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Malandragem e modernismo brasileiro: leitura em construção



2016-09-13

A pergunta “quem te influencia?” tantas vezes feita a escritores incomoda. Como se importasse a resposta que não seja encontrada no próprio texto, a pergunta é lançada (para encontrar uma trilha asfaltada na selva?). Nenhuma devasta e aplaina o território de uma grande obra (aliás, como medir esse tamanho? Aliás, algumas são oceanos inteiros e abissais) e dentro dela estamos sempre nascendo no fundo do mato-virgem. Feitas essas considerações, gostaria de pedir licença e compartilhar justamente, e mais uma vez, a pergunta irritante, só que invertendo um pouco o alvo. Em vez de perguntar ao escritor (a seus textos) quem o influencia, pergunto ao crítico (no caso, aos textos dele), tomando um caminho bastante pisado e nem por isso menos pedregoso, como se verá. A influência em questão, decisiva quando o assunto é a canonização do modernismo na história da literatura brasileira, é a de Mário de Andrade sobre Antonio Candido e como ela está presente na concepção dos “momentos decisivos” da formação da literatura brasileira.


Para além das questões do gosto, nas quais tudo vale e aqui não vêm ao caso, me parece importante para qualquer leitor não estar distraído diante de tudo o que é construção para que nada na cultura seja tomado como dado, naturalizado, de modo especial quando lidamos com o chamado cânone. E por isso pensei em Candido ao inverter a pergunta e direciona-la a um crítico, porque como crítico de peso na canonização da literatura nacional, ele próprio também é canônico e incontornável (não contém ironia nessa afirmação, mas reconheço a importância de questioná-la também). De quebra, pensei em Mário de Andrade e reconheci com a mediação de muitos especialistas – o que não sou – o impacto de sua ensaística sobre o modelo teórico empregado por Antonio Candido em sua Formação da literatura brasileira: momentos decisivos (1959) que, é bom sublinhar, não abarca o modernismo como conteúdo explícito.


Mesmo diante de tantas provocações, nunca tive dúvida da importância de Mário e de sua obra, mas essas releituras (“contrainterpretações”) me fizeram me perguntar pela primeira vez como o nome de Mário e a Semana de 22 foram parar ali absolutos na origem do modernismo brasileiro, quase como a gema no ovo. E o que segue são apenas alguns recortes, marcados pelo coloquialismo de uma crônica – ainda que de um percurso acadêmico –, meras inquietações abertas, exercícios na beirinha d’àgua, apesar de já consagradas em certos meios, quitadas em outros.


Ao folhear a pequena Iniciação à literatura brasileira, também de Candido, escrita originalmente em 1987 como um resumo histórico de nossas letras, vemos que ela traz um sumário que foge da separação tradicional por escolas ou períodos literários e propõe como divisão: “I Manifestações literárias”; “II A configuração do sistema literário”; “III O sistema literário consolidado”. No entanto, caso um leitor preguiçoso, que tivesse decorado sem grandes questionamentos os manuais escolares, e agora interessado especificamente no modernismo quisesse ir direto ao ponto, não seria difícil para ele consultar o índice onomástico e buscar o sobrenome-rótulo-modernista Andrade – de Mário e de Oswald – para localizar as referências.


Nessa pesquisa, digamos, quantitativa na Iniciação, Mário é localizado sete vezes, batendo José de Alencar e Machado de Assis, ambos com seis menções, perdendo apenas para Anchieta, com dez. Mário aparece pela primeira vez como o autor de Pauliceia desvairada (1922), nada mais nada menos que o “livro inicial do movimento [modernista]”, nas palavras do crítico, que mais adiante afirma: “A figura central do modernismo foi Mário de Andrade (1893-1945), poeta, narrador, ensaísta, musicólogo, folclorista e líder cultural”. Confirma-se que Mário produziu em amplas frentes e ao mesmo tempo e que “sua erudição e cultura lhe permitiram [também] ser o principal teórico do modernismo”.


Em Formação, Antonio Candido destaca a apresentação que Mário de Andrade escreveu para a edição de 1941 de Memórias de um sargento de milícias (1852-53), localizando “agudamente os elementos responsáveis pela eficácia do livro”, mas será no ensaio “Dialética da malandragem” (1971) que desdobrará a reavaliação do folhetim de Manuel Antonio de Almeida (1831-1861) iniciada pelo autor de Macunaíma (1928), do qual as Memórias anteciparia a estrutura; ambos organizados entre o mito e a história, sendo Leonardo, de Manuel Antonio, o primeiro malandro a antecipar o outro herói, sem nenhum caráter.


Nessa “Introdução”, Mário escreve: “Tudo isso é tão de hoje que lembra a imagem de um Brasil eterno”. “Muito do que se encontra em Memórias de um sargento de milícias pode ser verificado em Macunaíma: combinação dos planos arquetípico e histórico, mistura, degeneração, semelhança de motivações dos heróis. Os mesmos temas seriam encenados de maneira análoga”, escreve o crítico, professor e escritor José Luiz Passos em seu Ruínas de linhas puras (1998). Segue: “O autor de Macunaíma parece estar falando de si mesmo quando propôs explicar a razão de uma obra como o de Manuel Antonio de Almeida”. Fala de si mesmo e do que propunha como atitude modernista, a propósito.


Na leitura da “Introdução”, chama atenção também os interesses típicos de Mário, como o destaque que ele dá para as referências sobre música e dança, entre outros costumes do Rio de Janeiro das vésperas da Independência, “colheita farta de brasileirismo”, registradas muitas pela primeira vez e “com a nitidez de um verdadeiro folclorista de hoje”, afinal, “Manuel Antonio de Almeida tinha em grau elevadíssimo a bossa de folclorista”. Não surpreende que uma das atividades principais de Mário tenha sido justamente a de folclorista.


Mário nota, nessa toada, que num livro rico em documentação de costumes nacionais, como Memórias de um sargento de milícias, quase não apareça a contribuição dos negros, concluindo que essa ignorância dos ritos africanos fosse uma prova de que com eles coexistiam “talvez mais nacionalmente importantes então, princípios urbanizados de religiosidade supersticiosa, de base ameríndia. A futura fusão destes costumes com os ritos africanos é que terá dado nos ‘candomblés de caboclo’”.


Em “Dialética da malandragem”, Candido ressalta o papel de Mário de Andrade na reorientação crítica a respeito do livro de Manuel Antônio de Almeida ao escrever aquela “Introdução”, como já adiantado acima. Reorientação que, em consonância com os lemas modernistas voltados ao projeto de nação, influenciaram os critérios de relevância usados pelo crítico ao compor a tal formação da literatura nacional, mesmo ao ler obras publicadas muito antes do decênio de 1920. Essa visada que tem como lente um certo presente modernista eternizado faz com que Memórias de um sargento de milícias, para ficar nesse caso, seja sobretudo o precursor de Macunaíma, numa linha do tempo bastante marcada. Assim, o romance de Manuel Antonio seria “antes um continuador atrasado”. Continuador atrasado que teve influência salutar numa obra toda vista como ruptura, caso da de Mário. 


Ao elencar tudo aquilo que não faz de Leonardo um pícaro saído da tradição espanhola, mas o torna “o primeiro grande malandro que entra na novelística brasileira”, de modo que traria traços fundamentais do estereótipo do brasileiro, Candido não deixa de lembrar que esse malandro por excelência foi “elevado à categoria de símbolo por Mário de Andrade em Macunaíma”. Na nota 4 do ensaio, é bom lembrar, Candido remete ao de Walnice Nogueira Galvão “No tempo do rei”, publicado em 1962 e reunido em Saco de gatos em 1976, em que ela já saudava em Leonardo o ancestral de Macunaíma: “Manuel Antonio de Almeida é o primeiro a fixar em literatura o caráter nacional brasileiro”.


O laço com modelos populares, o folclore e as manifestações arquetípicas universalistas (tudo muito modernista), junto de uma intuição da dinâmica social da primeira metade do século xix, identificados por Candido nas Memórias, levam o crítico mais uma vez a Mário, para quem no livro de Manuel Antônio de Almeida “não há realismo em sentido moderno; o que se acha nelas é algo mais vasto e intemporal, próprio da comicidade popularesca”.


A observação de Mário de que os negros (justamente numa sociedade que tinha como base de tudo a escravidão) não figuravam no romance de Manuel Antonio também é central na “Dialética” e como ela eleva as Memórias ao posto de representante do nacional em detrimento dessa omissão (dos negros) e também da elite, de modo que o folhetim seria o único em seu tempo a não expressar uma visão da classe dominante ao focar o setor dos homens livres.


A ordem (aqueles que vivem segundo as normas, o lícito, moral) comunicando-se de modo permissivo com a desordem (os que driblam toda regra, o ilícito, o imoral), nesse mundo solto, mundo sem culpas, hipótese central de Candido a respeito de um modo de ser popular estendido para um modo de ser brasileiro, tem a vida de Leonardo como exemplo dessa oscilação entre tais hemisférios, “pares antitéticos”, diante da qual, nós leitores não nos vemos aptos a tecer julgamentos, tamanho o empenho de relativização.


Todos os gestos são ao mesmo tempo reprováveis e admiráveis nas Memórias: “Os extremos se anulam e a moral dos fatos é tão equilibrada quanto as relações dos homens”, contrastando com o esforço, quer na lei quer na literatura, presente no contexto imediato de Manuel Antonio de Almeida, de disciplinar a irregularidade, repressão que mutilaria a personalidade. Nessa dissolução de extremos, Candido vê um ganho em flexibilidade. Para Roberto Schwarz em “Pressupostos, salvo engano, da ‘Dialética da malandragem’” (1987) (resposta a Candido ainda que amenizada por elogios, entre eles o do reconhecimento de ser o primeiro estudo literário dialético no Brasil), uma “disposição acomodatícia [que] pode parecer uma inferioridade mas facilitará a nossa inserção num mundo mais aberto”. E nesse ponto o esquema sociológico de Candido (impregnado dos ideais modernistas a la 22) tem nas Memórias a sua confirmação.


É preciso ainda reconhecer que esse entusiasmo modernista não tomou conta de Mário o tempo todo, tendo a própria virada melancólica no final de Macunaíma como um indício de autocrítica e que de alguma forma pode ser contrastada com a visão mais otimista de Candido sobre o tal ganho em flexibilidade brasileiro. A melancolia também está presente no desfecho das Memórias, é verdade. Ambos, como projetos de consolidação de identidade nacional têm vitórias e “conclusões felizes” mas necessariamente implicadas com a morte. Se as Memórias acabam “quando a inútil da felicidade principia”, Macunaíma, o salvador de nossa cultura, morre e vai descansar ao lado de Ci “vivendo do brilho inútil das estrelas”, chama a atenção José Luiz Passos.


Ao final de “Pressupostos, salvo engano”, Roberto Schwarz reforça a hipótese aqui apontada, que vê em Candido um continuador dos ideais modernistas, os de Mário, os da Semana de 22, nesse sentido mais para eterna do que para moderna.


Já a representação da malandragem projetou uma série de significados no contexto cultural em que foi produzida e para além dela. Conforme a análise de Roberto Goto em Malandragem revisitada (1988), um dado pensamento social motivado por seu momento histórico “recompôs para o andamento da mesma História, em tons que variaram da esperança à melancolia, os motivos do malandro e do caráter nacional brasileiros”. “Pensamento como imagem significativa de um passado recente”.


Francisco Foot Hardman mostra em “Algumas fantasias de Brasil: o modernismo paulista e a nova naturalidade da nação” (2000) que os tentáculos temporais dessas predisposições estético-culturais modernistas da geração de 22 sintetizadas na figura do malandro e refundadora de um mito comunitarista nacional nos atingem ainda mais contemporaneamente em um populismo de feições autoritárias e em “um neonaturalismo de tonalidades tropicalistas, cujos principais herdeiros ainda predominam no mercado da indústria cultural brasileira”.


Por fim, fim necessariamente escancarado e na voz de outro, tendo em vista um caminho longo ainda a ser percorrido, volto mais uma vez ao texto de Schwarz, não menos canonizado, eu sei, no qual ele atenta para o que se processou durante o próprio período da escrita da “Dialética da malandragem”, entre o Golpe de 1964 e o AI-5 (nosso passado recente a que Goto se refere, mas talvez mais recente ainda e para se pensar o futuro diante do que parece eterno por estas bandas chamada Brasil):


“A reivindicação da dialética da malandragem contra o espírito do capitalismo talvez seja uma resposta à brutal modernização que estava em curso. Entretanto, a repressão desencadeada a partir de 69 – com seus interesses clandestinos em faixa própria, sem definição de responsabilidades e sempre a bem daquela mesma modernização – não participava ela também da dialética da ordem e da desordem? É talvez um argumento indicando que só no plano dos traços culturais malandragem e capitalismo se opõem...”



Luciana Araujo Marques
Luciana Araujo Marques é mestre em Teoria Literária (USP) e doutoranda em Teoria e História Literária (Unicamp). É jornalista e atua no mercado editorial. Está entre os autores selecionados pelo programa Rumos Literatura, do Itaú Cultural, que teve como objetivo apresentar novos nomes da produção crítica brasileira com foco na produção literária contemporânea do Brasil, tendo como resultado a publicação do livro de ensaios "Protocolos Críticos" (2009).



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