de estoque.

Vai ser horrível.

Melhor me preparar. Ou vai ver passou. Vai ver minha cara melhorou, e nunca mais.

Vou criar coragem, nem é tão tarde. Acabo isso aqui rapidinho e saio com essa roupa mesmo, vou na Martins Fontes que é séria pra cacete e perto, dá pra ir a pé.

Três mulheres altas.

E o cara não vai dizer, não vai, não vai:

"Logo três?! Que cafajeste. Mas a senhora vai levar o quê?"

Aí eu piro e digo que as três eram as irmãs Karamazov, minhas vizinhas, as piranhas, tudo biscate. Viviam se insinuando e aí deu no que deu. E vou continuar, e ele vai apontar pra algum lugar no fundo da livraria, que ele tem de ir ali arrumar uns livros urgente e eu vou atrás, dizendo, não tem importância, estou com tempo. E ele vai subir a escadinha de dois em dois degraus, já suando, e eu atrás.

"Era sempre de tarde, sabe, quando eu saía pra buscar as crianças."

Se você assume e radicaliza, às vezes dá certo.

É o que penso. Não penso. Mas não me ocorre mais nada. Botox não topo.

O que deu para fazer em matéria de história de amor tem esse título, entre outros motivos porque na época havia esse projeto editorial/filmístico/blogueiro/midiático chamado "Amores expressos". Os felizes escritores participantes, na hora de fazer o livro, iam pra Londres, Tóquio, tudo pago, equipe atrás filmando os lances imperdíveis do gênio em ação. E eu fui pro Guarujá num apartamento da minha prima, caindo aos pedaços, e era agosto e chovia sem parar e eu estava sozinha e não tinha um puto e queria tanto fazer uma história de amor. E foi o que deu.

Podia falar de mais coisa que foi o que deu, um monte. E do que não deu por causa da truculência, do abuso, do interesse contrariado que aparece como sendo processos supostamente legais, mas que é só dinheiro mesmo. E mais as coisas que a gente não espera que aconteçam e acontecem. E, tenho certeza, eu e o vendedor da livraria íamos sentar num cantinho da escada e ficar lá até fechar, sem espichar conversa nenhuma, porque às vezes nem dá mesmo vontade de falar mais nada. 



Elvira Vigna
Elvira Vigna é escritora e desenhista. Nasceu em 1947, no Rio de Janeiro e atualmente mora em São Paulo. Formada em literatura pela Universidade de Nancy, na França, é também mestre em comunicação pela UFRJ. Seu romance Nada a dizer, publicado em 2010 pela Companhia das Letras, recebeu o prêmio de ficção da Academia Brasileira de Letras.
Site oficial: http://vigna.com.br Twitter oficial: @elviravigna



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