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Testemunho de Testemunho transiente ou Carta a J.P.



2016-08-10

Eu cobria as férias de alguém em uma hoje extinta revista de livros quando costumava frequentar o sebo que o escritor Evandro Affonso Ferreira tinha ali perto da redação, na av. Pedroso de Morais, em Pinheiros. Vendedor peculiar (talvez por isso não bem-sucedido comercialmente), ele costumava dar de brinde livros de Borges, entre outros mestres, para quem levasse um livro de autoria dele. Categórico como sempre foi, um dia Evandro determinou: “O livro que você precisa ler é Certeza do agora, do Juliano Garcia Pessanha”. Era 2006, sua trilogia já circulava há algum tempo, mas foi por este terceiro que adentrei sua escrita. Reli algumas vezes, em especial, a heterotanatografia “Esse-menino-aí”, que, como você bem sabe, recolocou para mim a questão do testemunho como perspectiva de classe. Aquele seu Morumbi era desolador, afinal, até para uma moça da periferia. Melhor seria dizer: desalojador.

Você sempre me disse ficar comovido em imaginar que seu livro tinha sido lido num quartinho em Taboão da Serra. Quando nos conhecemos eu morava sozinha no centro de São Paulo, mas lembro bem do dia em que conheceu a casa dos meus pais, entrou no tal quartinho e perguntou: “Então foi aqui?”. Você tantas vezes me pediu para escrever sobre este meu encontro com seus livros, sobre as tantas releituras, sobre tantos comentários que compartilhamos... Eu relutava, dizia que veriam como propaganda, que a ninguém poderia interessar a leitura de uma leitura tão pouco distanciada. Uma leitura tão atravessada por um corpo, no que de pensamento há daquilo que experimentamos na pele. Mas a verdade é que nenhuma leitura é distanciada. Não importa nunca ter cruzado com aquele ou aquela, não importa sequer falar ou não suas línguas. É claro que eu sabia disso, apesar de afirmar o contrário. Nenhuma leitura é sem corpo que atravessa. Posso testemunhar. Ao menos, não as desse tipo, as que marcam e ficam, cicatriz de corte fundo. Corte entre antes e depois do lido tudo o que lemos. Talvez pela consciência dessa proximidade máxima, eu me preservasse de me expor tamanha corporeidade, e tudo o mais inconsciente. Os seus livros são livros com inconsciente a céu aberto, Juliano. O céu que só vemos quando o grito escancara o que está dentro da boca. E dela sai palavra.

Quando comecei a escrever estas crônicas de leitura, apesar da relutância em compartilhar as minhas sobre seus livros, assumi justamente o método baseado em um pressuposto pigliano: “Uno escribe su vida quando cree escribir sus leituras [...]. El crítico es aquel que encuentra su vida en el interior de los textos que lee”. Afinal, quem não quer se expor não escreve, você bem sabe. Não há um meio termo. Sendo assim, se escrevo minha vida quando escrevo minhas leituras e se encontro minha vida no interior dos textos que leio, você não poderia faltar. Me rendi porque já rendida. Então eis-me aqui, nesta carta a você, carta aberta porque encerrada em seus textos, nos quais o eu mais íntimo é um eu que reconhecemos em nós se não por similaridade, por estranheza necessária a tudo o que é normalizado no dia a dia e nas horas que acreditamos calculadas nos ponteiros do relógio e seu giro em torno do mesmo.

Na edição de Testemunho transiente (Cosac Naify, 2015), que reuniu em um único volume Sabedoria do nunca (1999), Ignorância do sempre (2000), Certeza do agora (2002) e Instabilidade perpétua (2009), você escreveu: “Para Luciana Araujo, que inscreveu em minha carne o livro que ainda não está aqui”. Meu nome aí é mero corpo invadindo o que já estava escrito muito antes do nosso encontro, porque a leitura assim se dá, sempre no presente. O mais importante, e para o qual chamo atenção, não está na autorreferência, mas nessa dedicatória como promessa do livro por vir que você vem caminhando não sem sofrimento, não sem um violento questionamento de tudo o que nós, seus leitores, só experimentamos porque você visitou lugares onde nunca poderíamos estar, porque numa fronteira muito rara entre uma lucidez cortante de claridade de sol a pino e a profundeza escura onde a maioria se afoga (não apenas a filha de Joyce).

A fronteira entre os gêneros, a propósito, é apenas um indício formal desse espaço que você ocupa – performance, poesia, ensaio, escrita de si, aforismo, “pensamentos estremecidos”... (Ainda houve quem sugerisse que devesse se concentrar em apenas um deles, como se o lugar de uma fala a gente alugasse como se alugam cômodos só para rapazes em uma pensão.) Como bem notou Benedito Nunes, já no primeiro de seus livros, apaga-se nessa sua formalização do vivido e do pensado “a diferença entre filosofia e literatura, em cujos frágeis limites se colocam” seus escritos. “Mas para que isso ocorresse, para que a ficção especule, o poema pense cantando e o ensaio realize uma experiência sobre o que investiga, foi preciso sintonizá-los entre si, como quem afina distintos instrumentos pelas claves de temas comuns, os quais passam de um para outro escrito, os três em mútua correspondência.”

Sua atual inquietação, desconforto e desconfiança com o altar dedicado ao Fora do Mundo, construído como monumento sobre os corpos devastados de poetas como a russa Marina Tsvetáieva, corpos em consonância com aquele que foi vestido como seu – mas com numeração errada, estourando botões, curto para tanto braço e tanta perna –, só se aplaca no mar, porque imenso e movediço chão. Se em “A exclusão transfigurada”, que integra Instabilidade perpétua, esse você se converte no Eu-Kafka, e no livro Diálogos e incorporações (Malha Fina Cartonera/Mariposa Cartonera, 2016), como o próprio título sugere, a possessão se dá com Nietzsche, Cioran, Rimbaud e a própria Tsvetáieva, já citada, isso só é possível por meio do que batiza de “empréstimo de ferida”. Você fala como e com cada um deles no que neles identifica-se, mas não de modo narcisista, não por pretensão de associar-se a gênios do desencontro com o mundo. O que dói e ressoa em você desses outros é a sua leitura atravessada por esses corpos. Em outras palavras, é o seu próprio corpo que lateja e padece o que respira e infecta, o que come e não digere no cotidiano impossível que é o possível de todo santo/maldito dia.

Sua inquietação é um desejo de cura para o que é incurável em todo poeta, lamento informá-lo. Lamento e não lamento, porque celebro seu dom. Talvez a filosofia apenas agrave o quadro, que tanto te espanta, mas que é de uma beleza, daquelas de tipo impressionista, que é preciso se afastar um tanto para ter dimensão do que revela. Seu ângulo, neste caso, é desprivilegiado.    

Paradoxalmente a esse excesso de corpo e de incorporações que se acumulam nas linhas acima, numa repetição proposital, porque inevitável, Juliano Garcia Pessanha, o que posso testemunhar de tudo o que li e leio no que vive e escreve, pois nada escreve se não vive, é a história de alguém em busca do próprio corpo, de um corpo próprio, de um corpo liberto da dominação de outros corpos, até mesmo os do amor, com suas mãos e dentes, gaiolas com ninho dentro, imagem que só Bispo do Rosário poderia ter materializado como materializou. Por isso sua obsessão com o útero, com o uno mãe-bebê winnicottiano, o encantamento com o menino e a bola de sabão no quadro inglês descrito por Peter Sloterdijk em Esferas I. Fazer nascer o próprio corpo, sem o pai e a mãe que teve, é impossível. E a suspeita de que é tarde demais para nascer que te faz pensar na morte é vã, porque só morre o corpo que viveu.

A desconfiança imensa do incorpóreo de certos versos e certas filosofias, todas pouco errantes e facilmente localizadas em currículos Lattes, erradas para você, dizem dessa sua busca por um corpo próprio. O incorpóreo, que um religioso, que você nunca foi, poderia reverenciar como morada de um espírito etéreo, jamais abarcaria essa ferida que nada mais é do que um rombo na carne. Se há carne há o corpo que você acredita roubado, quando na verdade permanecesse seu e aí dentro. Está no seu estômago a chave engolida. Está no que você respira e no que se alimenta o livro que ainda não está aqui, por enquanto, e que já aguardamos, sedentos de comunhão.



Luciana Araujo Marques
Luciana Araujo Marques é mestre em Teoria Literária (USP) e doutoranda em Teoria e História Literária (Unicamp). É jornalista e atua no mercado editorial. Está entre os autores selecionados pelo programa Rumos Literatura, do Itaú Cultural, que teve como objetivo apresentar novos nomes da produção crítica brasileira com foco na produção literária contemporânea do Brasil, tendo como resultado a publicação do livro de ensaios "Protocolos Críticos" (2009).



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