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Poços de Caldas (férias escolares de julho de 1956)



2016-06-28

Em 1956, Juarez Távora, um militar fascistão em ostracismo temporário, pescava sem isca e levei quarenta anos de militância na área cultural pra perceber a abrangência de tal ensinamento.

Hoje também pesco sem isca. Nem sorrio, que é pra ninguém achar que vai ter isca porque não vai.

Minha agente, a Anja, um amor de alemoa, é categórica. Não faço mais sucesso porque:

1) sou mulher, feminista e velha; 2) escrevo esquisito; 3) não sorrio pras pessoas pra quem devia sorrir.

Sendo que, acrescenta, desiludida, se eu sorrisse, os dois primeiros itens não teriam tanta importância.

Na época em que, aos nove anos de idade, não percebi a relevância do que se passava ao meu lado, eu também pescava.

Hoje, em retrospecto, acho mesmo que nunca cheguei a gostar. Mas havia dados biográficos a me empurrar pra atividade.

O primeiro é que meu pai não queria dar o braço a torcer de que eu, mesmo reta e desengonçada, não era o que lhe haviam prometido. Pois minha mãe tinha dito, nove anos e nove meses antes:

"Quem sabe agora vem um menino."

Então era isso eu: short largo, camiseta velha, e uma vara, ainda que de bambu.

O segundo dado biográfico também é meio ruim. Eu lá sentada, olhando o nada e com uma vara na mão, até parecia estar fazendo alguma coisa. Sou assim desde pequena, meio parada, meio olhando qualquer coisa que não seja importante. Então, se pusessem uma vara de pescar na minha mão eu ficava mais fácil de ser apresentada:

"Ah, é nossa filha...", e um risinho nervoso. "Ela adora pescar."

E pronto. Ninguém precisava explicar que eu era assim mesmo e que todo mundo que nos conhecia já sabia que eu não ia dar em nada. E que paciência, né, toda família tem um. Se pelo menos eu conseguisse casar! Mas isso é o que menos estava garantido, já que eu não era recatada nem ao sentar nem ao falar e, adivinhavam, também não o seria ao transar. Não era do lar, de onde fugia sempre que dava. E quanto ao bela, aí é que a coisa piorava mesmo.

Outra hora volto a esse assunto, das tentativas da minha família pra eu dar certo. Nem foram muitas, mas tendo a me alongar nelas, é um tique nervoso meu. Ok, não resisto: só mais uma. A insistência a respeito do cursinho de datilografia.

"Pelo menos alguma coisa desse lance de ficar escrevendo pelos cantos pode vir a ser útil no futuro."

Útil sendo igual a ganhar dinheiro, claro, pois a profissa óbvia de mocinhas, casar, esbarrava naquilo que já falei antes e que envolvia perfis mais propícios. Perfis latu e strictu sensu, sendo que o strictu era de fato strictíssimu.

Mas chega. Voltando ao Juarez.

Então eu estava lá e acho que o lá era Poços de Caldas porque lembro de passar umas férias na cidade. Mas não tenho certeza. Palavras sempre tentam puxar a gente como comboio atrás de locomotiva. E Poços de Caldas tem a palavra poços a me jogar pro fundo dela. Dela sendo a cidade ou a palavra, nunca sei. E nem vale a pena ficar aqui teorizando sobre a diferença entre referente, significante ou um bom susto ontológico, desses lacanianos mesmo.

Então não sei. Porque na verdade eu pescava em qualquer cidade e em qualquer poço ou poça. Não precisava ser no plural. Não precisava ter peixe. Aliás, melhor se não tivesse. Poço(s), poça, laguinho de entrada de hotel, canal de irrigação cheio de agrotóxico, inundação pós-temporal. Ou delírio visual em pleno ar, nas nuvens. Até mesmo uma narrativa bem construída. Não Hemingway, que não gosto. Mas qualquer descrição minimamente interessante sobre alguém que arranca algo significativo do fundo de uma massa disforme, azul ou não.

Qualquer coisa servia, eu sentava e ficava.

Mas eu usava isca.

O Juarez Távora tinha perdido a eleição pro Juscelino (gúguel, crianças, que acabei de fazer a mesma coisa pra checar essa data). E quem perde - então não sei! - seja eleição, rumo na vida ou mesmo o arquivo word do livro novo, pode sempre dar um tempo em um lugar nenhum. Era o que o Juarez fazia. E tinha escolhido, pro lugar nenhum lá dele, o espacinho ao meu lado. Meu pai, reaça como ele só, quando foi me pegar no fim do dia e viu quem estava ali, foi logo sorrindo e estendendo a mão e perguntando se ele era ele, e essa é a única razão de eu saber que aquele velho que me pareceu meio maluco era o Juarez Távora.

Pois o anzol do Juarez não tinha isca e não que isso significasse modificações na postura do pescador. Sentado e com um olhar de quem não vai desistir nunca, igual ao olhar de quem tem isca.

Foi isso que aprendi com décadas de atraso. Não tem peixe nas nossas águas. Tudo bem alucinações, sou a favor totalmente. Mas aqui entre nós: não tem. Não nos nossos lagos/canais/poças habituais, onde chafurdamos dia sim outro também.

Cardume de olhos te olhando fixo, enquanto você fala sobre a excitação de uma análise semiótica sobre os falares de fronteira do Rio Grande do Sul, com notas ao pé de página que seguem as normas ABNT em duas línguas?

Não.

Rostos como corais coloridos, em deleite por conta da apresentação de um romance chamado "Putas", cujo título em heptassilábicos traz a cadência da redondilha maior?

Não (rárárá, só rindo).

Filas a perder de vista pra evento de videomakers de vanguarda sobre o Sertão do Cariri, tão difícil de viabilizar, mas que você conseguiu através de captação de patrocínio, apoio, parceria e outros nomes pra dinheiro, sem Lei Rouanet, embora tendo de adaptar um pouco o lado vanguarda da coisa?

Tíquetes gratuitos esgotados uma semana antes da vernissage de esculturas, feitas de matéria orgânica que deverá apodrecer durante o período de visitação, com direito a performance a partir de música não-harmônica?

O corpo de bombeiros mandando dizer que não pode entrar mais ninguém no clube de leitura previsto pra um sábado de sol às nove da manhã na biblioteca pública, com pedido pra que a chegada se dê às oito e meia?

Não, né. A gente sabe que não.

Lançamento de livro quando você tem três amigos, sendo que um deles acaba de mergulhar num de seus periódicos ataques de pânico e não sai de casa de jeito nenhum?

Pois é.

E aí, se não tem peixe, o Juarez Távora tem toda a razão. Porque sem isca, a coisa vira. Não é mais que não tem peixe e você fica lá, com a vara possível na mão. Sem isca, passa a ser resistência cultural, manifestação, protesto pelo desmonte das políticas culturais e educacionais de um governo ilegítimo e retrógrado.

Porque tem isso. Se você ganha pouco, não ganhar não faz diferença. Se não respeitam o que você fala, você fala sem respeitar quem não te escuta.

Sem isca é essa a diferença, me disse o Juarez Távora: você encara de frente. Quer dizer, não disse. Porque também aprendo o que quero, mesmo quando não está lá.



Elvira Vigna
Elvira Vigna é escritora e desenhista. Nasceu em 1947, no Rio de Janeiro e atualmente mora em São Paulo. Formada em literatura pela Universidade de Nancy, na França, é também mestre em comunicação pela UFRJ. Seu romance Nada a dizer, publicado em 2010 pela Companhia das Letras, recebeu o prêmio de ficção da Academia Brasileira de Letras.
Site oficial: http://vigna.com.br Twitter oficial: @elviravigna



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