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O escritor como leitor (de Raduan Nassar)



2016-06-10

A revista Serrote #21, nov. 2015, traz o ensaio “O escritor como leitor”, de Ricardo Piglia, tradução de Heloisa Jahn (curadora da seção Fingimento da revista Pessoa), que parte de uma palestra ministrada por Witold Gombrowicz realizada na antiga livraria Fray Mocho, região central de Buenos Aires, em 1947, para discutir a chamada “leitura de escritor”. “Contra os poetas”, o texto dessa conferência, pode ser lido como apêndice do Diário desse polaco (antinacionalista, é bom destacar) que viveu na Argentina por mais de vinte anos. Piglia comenta que o argumento central daquela fala seria uma crítica implícita à noção de literariedade, originada com os formalistas russos e desdobrada ao longo do século XX pela crítica como um todo. Para Gombrowicz, não existiria um elemento na linguagem que possibilitasse uma função poética, mas sim, uma disposição de quem lê. Piglia cita ainda alguns comentários de Borges sobre os clássicos e gêneros literários que vão nesse mesmo sentido, e conclui: “Não existe uma essência dos textos nem dos gêneros, somente maneiras de ler”. Mais adiante: “A literatura é uma maneira de ler, e essa maneira de ler é histórica e social, e se modifica”. E quanto às condições que geram expectativas e definições do valor de uma obra, ressalta que o que “sabemos do texto antes de lê-lo é tão importante quanto o texto propriamente dito”.

(Como não fui diretamente ao assunto principal no primeiro parágrafo, conforme ditam as regras da boa redação ou do lead jornalístico, consideremos que esse grande bloco de texto inicial, além de esclarecer de onde vem a escolha do título acima, faça um pouco esse papel de expor o pré-sabido (ou afetivamente decantado como saber) que media toda leitura – a sua, a minha, e também a do escritor, antes e, sobretudo, leitor.)

Foi à luz dessa reflexão do texto pigliano sobre Grombrowicz que, ao saber que Raduan Nassar tinha sido agraciado por unanimidade com o Prêmio Camões, no dia 30 de maio de 2016, considerado o mais importante destinado a autores de língua portuguesa, elenquei em minha mente, e em seguida nos destinatários de mensagens, alguns de seus leitores, compartilhando a notícia como quem comemora o gol de um time em comum de dentro da torcida. Entre esses leitores, lembrei de um em especial, o escritor Estevão Azevedo, autor de Tempo de espalhar pedras, a propósito, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura no ano passado.

Não foi só eu quem fez essa associação, tanto que no dia seguinte à premiação de Raduan Nassar, um texto de autoria de Estevão podia ser lido na Folha de S.Paulo. O texto publicado no jornal, “Pelas palavras e pelo silêncio, Raduan Nassar é um gigante”, é um aperitivo para quem quiser se esbaldar em “O corpo erótico das palavras: um estudo da obra de Raduan Nassar”, sua dissertação de mestrado em Literatura Brasileira pela USP, defendida em outubro do ano passado, sob orientação de Eliane Robert Moraes. Como leitora desse trabalho, reforço o que os integrantes da banca de defesa assinalaram na ata: vale publicação, e como vale!

Estevão faz nessa dissertação uma leitura de toda a obra de Raduan Nassar. E se pode parecer pouco, já que Raduan publicou apenas três livros (o romance Lavoura arcaica (1975), a novela Um copo de cólera (1978) e Menina a caminho (1994), de contos), qualquer leitor dessa tríade saberá reconhecer a dimensão dessa empreitada, ainda mais inserida na lógica de prazos e avaliações da universidade. O mesmo pode ser dito sobre o reconhecimento dado à obra por prêmio de tamanho peso. “Através da ficção, o autor revela, no universo da sua obra, a complexidade das relações humanas em planos dificilmente acessíveis a outros modos do discurso”, justificou o júri, conforme noticiou em seu site o jornal português Público.

As formas como os excessos e a escassez próprios do erotismo, assim como o protagonismo dos corpos, submetidos ao poder, mas também fonte de prazer, moldam essa prosa são laçadas pela leitura de Estevão Azevedo, que tem como foco a percepção de personagens que, donos da fala dentro das narrativas, não abrem mão de impor sua verdade. Verdade que, embora defendida com feracidade por aqueles que a detém, está dita de modo a enaltecer sua destruição. “Nisso reside uma afirmação categórica, realizada de forma violenta, de uma virilidade à beira do colapso e potencializada tanto pela intensidade quanto pela precariedade”, lê o escritor a produção do outro escritor.

Para alcançar essa tensão, bastante explorada a partir dos embates entre o feminino e o masculino, marca da ficção de Raduan, Estevão reconhece um distanciamento em relação a contextos históricos demarcados – mediação indireta entre realidade e ficção, jamais alheamento – e a luta pelo poder e controle dos corpos sob a máscara da linguagem e do cinismo. Hipótese trabalhada com lupa na dissertação. Leitura que passa por leituras tantas identificadas por um escritor no outro de textos filosóficos, bíblicos, do Alcorão, de mitos gregos e até da tradição hermético-alquímica.

Menina a caminho bebe na infância de Raduan, mas o texto não só não o explicita como cria, na descrição do armazém, parentesco com a Tebas de Sófocles. Um copo de cólera opõe, aparentemente durante a ditadura, a jornalista da cidade ao chacareiro, mas dessa ambientação há apenas indícios. Em Lavoura, a origem mediterrânea da família é citada, mas a falta de referentes termina por lhe conferir um forte tom mítico”, ilustra Estevão.

Em seu primeiro romance, Nunca o nome do menino (publicado pela Terceiro Nome em 2008 e que ganha em 2016 segunda edição pela Record, nova casa do autor), Estevão Azevedo também faz, e nos convida a fazer, uma leitura de crítico literário, consciente dos instrumentos ao seu dispor, do escritor muito atento às estruturas que compõem e são analisadas em seu trabalho. Não desanime, leitor, se essa não for a sua praia, a narrativa envolve e é daquelas que se fica ansioso para saber os desenlaces de um certo mistério imperioso que tece suas linhas. Mas, sim, é verdade que há uma graça a mais para iniciados nos “manuais literários”.

Uma análise própria de um “agente duplo”, cheia de humor e lirismo, é feita nesse romance da tão ostentada literariedade (inclusive a presente em narrativas outras sobre o Eu no mundo, como a religião e a psicanálise). “O analista, Sherazade às avessas, escutava a cada sessão um elo dessa minha longa corrente de fábulas, para que eu, a paciente, na ânsia de conhecer o próximo elo, não morresse. O que todo mundo busca é o alívio de enfim virar narrativa.”

Os modos como a narradora-personagem domina a estrutura de si enquanto criação, inserida numa temporalidade também arquitetada – “Eu pouco sonhava, porque os sonhos, na minha situação, só nasciam se fossem facilmente relacionáveis com algo que havia acontecido no meu passado ou com algo que aconteceria no futuro.” – são submetidos ao crivo de um conhecimento prévio do literário que, ao mesmo tempo que lhe garante a vida, desperta um primeiro desejo de morte, primordial obsessão pelo FIM.

“O que não sabem é que eu, quando me vi em estado puro de escritura, quando descobri minhas veias com longa escrita cursiva, meus olhos como puro adjetivo, meu sangue como nanquim, minhas contradições oximoros, meus poros, pontos finais, minha pele, metáfora, e meu desejo hipérbole, quando o momento máximo de autoconhecimento não foi mais que uma peripécia, a angústia então foi tanta e tão intensa e tão romântica que pela primeira vez desejei, mesmo sendo excessivamente feliz, morrer.”

Consciência que, fatalmente, a torna uma protagonista que vive a seu modo todas as crises de ser autor, responsável pela invenção de toda memória, dos desfechos ou a falta deles. Ainda que diga a certa altura: “Não sou muito boa na invenção”, reinventa-se diante de nossos olhos a cada novo capítulo, e por isso mesmo prende nossa atenção enquanto novidade não estancada por enredos possíveis, até mesmo os não contados: “que história esconde-se de mim”. A tal “perda do frescor” que em certa altura ela tematiza ao remeter-se ao próprio corpo como “espetáculo um pouco decadente” não se concretiza, porque só alcançamos o FIM dessas páginas justamente por ânsia do vivido que compartilhamos durante sua leitura, como chegamos ao desfecho de nossa própria vida, por pura necessidade de viver.

“E uma narrativa, uma vez escrita, grava-se na pedra”, diz a narradora de Nunca o nome do menino. Bobagem, leitor é pedra dura, tanto bate até que fura. E é nesse furo que a linguagem se move líquida na leitura do outro. É o que faz, inclusive, André, personagem de Lavoura arcaica, diante do código restrito de seu pai, como a interpretação de Estevão Azevedo bem mostra ao apontar um sistema metafórico capaz de conferir aos homens características do mundo vegetal na concepção ligada ao tempo do plantio e da colheita nesse romance de Raduan, no qual a água, a seiva e os líquidos em geral são elementos vitais:

“Ao servir-se dos signos do líquido para uma finalidade contrária à determinada pelo discurso do pai – a lavoura da terra – mais uma vez André encontra uma brecha no interior do rígido código, que lhe permite reivindicar seu lugar à mesa da família sem abrir mão de seus desejos – ou justamente por meio deles. Para que ele se encaixe, não é necessário substituir o código, basta ampliar até o limite suas interpretações. Por isso, mais do que partir de vez ou demolir efetivamente a casa – ameaçada apenas se suas demandas não forem atendidas –, o que André busca é fazer parte, integrar-se, mas nos seus termos.”

Ao interpretar os preceitos paternos, André pode, segundo Estevão, “encontrar, se assim se quiser, no discurso solene e edificante, ‘pedra amorfa que ele [o pai] não sabia tão modelável nas mãos de cada um’, até mesmo um elogio do egoísmo ou dos benefícios do incesto”.

Ao fazer essas conexões, pensei mais uma vez em Piglia, em Formas breves, ao tratar do romance moderno como experiência de viver em outra língua e da verdadeira tradição que é clandestina e se constrói em retrospectiva e tem a forma de um complô (ele tratava de Arlt, Macedônio e, claro, Gombrowicz) em oposição ao império da própria voz, nessa chave de leitura tão preciosa que Estevão apresenta sobre esse arcaico que resiste nas relações de poder e é formalizado por Raduan Nassar. Pensei nessa língua do outro, no “elogio do exílio”, na “ética da tradução” na obra do filósofo tcheco que viveu no Brasil, Vilém Flusser, pesquisa em andamento da psicanalista Lívia Santiago, doutoranda na Unicamp. Pensei em como foram essas interações todas que se inscreveram em mim para escrever um texto que pretendia falar da premiação de Raduan Nassar, mas que me levou à dissertação do Estevão Azevedo e, de quebra ao seu romance de estreia, Nunca o nome do menino, partindo de Piglia e a ele sempre o retorno.

Que não fique comigo, mas com ele (o menino), a voz que “encerra” na segunda acepção (conter em si, incluir, compreender), visto que parte da resistência à coautoria, por meio de um falso louvor da escuta, até se render ao diálogo. Entendo como essa conversa sem fim a obra de todo escritor como leitor. E como é bom encontrar alguém com quem se goste de conversar:

“É que eu não sei conversar, na verdade. Não gosto muito de diálogos. Prefiro ouvir, atentamente, pelo tempo que for, alguém dizer tudo o que quer, sem interromper; prefiro deixar que pensem, que falem, retornem ao ponto de partida, reiniciem, concluam, repensem, mudem de tema, sem comentar nada, sem interferir no percurso, respeitando o tempo, respeitando os erros e os acertos, escondendo minha concordância ou meu desprezo, rindo só para dentro, pensando em outra coisa se for algo insuportável para mim. E quando falo eu também quero ter essa liberdade [...] Eu falo para saber se sou capaz de falar o que penso e, se alguém além de mim se interessa, mas isso não quer dizer que eu gostaria que comentassem, que me ajudassem, que concordassem para que o seu silêncio não se torne algo constrangedor. Eu, quando digo ‘era uma vez’ quero seguir até dizer ‘fim’, sem nenhum coautor no meio do caminho.

Seus olhos reascenderam e ele concluiu, após um sorriso terno e um beijo entre meus olhos: “Com você é diferente, até de conversar eu gosto”.



Luciana Araujo Marques
Luciana Araujo Marques é mestre em Teoria Literária (USP) e doutoranda em Teoria e História Literária (Unicamp). É jornalista e atua no mercado editorial. Está entre os autores selecionados pelo programa Rumos Literatura, do Itaú Cultural, que teve como objetivo apresentar novos nomes da produção crítica brasileira com foco na produção literária contemporânea do Brasil, tendo como resultado a publicação do livro de ensaios "Protocolos Críticos" (2009).



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