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O velho, a névoa e o sonho



2016-05-02

É muito cedo para escrever sobre a China, é muito tarde para escrever sobre a China, tudo depende da idade real da sua alma (e isso você não sabe) então você oferece aos leitores três opções: uma cena em praça cantonesa, alguma intuição de memória sobre o Festival Rotas das Letras, em Macau, e um guia de sonhos para as insônias do fuso.


1.

Você está sentada, de pernas cruzadas, sobre um banco da praça. Você observa uma construção que está logo à sua frente cobrindo boa parte do seu campo de visão. Ela tem os telhados côncavos nas pontas e esculturas percorrem suas linhas: são miniaturas de pessoas, animais, casas e você imediatamente se lembra da pagoda 1 que viu ontem, construída para guardar dez mil budas dourados que ninguém jamais vai ver, matrioska do que existe, do que não existe, e do invisível. Você descruza as pernas por falta de alongamento. Com os pés inteiros no chão volta os olhos para a árvore que solta folhas amarelas. Elas demoram para cair. Um velho se aproxima. Ele para ao seu lado, de pé, os braços para trás, e fala. Você escuta por vinte segundos, quase trinta, e sacode lentamente a cabeça. Ele desenha no ar as letras U e S. Você não sabe se ele te pergunta se você vem dos Estados Unidos, ou se te pede alguns dólares ou se quer dizer us, nós dois, aqui e agora no infinito ou no presente. Mesmo assim você diz Brasil, ele franze a testa e tenta repetir, mas a chave de fonemas não encaixa para que ele, o velho chinês, emita essa palavra que poderia o seu nome, ou o nome do pai da sua fé. Ele solta os braços das costas na velocidade das folhas amarelas. Ele pega na sua mão. Olha bem as suas veias no topo e acompanha com os dedos a longitude dos seus. Esfrega a palma dele na sua, e você não sabe se o gesto remete a limpeza ou magia, e então percorre as linhas com a ponta do indicador. Você não sabe se ele desvenda o caminho da sua vida ou se prevê, pelas dobras nos cantos, quantos filhos você vai ter ou se ele descobriu a data da sua morte só de ver onde cruzam as fendas, você não sabe, você nunca vai saber o que quis saber o velho olhando assim a sua mão. Ele sorri, você sorri, ele faz a pequena reverência, você imita e procura nos olhos vestígios de catarata e você não sabe se ele propõe, te olhando tanto, algum resgate ancestral, você até imagina que ele queira te dizer que ele enxerga os seus mortos logo atrás de você, você não sabe se ele quer saber se você é arquiteta ou infeliz, mas você desconfia que não, que ele não quer. Ou ele só quer um trocado para comer, você pensa olhando as sandálias gastas sobre meias, mas imagine a ofensa, se não for isso, e você faz um sinal de adeus e se levanta, e o velho faz a reverência, e o velho então te segue, o adeus, até o adeus, foi só seu, que ele vai ao seu lado, ainda sorrindo e você não sabe se é agora seu amigo para sempre ou se ele te protege ou se você protege ele, você segue andando, ele ao seu lado, você sorri, ele sorri, e as reverências, você sobe a ponte, ele sobe, você à direita, ele também. Em algum momento ele vai se afastar, mas você não sabe quando, e também não sabe porquê.


2.

É noite em Macau e o seu rosto muda de cor enquanto caminha um filme do Wong Kar Wai, ele vai te dizer, você olha pra cima e não sabe se o prédio do Cassino Grand Lisboa tem mais vinte ou cinquenta ou duzentos metros enterrados na névoa um filme do Méliès, você pede uma cerveja na lojinha e aponta e a moça do balcão digita o valor na calculadora, você paga, ela te dá o troco e no som da descompressão da lata vocês já não sustentam o interesse uma pela outra e você, sem saber se despedir, faz um gesto que ela não vê e se visse não saberia como reagir um filme da Sofia Coppola.

Você no dia seguinte vai à praia enevoada e escuta um cão latindo da China continental mas você não vê a China continental e você passa a crer que o invisível é a mãe das coisas na China enquanto o Ítalo Calvino é o pai. Ou ao contrário, ou nada disso, mas você deve enfim falar sobre o festival e sendo o seu primeiro e sendo ele tão complexo é muito cedo para escrever sobre a China. Você deixa a China para uma idade mais avançada da sua alma e você enumera, então, o que prevê que se faça memória:

- o ficcionista sueco Bengt Olsson se torna, sem desconfiar, guru de um Espírito. Ele termina um livro na sexta e começa outra na segunda e escrever é apenas isso, apenas um virar incessante de páginas em uma insistência não menos incessante pela melhor forma de contar histórias que foram contadas milhares de vezes. Essa infinitude do trabalho se demonstra um esclarecimento da finitude infinita de todas as coisas - a consciência da impermanência como norte estético. Você compra o premiado romance Gregorius e pede um autógrafo. Ele sorri, tímido.

- o poeta guineense Ernesto Dabo: você vai ouvir ele cantar 2 e a voz de mar tranquilo – em crioulo e português - será uma concha permanente em sua orelha esquerda. O livro dele, Mar Misto, é dedicado ao pai, Bascar Dabo, “pela repulsa que tinha ao ódio e ao egoísmo”.

- o poeta e ficcionista português Paulo José Miranda te presenteia com um livro - O Mal  -ficção que desenha em traços firmes a dolorida relação entre Portugal e Macau e, quando da descolonização da segunda pelo primeiro, “a imagem que sempre fizemos de nós mesmos foi uma imagem irreal, como alguém que perante o sofrimento, em vez de resolver os seus próprios problemas, se pusesse a sonhar com a sua inexistência.






- a poeta portuguesa Matilde Campilho você já conhece da Flip em 2015, e a leitura dela - a delicadeza mais grave e a portuguesa mais plena de malandragem que você já viu - sempre nasce outra vez inteira, força da natureza que é.

- os amigos Marcelino Freire e Felipe Munhoz - você divide com eles uma mesa e você fala sobretudo de política, porque será inevitável, e aprenderá sobre a inevitabilidade da política em qualquer agenciamento estético. E aprenderá o contrário também. E um dia ainda vai aguçar os dois vetores - esses amigos vão te ajudar.

- com o diretor Helder Beja você vai querer conversar sobre tudo mas não vai ter tempo, ele sabe tanto e tão sereno. Outra lição sobre a impermanência.

- o ficcionista Adam Johnson supre a sua inaptidão em elaborar imagens para os mistérios da Coréia do Norte em seu romance The Orphan Masters Son, ganhador de um Pulitzer. Você compra o livro e ele te pergunta se ele pode ser seu fã, sem te conhecer. Você tende a gostar de artistas assim.

- a performance Oráculo, de Gil Mac: ele vai tirar o tarô para você e vai alinhar a sua vida com a do poeta português que viveu em Macau Camilo Pessanha. Você vai querer passar mais tempo na cidade mais Húmida e Obscura que já viu, e vai querer ler Pessanha.


3.

Finalmente, o guia de sonhos.

- Você volta a morar em uma antiga casa da sua infância ou de outro casamento e deita na cama e fecha os olhos e escuta a gota lenta da chuva chinesa e se levanta e nota que o teto são telhas soltas. A cama se inunda e o quarto se inunda e você vai até a cozinha e abre a porta do armário e de dentro um cavalo sai correndo, depois um pavão, por fim andorinhas. 

- Você volta a morar em outra casa antiga da sua vida e ela não tem vidros nas janelas, só os imensos buracos quadrados. A circulação do ar é muito boa, muito fresca, mas não você não suporta o medo das aranhas que podem entrar durante a noite.

- O seu melhor amigo tem no colo uma menina, você olha mais de perto, é uma boneca, mas se mexe muito naturalmente e tem a pele mesmo dos bebês, você pergunta, é um robô de filhinha, encomendado pela internet, chega numa caixa, você abraça, diz que ama, ela fica assim, canguruzinha. Você pergunta o que você está fazendo, ele responde: levando pra escola todos os dias, dando banho, comida, criando, ué.

- Você ergue os braços em um ato político e um outro braço surge de trás e te enlaça com a mão grande o seio esquerdo. Você se vira e não encontra o dono do braço, ele apenas desaparece em fade out através da névoa branca. Você tenta tirar, a mão não sai, ela até sente o seu mamilo receoso. 

- Uma onda imensa de água preta se ergue e congela diante do seu corpo. Ela não te leva, mas cola pra sempre nos seus olhos fechados.

- Passarelas, escadarias e esteiras rolantes conectam pelo ar toda uma cidade. Quando caminha por elas a sua alma alcança níveis elevados e antepassados, ou apenas velhos. Retornando ao nível da rua a alma recua à mediocridade da sua idade corporal. Você quer voltar às escadarias mas o tempo na cidade se esgotou. Você lamenta.

- Uma imensa cobra adormecida é colocada bem rente ao meio fio de uma rua vazia. Ela ataca assim que ouve os passos de revolucionários acuados pelas tropas e enlaça quantos conseguir sufocando até o fim. Os demais, se forem realmente unidos pela causa, tentarão salvar os companheiros e serão os primeiros a serem engolidos pela cobra gorda, cuja espécie aguenta a ingestão de até quinze humanos adultos inteiros. Essa é uma tática militar de ataque surpresa. Você não é nenhum personagem nesse sonho.

- Você perde o avião.

- Você perde o trem.

- Você anda milhas e polegadas, você anda nas medidas que não consegue quantificar, você anda muito e, provavelmente, está sem calça.

- Você fez uma tatuagem e de longe ela é uma mandala cheia de segredos, mas de perto é um cãozinho que morde o próprio rabo e o traço não é bonito, nem a cor.

- Os cheiros viram cores. E a China do vermelho vai ao ocre, inclusive as suas mãos. Um velho cheira as suas mãos; ele diz que o cheiro é ocre.

- Você não morre, mas também não vive, você e suas quinze concubinas viram estatuetas no topo de uma construção de mil e quinhentos anos, coloridas, muito bem talhadas e muito bem conservadas, para sempre.


Esta crônica foi escrita originalmente para o blog do Words Without Borders. Para ter acesso ao texto em inglês clique aqui.


1. Tipo de torre, geralmente relacionada a um templo. É comum em culturas budistas.

2. https://www.youtube.com/watch?v=hmpJ8m7PMS4



Carol Rodrigues
Carol Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro e vive em São Paulo. Publicou seu primeiro livro de contos, Sem Vista para o Mar, na Balada Literária de 2014. Um Homem Prudente, que integra a edição, levou o primeiro lugar no Prêmio Sesc-DF de Contos Machado de Assis 2013. Em breve lançará o segundo livro - Os Maus Modos, realizado com apoio do Proac 2014. É também roteirista e produtora cultural.



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