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Paraty (junho de 2016)



2016-05-30

A gente no papel do leão. Nem urrando muito alto a ponto de assustar, nem muito baixo a ponto de decepcionar

Festa de aniversário na casa da minha mãe, cheia de atores da TV Globo porque nessa época minha irmã anda com gente da TV Globo. Aí tem essa mulher no sofá e eu olho pra ela. Vagamente.

Chego, dedo em riste, um olho meio fechado, aquele risinho de você não me engana:

"Você... Externato Atlântico!"

"Não. Papel principal da novela das oito."

E fico me lembrando disso porque escrevo esse "morrendo" em outro aniversário, esse de catorze anos que não sou convidada pra Flip. Já cantei em fast foward um parabéns pra mim no espelho do banheiro e agora está na hora de ficar realmente alegre porque aniversário é pra ficar alegre: a gente aguentou um ano inteiro desde a última vez que pareceu que não ia aguentar nem mais um minuto. Uma sorte, portanto.

E fico alegre, também, porque me conheço.

Eu olharia pro cara na mesa do bar, e vagamente. E chegaria perto, dedo em riste, já com risinho de você não me engana:

"Você costuma ir na padá da Domingos com Estela!"

"Não. Prêmio Nobel de Literatura."

Então, viva. Comemorem comigo. Sou mesmo uma sortuda.

Mas não é sorte. É merecimento. Não vou dar esse vexame em Paraty esse ano mais uma vez porque me preparei pra isso. Há muito tempo me perguntaram:

"O que você acha da Flip?"

"Um Simba Safari."

(Por aí vocês veem como faz tempo.)

A gente no papel do leão. Nem urrando muito alto a ponto de assustar, nem muito baixo a ponto de decepcionar.

Nunca mais falaram comigo. Depois me ocorreu que aquilo podia ser uma sondagem. Prum convite. Gosto de pensar assim. Pessoas me sondando prum convite. O que eu acho de Paris.

Porque já tenho tudo esquematizado.

"Obrigada, mas não."

E sairia segurando a ponta da saia de cetim com uma das mãos, a outra protegendo o colo. Porque nessa hora não tenho peito, tenho colo. E sumiria no portal de mármore de carrara (o do Michelângelo), em meio àquele barulhinho que saia de cetim faz. Saia comprida. Várias, uma por cima da outra. E tenho decote nas costas que é pras pessoas verem minhas costas (magras, mas promissoras), justamente nessa hora em que me viro de costas e saio. Em algum ponto, pendurada do lustre, desce a palavra Altiva, toda feita em pedrarias.

Variações da cena:

"Por escrito" foi lançado na Copa do Mundo, época em que, é sabido, a meia dúzia que sabe ler desaprende subitamente. E o livro foi lançado sem sequer entrar no site das livrarias, sequer no da própria editora. Pré-venda? Nem pensar. Aliás, eu só soube que o livro tinha saído porque alguém de rede social avisou. Me mandou foto do livro na Cultura, porque custei a acreditar. Deve ter dado algum erro, sei lá. Ou então é normal isso. Talvez eu deva me convencer de que é normal. Porque, depois, o livro foi segundão num prêmio e ganhou aquele selinho de livro premiado. Só que se enganaram e o selo que puseram no livro era de outro prêmio, do qual eu não tinha sido sequer finalista. E antes disso tudo, eu já tinha tido uma prévia, porque na hora de fazer a orelha, nem o nome da personagem principal o orelhista acertou. Precisei eu ir lá e corrigir. Enfim, vai ver é normal. Ou normal comigo. Acho que só comigo. Então tenho outras cenas, daquele tipo com cetim, pras reedições futuras do "Por escrito".

Vamos imprimir uns banners pra porta de livrarias.

Obrigada, mas não." E bate um reflexo dourado na minha bolsa Hermés.

Vamos mandar o livro pras editoras estrangeiras com quem temos contato.

"Obrigada, mas não." E jogo meu cabelão - estou com cabelão - pra frente, pro lado e pra frente outra vez. Já vi fazer. Acho que dá pra repetir.

Vamos chamar os livreiros pra você apresentar o livro pra eles.

Isso só ouvi dizer que existe, talvez seja lenda urbana. Comigo nunca rolou. Então é possível que eu esteja em pleno delírio, de modo que vou parar por aqui. Mas paro embicada pra cima, que é meu jeito de parar. Embicada pra cima e com marcha engrenada em primeira, senão eu rolo ladeira abaixo de volta ao inferno tudo outra vez. E a marcha engrenada é uma frase que repito como mantra:

"Tudo vai mudar."

Acho. Não acho. Me convenço que acho. E pulo da cadeira/caixote de feira/poço do elevador cheia de energia, tudo vai mudar, e ainda acrescento uns pontos de exclamação:

"!!!!"

Por exemplo, ao contrário do caso da Copa durante o "Por escrito" (sentiram a inversão?), esse de agora, o "Como se estivéssemos em palimpsesto de putas", não vai sair durante as Olimpíadas. Me jurou o André Conti:

"Pós-Flip, pré-Olimpíadas."

Que foi quando comecei a preparar a festinha dos catorze anos sem-Flip, porque pós-Flip quer dizer exatamente isso, sem-Flip. Pelo menos, pensei eu animada, também sem Olimpíadas. O que considerei um presente mercadológico, uma espécie de marshmallow na ponta do pauzinho e vou explicar essa imagem que é pra não pegar mal.

Morei nos Estados Unidos uns tempos.

Tinha um jacaré. O pessoal lá tem mania de queimar bolinha de marshmallow na ponta de um pauzinho, coisa de reunir em volta de fogueira. Incentiva a vida em comum, o espírito solidário, os bons sentimentos. Não acho que dê certo, mas nunca me perguntaram. Aí conheci o jacaré, enorme, numa reserva ecológica. E era só enfiar a mão na água com um marshmallow tostadinho que ele vinha devagar (pra não assustar), mas não tão devagar (pra não decepcionar). Você jogava o marshmallow e ele abria a bocarra e sumia com o premiozinho dele, depois de te mandar um olhar resignado de que a vida é essa merda mesmo.

O que me lembra: preciso de um apelido pro livro. "Como se estivéssemos em palimpsesto de putas" é um título completamente inadequado, enorme, nunca que as pessoas vão decorar isso. O tradutor e todos os funcionários da minha tão bem-educada editora se referem ao livro como "Palimpsesto". Eu e Caró, que somos grossíssimas, só o chamamos de "Putas". Mas nunca perco a esperança de virar senhora distinta (já que perdi o bonde da moça fina) e ensaiei um "Como se estivéssemos". E três pontinhos. Mas quem ouvia me olhava com cara de pena, me dava tapinha nas costas.

"Pois é. Igualzinho mesmo, quem não lembra, né. Mas não vamos desanimar. Quem sabe numa nova eleição."

Pedro Taam também gosta de "Putas". David, meu filho, não chama o livro de nome algum porque não lê as barbaridades que a mãe escreve. Eric Novello e Roberto, consultados, não deram retorno até o fechamento dessa edição.

Todos vocês que não são Flip-material (ler matíriou) estão convidados pra festa sem-Flip. Haverá votação pro apelido do livro. Tolinhos, nós acreditamos em voto.



Elvira Vigna
Elvira Vigna é escritora e desenhista. Nasceu em 1947, no Rio de Janeiro e atualmente mora em São Paulo. Formada em literatura pela Universidade de Nancy, na França, é também mestre em comunicação pela UFRJ. Seu romance Nada a dizer, publicado em 2010 pela Companhia das Letras, recebeu o prêmio de ficção da Academia Brasileira de Letras.
Site oficial: http://vigna.com.br Twitter oficial: @elviravigna



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