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Algumas "palavras secretas" de Rubens Figueiredo



2016-05-18

Literatura Brasileira Hoje é um projeto idealizado e coordenado por João Cezar de Castro Rocha. O encontro com Rubens Figueiredo na Casa de Leitura Dirce Côrtes Riedel foi registrado em formato de crônica e entrevista por François Weigel 

À revelia dos autores empresários de si mesmos que passam tanto tempo nas redes sociais como nas feiras literárias e eventos promocionais, é raro poder ouvir a voz de Rubens Figueiredo, escritor discreto, autor de uma obra premiada e reconhecida como uma das mais importantes da literatura brasileira contemporânea. Quem esteve presente na Casa de Leitura Dirce Côrtes Riedel, no dia 7 de abril, pode se considerar como um privilegiado! Durante três horas densas e apaixonantes, o escritor carioca, nascido em 1958, conversou com o público dessa pequena biblioteca, um canto de cultura e de diálogo no bairro de Botafogo.

No final da década de 70, Rubens Figueiredo trabalhou numa grande editora do Rio, onde traduzia livros de bolsos populares e, pontualmente, reescrevia ou completava alguns trechos, como “ghost-writer”. Essa experiência certamente influenciou o autor quando ele escreveu seus primeiros romances, O mistério da samambaia bailarina (1986), Essa maldita farinha (1987), e A festa do milênio (1990), três textos que flertam com o romance policial e o romance de folhetim, fazendo uso de muitas peripécias, de uma linguagem coloquial e de uma mistura de traços cômicos e grotescos com elementos realistas. “Só que foi um fracasso. A tonalidade humorística dos meus textos era uma arma que me protegia, um escapismo, e eu não dizia nada do meu mundo”, afirmou Rubens Figueiredo ao público da Casa Dirce, surpreendido pela sinceridade extrema do escritor. Para “sair dos impasses dos primeiros romances”, Rubens Figueiredo começou a experimentar outra forma literária, a do conto, onde melhor conseguiu explorar a vida interior de seus personagens.

Foi uma virada na sua carreira literária, materializada pela publicação de dois livros de contos, O livro dos lobos (1994) e As palavras secretas (1998), que ganhou o Prêmio Jabuti 1999 de Melhor Livro de Contos e Crônicas. O estilo dos contos é mais enxuto, a linguagem apurada, as notas de humor muito mais esparsas, e muitos dessas breve narrativas provocam no leitor surpresa e inquietação, com elementos insólitos e fantásticos que vêm agitar o universo ficcional. “No meu esforço de explorar uma experiência mais subjetiva, me vi enveredando por uma direção mais fantástica. A percepção vale mais do que o modo objetivo, daí o registro fantástico.” O realismo e o fantástico alimentam-se um do outro para aguçar algumas problemáticas recorrentes na ficção de Rubens Figueiredo, tais como a presença de um instinto animal em cada ser humano, a exclusão social ou as dificuldades de comunicação entre os indivíduos.

Depois de vários anos escrevendo contos, um gênero onde ele achou novos rumos para sua escrita, Rubens Figueiredo, sentindo-se já mais maduro como escritor, voltou a lançar-se o desafio de escrever um romance. O resultado foi Barco a seco (2002), recompensado pelo Prêmio Jabuti 2002 de Melhor Romance. E nos permitimos aqui reproduzir uma bela passagem desse livro, que, muito mais do que comentários e glosas, expressa toda a poesia da linguagem de Rubens Figueiredo, e a maneira como sua ficção joga luz sobre as reentrâncias da memória e as ressonâncias do passado no presente dos personagens:

“Conforta acreditar que o passado é um inimigo que derrotamos de uma vez para sempre, que cada minuto é uma formiga que esmagamos com o pé em nosso avanço implacável. Ao contrário, minha sensação é de que o passado respira todo o tempo às minhas costas, anda sempre no meu encalço e, se acelero o passo, ele também aumenta o ritmo de sua marcha, disposto a me tragar de uma vez na sua corrente.”

Permanentemente insatisfeito, e sobretudo com a modéstia que o caracteriza, Rubens Figueiredo confidenciou, no bate-papo da Casa Dirce, que hoje ele identifica “um defeito” nesse romance. Ele quis fundir duas coisas numa só narrativa – a relação entre o narrador, um crítico de arte, e um pintor cuja obra o fascina, mas também as dificuldades enfrentadas pelo narrador para lidar com seu próprio passado, marcado por uma infância pobre e um período em que ele viveu como morador de rua. Ora, segundo Rubens Figueiredo, esse segundo ponto, o da origem social, não teria sido exposto de maneira muita sólida em Barco a seco, e o romance não teria conseguido revelar o quanto o comportamento e a visão do mundo do narrador foram afetadas por sua posição social. “Depois disso, queria deixar mais claro essa questão dos mecanismos de reprodução social”, concluiu Rubens Figueiredo.

Impulsionado por esse desejo, o autor escreveu os Contos de Pedro (2006), nove histórias em que todos os protagonistas se chamam Pedro, mas com condições sociais diferentes, sendo que o conjunto de histórias esboça um quadro complexo de sociedade, enfatizando temáticas como a corrupção, a violência urbana, a miséria.

Na sua última obra publicada, o romance Passageiro do fim do dia (2010), Rubens Figueiredo, mais uma vez, tenta revelar, através da ficção, as alienações e os condicionamentos que pesam sobre os indivíduos, dentro de uma sociedade capitalista extremamente hierarquizada, que fragmenta o espaço urbano. Eis, então, um questionamento constante na obra de Rubens Figueiredo, o qual lembrou, nessa conversa com o público da Casa Dirce, que ele trabalhou durante vários anos como professor num colégio do bairro Cidade de Deus.

Em Passageiro do fim do dia (Prêmio Portugal Telecom de Literatura de 2011), além de apontar para uma estrutura social profundamente desigual, e para discursos que visam a legitimar e reproduzir as desigualdades, Rubens Figueiredo forjou também uma estrutura literária particular, já que desconfia tanto dos mecanismos de reprodução social quanto dos automatismos da linguagem e do pensamento. Na construção de uma história de ficção, “existe hoje um esquema cada vez mais hegemônico”, segundo o qual toda ficção deveria ser constituída pelos mesmos ingredientes e ter como centro uma crise fundamental: um herói parte de uma situação inicial, e logo passa por essa crise fundamental por volta da qual se articula toda a trama, antes de uma resolução final. “Essa é a lógica convencional dos best-sellers, dos desenhos animados, e de uma quantidade abissal de livros de ficção, mas não deveria ser uma regra absoluta, e muitos grandes autores, em particular no século XIX, não construíram suas ficções sobre esse padrão”, disse Rubens Figueiredo, admirador e tradutor de muitos clássicos russos como Tchékhov, Dostoiévski ou Tolstói.

Ora, longe da exposição de uma crise paroxística, Rubens Figueiredo queria apresentar ao leitor, em Passageiro do fim do dia, “o banal, o cotidiano”. Por isso teve que “montar uma outra estrutura, sem que ela deixasse de ser coerente.” A história de Passageiro do fim do dia narra uma viagem de ônibus, que o personagem Pedro tomou para ir, como cada sexta-feira, do centro de uma grande cidade, de nome desconhecido, até um bairro periférico, onde mora Rosane, namorada de Pedro. Outros relatos surgem no meio da narração e se entrecruzam por volta da trama principal, a partir das lembranças de Pedro e de episódios de um livro que ele está lendo, uma resenha das viagens que o cientista Darwin realizou nessa mesma região atravessada pelo ônibus. Com transições sutis entre o passado reativado pela memória, e o presente da viagem, “tudo acontece no ônibus, com a mediação da percepção do protagonista, e eventualmente de outros personagens.”

Como nos contos do autor, Passageiro do fim do dia explora a dimensão subjetiva dos personagens, e assim tenta “traduzir” em palavras alguns problemas do mundo. Nesse sentido, Rubens Figueiredo esclareceu ao público da Casa Dirce que seu trabalho de tradutor se junta à atividade de escritor, pois ele considera a tradução como “uma faculdade muito mais abrangente do que parece à primeira vista. Tudo é tradução.” Eis o segredo da fascinante humildade de Rubens Figueiredo: bem longe dos discursos que sacralizam a literatura, colocando-a numa redoma elitista, ele recusa os termos enfáticos de “gênio, inspiração, criação”, aproximando o trabalho de um escritor da atividade de um artesão, que lida com os “componentes mecânicos da linguagem, algo que corresponde a um sistema.” Ali, sim, com um trabalho sobre as formas e o sentido das palavras, sem pretensões desmedidas, a ficção literária pode ter a potência de desmontar esquemas e discursos pré-fabricados. Essa foi a grande lição do autor nessa tarde em Botafogo: “A literatura tenta levar à necessidade de conhecer o mundo.” Formulando problemas, mas evitando propor soluções definitivas, “o romance não pode se dissociar do esforço de compreender o mundo, o mais longe possível.”


Breve entrevista com o autor.


Você poderia destacar a importância da sua atividade de tradutor para sua obra de autor?

Qualquer tradução, mesmo a mais alienada, mesmo aquela que nada tem a ver com os conteúdos da consciência do tradutor, compreende um exercício de linguagem de algum alcance. Esse tipo de exercício é sempre crucial para um escritor. Se o escritor vai tirar proveito disso ou não, depende dele. De certo modo – e aqui nada há de metafórico --, escrever também é traduzir, pois partimos de impressões, imagens ou pensamentos que no geral não se manifestam, primeiramente, em linguagem verbal. E até resistem a ela. O teor dessa resistência é o mesmo que encontramos ao fazer a tradução de um livro. O propósito de ambas atividades é construir um texto em língua portuguesa que atenda às expectativas que estão na origem desse texto.


Seu romance Passageiro do fim do dia mergulha nas contradições do mundo urbano e capitalista, apontando para os mecanismos de reprodução social e para alguns discursos que visam a legitimar e confortar as desigualdades sociais. Na sua concepção, a literatura pode ou deve ser engajada e manter um comprometimento com as realidades sociais?

Vamos pôr a questão em outros termos. Um postulado idealista ganhou muita autoridade, na literatura, nas últimas décadas do século vinte: o real (muitas vezes grafado até entre aspas) foi apresentado como, no máximo, uma hipótese, que, para todos os efeitos, se esgotaria em linguagem. Assim, caberia à literatura apenas uma dimensão autorreferente. Sua aposta deveria se concentrar no possível alcance crítico da linguagem em si. Foi uma experiência histórica e, como tal, passados tantos anos, cabe ser posta em questão. Minha avaliação é que o suposto alcance crítico dessa estratégia redundou em conservadorismo e conformismo, explícito ou discreto. Ao subtrair do horizonte da literatura as relações sociais, tornamos o regime de exploração do trabalho e acumulação do capital algo tão natural e invisível quanto o ar e o sol. Portanto, voltando à sua pergunta, trata-se de tentar dizer alguma coisa relevante sobre os problemas que existem à nossa volta e que constituem e determinam nossa vida. Identificar esses problemas, avaliar sua relevância e tentar investigá-los com os recursos próprios da literatura. A partir de um outro postulado: tudo o que se faz em literatura, cada opção de construção ou de linguagem, está sujeito aos mesmos fatores que afetam ou determinam as atividades mais corriqueiras.


Você é um leitor de literatura brasileira contemporânea? De que maneira você situa sua própria obra dentro do panorama literário atual? 

Não posso dizer que leio muito, seja literatura brasileira ou outra qualquer. O tempo é curto e erudição é uma coisa que não enche meus olhos. Porém, na minha atabalhoada história de escritor, o que pude observar, em mim e em outros escritores mais ou menos da minha geração, foi a enorme dificuldade para entender a sociedade em que vivemos. Foi nossa fragilidade em face dos mecanismos, velados ou não, de intimidação e coação para fazer de nossos pobres livros peças de consciência nula ou então aderentes, de forma declarada, de um sistema econômico e social vivido como opressão contínua e, em geral, silenciosa. Mas essa dificuldade dos escritores não difere daquela vivenciada por todas as pessoas. Digamos que é no quadro desse esforço, e dessa necessidade, de manter a consciência crítica de pé que situo meus poucos livros.



François Weigel
François Weigel é francês e está iniciando seu doutorado com orientação de João Cezar de Castro Rocha (UERJ), e o professor Saulo Neiva, da Universidade Blaise Pascal (Clermont II). Trabalhará com romances que representam cidades diferentes, e regiões distintas do Brasil – de Milton Hatoum (Manaus) a João Almino (Brasília), passando por Cristóvão Tezza (Curitiba) e Luiz Ruffato (São Paulo), analisando a representação do espaço urbano pós-ditadura militar.



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