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Através do espelho e o que Alejandra encontrou lá



2016-06-22

Retorno ao capítulo 6 de Lavoura arcaica, do Raduan Nassar, quando André relata que desde sua fuga, era calando sua revolta que, a cada passo, se distanciava da fazenda. E se distraído “perguntasse ‘para onde estamos indo’ – não importava que eu, erguendo os olhos, alcançasse paisagens muito novas, quem sabe menos ásperas, não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rigoroso, desprovido de qualquer dúvida: ‘estamos indo sempre para casa’”. Que, por sua vez, evoca Novalis, “Para onde vamos? Sempre para casa”, e me carrega aos passos apressados do narrador de Formas de voltar para casa, de Alejandro Zambra – lido na tradução de José Geraldo Couto –, que ao ser questionado se estava perdido, responde saber “perfeitamente voltar para casa”. O próprio que, quando menino se perdera, mas retomou o caminho e chegou em casa antes dos pais, que “continuavam me procurando, desesperados, mas naquela tarde achei que tinham se perdido. Que eu sabia voltar para casa e eles não”.

Já “A menina a caminho”, conto homônimo ao título da reunião de contos de Raduan, assim se inicia: “Vindo de casa, a menina caminha sem pressa, andando descalça no meio da rua”. A menina percorre diferentes espaços, “vislumbra um fundo escuro de quintal”, “espia timidamente pelo vidro de uma das janelas”, “assiste através da vidraça”, “se perde admirando selas”, “some da janela, ressurgindo caída feito peteca que tivesse sido atirada no chão do bar da esquina”, e assim segue, mas permanece imóvel, dentro de “molduras”, como lê Estevão Azevedo na dissertação “O corpo erótico das palavras: um estudo da obra de Raduan Nassar”. “Em ‘Menina a caminho’, tais como as imagens do desejo ou os reflexos no espelho, as molduras multiplicam-se, inserem-se umas nas outras, encaixam-se”, analisa. Até que se dá o encontro da menina com o dono do armazém empunhando sua garrafa e palavras incendiárias, e de quebra com aquilo que nela se move interiormente nesse embate verbal, mas também carnal. Corpo revirado, de volta à casa, ela vomita. E ainda que ali se dê uma briga violenta entre adultos, segue focada na questão da origem de um mundo despertada por aquelas ameaças de seu Américo, isto é, no desconhecido nela própria, onde ele enfiaria a garrafa com fogo e tudo:


“No banheiro, a menina se levanta da privada, os olhos pregados no espelho de barbear do pai, guarnecido com moldura barata, como as de quadro santo. Puxa o caixote, sobe em cima, desengancha o espelho da parede, deitando-o em seguida no chão de cimento. Acocora-se sobre o espelho como se sentasse num penico, a calcinha numa das mãos, e vê, sem compreender, o seu sexo emoldurado. Acaricia-o demoradamente com a ponta do dedo, os olhos cheios de espanto.”


Antecede o primeiro capítulo de Através do espelho e o que Alice encontrou lá, de Lewis Carroll, quando Alice adentra a casa do espelho, o poema que anuncia este conto-sonho e que tem na terceira estrofe os seguintes versos traduzidos por Sebastião Uchoa Leite na clássica edição da Summus: “Conto que outrora começou, num dia/ Em que o sol esplendia no verão/ E acompanhava, simples melodia/ O ritmo dos remos: seu refrão./ Eco que na memória não esmorece/ Embora ciúme do tempo diga: ‘esquece’.” E foi aí nesse “esquece” que me dei conta que estava na terra da memória, onde uma leitura recente puxou a outra nem tão recente assim, todas meninas dentro de mim, esquecidas, por isso mesmo agora rememoradas. A redescoberta do que já figurava, agora em releitura, o que será que guarda de mesmo? Sigo o caminho, digo, os textos em mim inscritos em outros tempos.

No capítulo seguinte de Através do espelho, Alice conclui que poderia ver bem melhor o jardim das flores vivas “se pudesse subir no topo daquele morro: e aqui está um caminho que vai direto até lá. . . ou  pelo menos, não, não é tão direto assim. [...] É esquisito como esse caminho se enrosca. Parece mais um saca-rolhas do que um caminho! Bom, por este lado aqui eu chego ao morro, acho. . . não, não vai! Vai de volta para a casa. Já que é assim, vou tentar em sentido contrário”.

De repente estou em 2006, há quase dez anos atrás, descobrindo Alejandra Pizarnik (1936-1972) enquanto estudo castelhano em Buenos Aires. Depois de uma das aulas, um professor me mostrou em um sebo em uma rua paralela a famosa Corrientes o exemplar da poesia completa da poeta argentina. Na hora eu não comprei. Questão de tempo. Enquanto tomo estas notas, hoje abro voluntariamente o meu exemplar, adquirido só anos depois em uma viagem ao México, em “Infancia”, poema de Los trabajos y las noches (1965): “Hora em que la yerba crece/ em la memoria del caballo. / El viento pronuncia discursos ingenuos/ en honor de las lilás,/ y alguien entra en la muerte/ con los ojos abiertos/ como Alicia en el país de lo ya visto”. E esse já visto nunca é igual.

Leitora de Proust já no secundário, Alejandra ingressou na universidade para estudar filosofia e jornalismo. Aos 18 anos sentava na primeira fileira e era a única que tomava notas, segundo conta o poeta e dramaturgo Juan Jacobo Bajarlía, em Pizarnik: anatomía de un recuerdo, que foi seu professor de literatura moderna e com quem também teve uma história de amor, ao que tudo indica. Desde essa época, a fascinação pela infância perdida se converteu para ela também em fascinação pela morte. Infância e morte, temáticas “igualmente deslumbradoras uma e outra, igualmente plenas de vertigem”, escreve Enrique Molina no ensaio “La hija del insomnio” (Cuadernos Hispanoamericanos, sup. Los complementarios, n. 5, mai. 1990).

Ao evocar em epígrafe o shakespeariano homem que vivia perto de um cemitério, em “Los muertos y la lhuvia”, publicado na revista Zona Franca, de Caracas, em 1969, Alejandra revela-se capaz de rir da vocação ao chamado abismal de sua memória, sobretudo a imaginada a partir do presente que a assombra: “Pero no por azar vivía ese hombre junto a un cementerio. Se me dirá que todo es azaroso, enpezando por el lugar em que se vive. Nada me puede importar lo que se me dice porque nunca nadie me dice nada cuando cree decirme algo. Somente escucho mis rumores desesperados, los cantos litúrgicos venidos de la tumba sagrada de mi lícita infancia. Es mentira. En este instante escucho a Lotte Lenya que canta Die dreigroshenoper”.

Em “Violario”, de 1965, um dos relatos que integram sua Prosa completa, editado pela Lumen, Alejandra, que se chamava Flora Pizarnik, nome por ela podado, por assim dizer, conta de quando em um velório observava as flores nas mãos do morto e deu-se conta de uma semelhança com Chapeuzinho Vermelho, um encantamento que involuntariamente despertava em velhas com cara de lobo. Uma delas a teria querido violar ao repetir “mire las flores... qué lindas le quedan las flores”, com decadentismo e respeito greco-romano, que ela execraria no estereótipo da femme de lettres de então: “Entonces decreté no escribir un solo poema más con flores”.

Mas jardins como os de Alice e bosques como os de Chapeuzinho são recorrentes em sua poética. “La verdade del bosque” (1966), outro relato, localiza a própria infância em um deserto atravessado tal Chapeuzinho, solitária, antes do encontro feroz. “Qué sola llevando uma cesta, qué inocente, qué decorosa y bien dispuesta, pero nos devoraron a todos porque ¿para qué sirven las palabras si no pueden constatar que nos devoraron? – dijo la abuela”.

Em “Ninã entre azucenas” (sem data), algo tão modesto como uma mão fechada abre sua “ardente memória”, evocando a imagem das açucenas detrás das quais um dia teria se escondido, selvagem, a devorar formigas. “El gesto de la mano dio una significación procaz [lasciva] a la figurita del memorial, la escondida entre azucenas. Comecé a asfixiarme entre paredes viscosas (y sólo debo escribir desde adentro de estas paredes).” Flores que são a própria linguagem, como nos revela os versos de “Cold in Hand Blues”, “Figuras del presentimiento”, de *El infierno musical (1971): “y lo qué es lo que vas decir/ voy a decir solamente algo/ y que es lo que vas a hacer/ voy a ocultarme en el  linguaje/y por qué/ tengo miedo”.

Tampouco faltam chás malucos com bonecas e a morte e encontros da derradeira com a menina e a Rainha Louca nos escritos de Alejandra.

Alejandra Pizarnik deixou a faculdade sem graduar-se. Sonhava conhecer Paris, e para lá foi, onde viveu entre 1960 e 1964. Lá fez amigos como Octavio Paz e Julio Cortázar, entre tantos outros. O primeiro, autor de O labirinto da solidão (1950), obra já emblemática no México na época, foi o responsável pelo prólogo de seu Árbol de Diana (1962). Na biblioteca da poeta se encontra a dedicatória com a caligrafia de Octávio Paz no exemplar de Libertad bajo palavra (1949), escrita por ele ao longo de vinte anos e publicado na França: “Sus palabras queman en el viento. Hay que salvarlas”. Sobre o segundo, com quem tinha grande afinidade estética (absurdo como espelho do mundo), escreveu “Humor y poesia en un libro de Julio Cortázar: Historias de cronopios y de famas” (1963) e “Nota sobre um cuento de Julio Cortázar: El otro cielo” (incluído na edição da Sudamericana de Todos os fogos o fogo, em 1966).

Voltar para casa, especificamente a casa da família em Buenos Aires, depois dos livres anos parisienses, onde teria se “despertado apaixonada por sua vida”, conforme afirmou em uma de suas correspondência, não foi nada fácil para Alejandra. Ambiente onde sua bissexualidade, por exemplo, não podia vir à tona, entre tantas outras quebras de paradigma. Não era aquela a sua morada, por isso a linguagem poética servia também como aquelas paredes, de dentro das quais devia se locomover o corpo estreitado.

Em entrevista a Martha Isabel Moia, publicada en El deseo de la palavra (1972), Alejandra diz ser obsecada por uma frase dita por Alice no País das Maravilhas: “Só vim ver o jardim”. “Para Alice e para mim o jardim seria o centro do mundo”, afirmou a poeta. Na dissertação em estética e história da arte “Através do surrealismo e o que Alice encontrou lá”, defendida na USP em 2012, Adriana Peliano revisita esse encontro entre as duas meninas, Alejandra e Alice, numa encruzilhada do labirinto, rumo ao desconhecido, “ao jardim proibido, imagem do próprio desejo”:


“Surgida do mundo dos mortos, ela revelou que em seus poemas existiam palavras que se repetiam sem cessar, sem trégua, sem piedade: as da infância, dos medos, da morte, da noite dos corpos. [...] Alejandra sussurrou que, como Alice, também explorava o ‘outro lado’ do espelho, mas enquanto Alice retornava do sonho à realidade, para Alejandra a estória terminava com o ingresso na morte”.


No prólogo da Prosa completa, de Alejandra Pizarnik, Ana Nunõ também faz referência aos espelhos e seu duplo ameaçador nessa “escrita concebida como espaço cerimonial onde se exaltam a vida, a liberdade e a morte, a infância e seus espelhismos”. Diante de tais temas, ao lado do surrealismo de André Breton, o existencialismo de Sartre, além da transgressão de Bataille e Michaux (sobre os quais Alejandra tratou em ensaios), é leitura decisiva para a poeta a nonsense obra de Carrol, escrita “como um antídoto contra o embotamento da imaginação, o travo da inteligência e a contenção da graça”, nas palavras de Nicolau Sevcenko, historiador e tradutor da edição *Alice no País das Maravihas da Cosac Naify, ilustrada com as maquetes fotografadas de Luiz Zerbini.

Assistindo ao documentário Memória iluminada: Alejandra Pizarnik (2011), dirigido por Virna Molina e Ernesto Ardito, e originalmente transmitido pelo argentino Canal Encuentro, soube que Alejandra buscou a psicanálise. “Não estou certo de tê-la psicoanalizado; sei que sempre Alejandra me poetizava”, registrou León Ostrov, a quem ela dedica seu livro de poemas La última inocencia, de 1956. Para ela, a poesia não deixava de ser terapêutica, uma vez que acreditava que “escrever um poema era reparar uma ferida fundamental”, remédio destinado a todos, porque “todos estamos feridos”.

“Nosso pequeno investigador pode descobrir bastante cedo que todo saber é fragmentário, e que em cada estágio permanece um resíduo não solucionado”, escreve Sigmund Freud em “Análise da fobia de um garoto de cinco anos” (1909), na tradução de Paulo César de Souza para a Companhia das Letras. O pequeno Hans, que não à toa tem muito da curiosidade da Alice e tem seu caso relatado a Freud por seu pai, mostra que sabe muito mais do que fala. O que é visto não é colocado literalmente na fala. A palavra vai tomando outras formas. No caso dele, fobias. No corpo e no corpo feito palavra, a poesia de Alejandra.

E se retomo aqui essa narrativa clínica não é para psicanalisar Alejandra Pizarnik, mas justamente salientar o que a força dessa poética transmite de um saber (matriz no psiquismo) que não recobre verdades e nos lança como leitores mais uma vez ao mistério do que se aprende já nas descobertas da tenra idade. A criança não está sozinha com suas perguntas, tampouco o poeta com seus assombros, elas são endereçadas a todos, porque estamos todos feridos.

Os pais, como os ficcionistas, não mentem ao inventarem histórias sobre a origem, não se trata de mentira, mas de compartilhar as mesmas dúvidas. Procura-se pelas palavras que organizem a descoberta interrogante, porque a resposta nunca se dá. Não há representação possível para o nascer. Não há representação possível para o morrer. Olhamos para o espelho, quando é preciso atravessá-lo. Alejandra Pizarnik o fez, como quem, perdida, sabia o tempo todo como voltar para casa, a de todos.

Mas que para que possamos voltar do sonho para a realidade com mais promessas de leituras, retornemos a curiosa Alice, autora de si, como sempre o fez Alejandra obsessivamente em vida, ainda que possa ter optado tão jovem pela morte, quando, afinal, não se fica mais mudando de tamanho o tempo todo, por não caber em si o que pende lá pra baixo:


“Era bem mais gostoso lá em casa”, pensou “quando não se ficava crescendo e diminuindo e recebendo ordens de ratos e coelhos. Eu quase preferia não ter entrado naquela toca de coelho... e no entanto... e no entanto... Esse tipo de vida é tão curioso, sabe? Eu fico pensando: o que será que aconteceu comigo? Quando lia contos de fadas, eu achava que aquele tipo de coisa nunca acontecia, mas agora... Eis-me aqui bem no meio de um deles! Eu tenho absoluta certeza de que deve existir um livro escrito sobre mim. E quando crescer, vou escrever um...”. (tradução do Sevcenko, toda memória e afeto pela literatura como missão).



Luciana Araujo Marques
Luciana Araujo Marques é mestre em Teoria Literária (USP) e doutoranda em Teoria e História Literária (Unicamp). É jornalista e atua no mercado editorial. Está entre os autores selecionados pelo programa Rumos Literatura, do Itaú Cultural, que teve como objetivo apresentar novos nomes da produção crítica brasileira com foco na produção literária contemporânea do Brasil, tendo como resultado a publicação do livro de ensaios "Protocolos Críticos" (2009).



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