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Vê-se gente na ponte (meios de atravessar o Rio)



2016-10-04

Assim, eu estive no Rio, mas também em Paris. Saí do Brasil em direção à Síria, à Alemanha, ao Japão. Retornei, em obras e estrangeira, expatriada, convocada a me aproximar desse canteiro

Estive no Rio (de Janeiro). Esqueça o cartão-postal (mais destinatária que remetente de lugar visitado enquanto paisagem, escrevo, ou melhor, tento atravessar o que sobrou daqueles dias). Imagina uma ponte. Dela, não se avista o oceano (Atlântico), nem a baía (de Guanabara), nem a lagoa (Rodrigo de Freitas). Só o Rio. Desculpe, não fiz fotos. Imagina. O “XV encontro ABRALIC: experiências literárias, textualidades contemporâneas”, realizado na UERJ, me levou dia a dia para os lados do Maracanã. Arrasto o indicador sobre o mapa. O traço imaginário em forma de arco cruza zonas da cidade, aquela onde estive de fato, outras, por afeto. O dedo que toca a superfície da carta geográfica deixa uma impressão única. Sou a principal suspeita à procura de digitais em notas tomadas para uma investigação futura: sobre pontes.

Estive uns dias no Rio. Sobre pontes, escrevo, porque é difícil escrever sobre poesia; “e por que é assim tão difícil falar/ de poesia?”. Quem interroga é a poeta Marília Garcia (1979), ao citar a também poeta Wislawa Szymborska (1923-2012). A polonesa, nas palavras da carioca, em seu Um teste de resistores (“Blind light”, 2), “começa um discurso sobre poesia/ dizendo que o mais difícil de um discurso/ é a primeira frase/ mas que mesmo depois de ter começado/ continuar o discurso será tão difícil quanto começar/ pois ela vai falar de poesia”.

Marília Garcia diz que “queria começar” sua fala na ABRALIC, na mesa “Poesia e os meios”, ao lado de Carlito Azevedo e Nathalie Quintane, contando do dia em que recebeu o convite de João Cezar (de Castro Rocha) para participar do encontro. A poeta estudou na UERJ, que atravessa uma grave crise: “tudo o que eu queria era poder estar neste lugar neste momento”. O lugar e o momento compartilhados se estendem no espaço e no tempo (do) público. Nenhuma dessas referências é protocolar. Ali sentados nas cadeiras do Teatro Odylo Costa Filho, adentramos o poema, ainda inédito, que a partir do presente cava algo antigo via imagens recortadas pela voz e pelo olhar de Marília. Atravessamos com ela a passarela que liga a Chácara do Céu (museu em Santa Teresa, no alto do morro) ao Parque das Ruínas, à procura de um café pós visita à exposição de Debret. O pretérito imperfeito (“queria começar”) se dá. Começa... como no início de “Blind light” em Um teste de resistores, onde “poderia começar de muitas formas”. Eu nunca tinha estado em Santa Teresa.

Já em casa, busco as imagens do Brasil por Debret. Esboço num papel e com o auxílio de uma régua formas de “passar do céu para as ruínas e depois voltar ao céu”, como formula Marília. Jean-Baptiste Debret (1768-1848) esteve muitos dias no Rio. Eu de lá ainda não voltei.

A poesia se dá a partir de muitas formas e materiais na obra de Marília. O “diário sentimental da pont marie” (a poeta opta pelo uso de minúsculas), aberto na ABRALIC, no qual durante sete meses, todos os dias, no mesmo horário, ela fotografou o mesmo lugar, do mesmo ângulo, em Paris, durante uma residência artística em 2015, inventaria reflexões a partir de questões em torno do ver/olhar o lugar. “Ter lugar”, uma recorrência.

Os Diários de David Perlov são referência cinematográfica decisiva para o fazer ver operado neste diário da pont sobre mim, sempre sensível às pontes entre diferentes temporalidades e o que às ergue. Quando veio ao Brasil no final da década de 1970, época do nascimento de Marília, Perlov (1930-2003) filmou o Rio. Na única cena em Santa Teresa, Marília reconhece a casa de sua infância, “de algum modo o meu extraordinário”. Anotei com letra apressada este “extraordinário”, seguido de um traço até “infância”. Passado a limpo, o dispus ao lado de apontamento de A dor. Logo no início desse seu diário, Marguerite Duras alerta: “O extraordinário é imprevisível”; “de algum modo o meu extraordinário”.

É certo que o que tive a oportunidade de experimentar na ABRALIC é um texto em processo de Marília Garcia, que ainda teremos a oportunidade de confrontar “acabado” nas páginas de um livro, ou em outras apresentações. Entretanto, me parece certo que nenhum acabamento arrancará dele as ruínas que o alicerçam, nem seu foco nos meios de observação e do fazer poesia hoje (e seus meios). Enquanto lê, Marília projeta a série de imagens que ela própria produziu e imagens colecionadas do tanto que viu. Imagens que se reproduzem e reconhecemos como nossas memórias de cinéfilos, de fotógrafos (todos nós que temos um celular), de internautas, de gente que atravessa pontes em diferentes lugares do mundo.

Os filmes Cortina de fumaça, de Paul Auster, Blow up, de Antonioni e o documentário Imagens do mundo e inscrições da guerra, de Harun Farocki, nesse sentido, são parte fundamental de um arquivo de apreensão da imagem fotográfica que vem à tona nessas memórias pessoais de Marília e de todos nós que com ela compartilhamos uma época e suas formas de ver e dar-se a ver diante do invisível, do que não apreendemos com lentes de vidro. A aparição e o que desaparece enquanto estamos de olhos bem abertos dizem destas notas sobre “diário sentimental da pont marie”. E paro por aqui a fim de não ser acusada de spoiler, numa tentativa de reservar para os futuros leitores/expectadores algum final (sem deixar de tomar o cuidado de alertar de que se trata de aparente final, aparente prazer por um fim o que soa acabar, abacado, como ficará mais claro adiante).

Um eu aparentemente diluído em conexões diversas, encontros, leituras, passagens por aeroportos de cidades distantes entre si se reúnem em um caderno que tomo emprestado em Um teste de resistores e logo adentro noutro livro de Marília, um que ainda não li: “ao escrever o engano geográfico/ tomo o poema de emmanuel hocquard/ uma narrativa de viagem/ como modelo para narrar a viagem que fiz até ele/ faço minha viagem com um caderno/pensando no poema dele/ escrevo a viagem/ e ela acontece/ a viagem de emmanuel hocquard/ é uma viagem na direção do passado/ já que ele se desloca em busca da memória”.

Na noite anterior à apresentação de Marília Garcia na ABRALIC, assisti no Centro Cultural Midrash (Leblon) à parte do ciclo “Em obras”, com concepção e curadoria da escritora Paloma Vidal, do qual Marília também havia participado com a apresentação de “A hélice” na semana anterior, quando também se apresentou a crítica de cinema Ilana Feldman. Na noite em que ali estive, apresentaram-se a própria Paloma (“Não escrever”), Cynthia Edul (“Expatriada”) e Diana Klinger (“A caixa preta”). Elisa Pessoa e Verônica Stigger seriam as próximas. Cada uma delas foi convidada a performar o gênero palestra ao expor pesquisas pessoais em andamento.

Entre os materiais utilizados nas apresentações de “Em obras”, mapas, imagens de televisão, fotografias, documentos, postais, trechos de filme. Obras marcadas pelos deslocamentos das próprias autoras citadas pelo mundo (ao exterior, por vezes; ao território interior, sempre) e daqueles que atravessaram suas biografias (sempre aos pedaços), histórias de amor e de guerra, por vezes da guerra que só comporta o amor, até mesmo antes do nascimento de cada uma delas, autoras, e de nascer na gente (expectadores, leitores) questões que também são nossas. Assim, eu estive no Rio, mas também em Paris. Saí do Brasil em direção à Síria, à Alemanha, ao Japão. Retornei, em obras e estrangeira, expatriada, convocada a me aproximar desse canteiro.

Talvez esse seja um efeito desse formato experimentado: a sensação de proximidade com algo que nos diz respeito, que podemos acessar com um clique, mas a partir de pontos diferentes para se dar esse contato que é pura alteridade. Efeito, que fique claro, visto que cada obra em construção demanda materiais e formas muito singulares, muito mais da ordem do digital que está na ponta dos dedos e é inconfundível traçado na carne, do que da marca de uma geração que lida sem preconceitos com a diversidade de suportes e com todo meio possível para expressão do gesto poético. Apesar de uma certa supremacia da visão, todos os sentidos comparecem e, sobretudo, a falta de sentido em chave de abertura fundamental para o que não pode ser contido em explicação fácil.

Quando fui à PUC-Rio (Gávea), em busca de uma dissertação dos finais da década de 1970, sobre Infância, de Graciliano Ramos, para minha pesquisa em andamento, não consegui chegar a tempo na UERJ para assistir à comunicação de Elizabeth Santos Ramos, neta do escritor, sobre a presença feminina em Memórias do cárcere. Ficou daquele dia esta ausência e uma pergunta sobre a falta: como dizer o lugar onde não estive e me habita? Está muito em voga dizer do “lugar de fala”. Silencio. Penso naquela gravura de Hiroshige Utagawa no poema “Gente na ponte”, de Wislawa, onde “o tempo foi suspenso”, “tropeçou e caiu” e logo estou de volta ao quarto adolescente, onde atrás da porta ainda pende um calendário com pinturas de Van Gogh. Datas circuladas sob a ponte Langlois, em Arles. Ressurge o fantasma da pont marie, de Marília, e tudo aquilo que não conseguimos ver quando estático: como imobilizar em imagem o Rio que corre? Lugar-comum, eu sei, porque lugar comum o tempo que escapa. Aporias dos meus dias no Rio.

Em Botafogo, assisto ao filme Aquarius, de Kleber Mendonça Filho. Em Recife só estive no aeroporto. Reconheço nas imagens antigas localidades de uma cidade nunca visitada. Recife tem 58 pontes, entre elas a Maurício de Nassau, a primeira ponte do Brasil. Recife tem o Ocupe Estelita. No breve percurso entre o cinema e o apartamento onde estou hospedada no Flamengo, o taxista erra a rua, esbraveja que nada sei sobre o endereço onde estou. Bate no peito seus sessenta anos rodando pelas ruas cariocas. Rua e número constam em todas as correspondências que chegam àquele prédio, como o porteiro assegura. Guardo um certo orgulho de poder errar, andar sem rumo.  

De volta às rampas da UERJ, no último dia da ABRALIC, na mesa “Literatura e linguagens de resistência”, o professor da Università degli Studi Roma Tre Giorgio de Marchis chamou a atenção para formas de resistir frente à necessidade humana de ficções (não apenas presente em obras ficcionais, que fique claro)  que buscam delimitar, via forma e sintaxe autoritária, o que não tem limites, com seu “imprescindível fim”, com sua “conclusão esclarecedora”.

Contra tais “mapas narrativos para um mundo indecifrável”, o investigador italiano lembrou a resistência contras forças ordenadoras surgidas já no próprio século XIX, justamente quando um certo tipo de romance tinha se prestado ao papel de decifrador do vazio. É o caso de A educação sentimental, de Flaubert, romance que, sem progressão, rejeita a lógica limitante do enredo. “Começa basicamente aqui, com Flaubert, a ideia de romance como anti-romance, como resistência, como recusa a satisfazer a construção de um plot”.  

Com a supremacia das imagens, que impuseram, nos termos de Marc Augé citados por de Marchis, a “ditadura do eterno presente”, “qualquer escrita que ecoe as imagens se reduz a uma escrita-plágio, uma escrita-legenda, uma escrita-pleonasmo”. E nesse ponto da fala do professor, reforço mais uma vez às apreensões das imagens e das cidades nas palestras performáticas de Marília, de Paloma... na ABRALIC, no “Em obras” e sobre seu caráter inacabado, que, ao trabalhar com imagens, a elas não se submetem, mas a problematizam.   

Para Giorgio de Marchis, que dialoga com outros estudiosos (não vou citá-los todos aqui) para construir seu pensamento, “narrar a cidade, olhando para a borda extrema do visível, significa encarar o literário (e talvez admitir o esgotamento da literatura no seu sentido mais tradicional), encarar o literário não através da descrição daquilo que é extremamente visível (e já visto), mas incorporando na própria escrita o desafio da sua ilegibilidade, a impossibilidade de ler na sua totalidade um ato de escrita ilegível”.

Como exemplos dessa impossibilidade de se compor uma paisagem totalizante arquitetada em uma narrativa tradicional, o italiano toma os casos das cidades de São Paulo (megalópole com seus 17 milhões de habitantes) e Roma (com seus 2769 anos de história) e duas de suas representações contemporâneas na literatura e nas artes: Eles eram muitos cavalos, “uma instalação literária”, segundo seu próprio autor, o mineiro Luiz Ruffato, 69 narrativas, compostas de materiais e fontes diversas, independentes entre si, que se dão no mesmo lugar, no mesmo dia (9 de maio de 2000); e os 54 frisos do artista sul-africano William Kentridge, realizados com a técnica stencil ao longo de 550 metros nas muralhas de 12 metros que delimitam o rio Tiber, inaugurados no dia 26 de abril de 2016 (aniversário da cidade), que, como num terreno arqueológico que aproxima resquícios de tempos diversos em suas camadas, faz uso de imagens consagradas da história de Roma, da arte, do jornalismo, do cinema, criando “uma historiografia estratificada que estabelece pontes excêntricas e inesperadas entre as imagens”. Destaco mais uma vez as palavras eleitas por Giorgio de Marchis: “pontes excêntricas e inesperadas”, que se recusam ao cronológico, ao ordenado, obrigando-nos a uma outra experiência do tempo e do espaço. Exemplo: o artista funde no mesmo friso a morte de Aldo Moro, a violência imperial da Roma Antiga e o êxtase de Santa Teresa.

Gostaria de encerrar esta crônica de meus dias no Rio com a imagem da página preta projetada por de Marchis no telão do auditória da UERJ (causando estranhamento na plateia, risos), a página preta que fecha sem encerrar Eles eram muitos cavalos, de Ruffato. Ou ainda com o friso número 37, desta série de Kentridge, todo preto, com o seguinte escrito no canto inferior direito, entre parêntesis: (Quello che non ricordo) [Aquilo de que não me lembro].

Imagens seguidas da seguinte reflexão tecida pelo italiano, que nos disse ali em português claro, nessa outra ponte que é a tradução: “se a literatura hoje poderá ter alguma possibilidade de resistir, essa resistência se realizará heroicamente numa afasia que não deixa de ser um silêncio que fala. Dito com outras palavras, a linguagem da resistência se poderá realizar através do indizível preto de tudo o que eu não me lembro”.

Mas eis que... no retorno via ponte aérea Rio-São Paulo, aguardando a autorização para pouso, o avião em que sou passageira ultrapassa a rota rumo ao Congonhas e sobrevoa justamente o bairro de minha infância. Imagem do alto de um onde sempre me senti pequena, lugar que me deu a perspectiva do chão. “O extraodinário é imprevisível” como o Rio.



Luciana Araujo Marques
Luciana Araujo Marques é mestre em Teoria Literária (USP) e doutoranda em Teoria e História Literária (Unicamp). É jornalista e atua no mercado editorial. Está entre os autores selecionados pelo programa Rumos Literatura, do Itaú Cultural, que teve como objetivo apresentar novos nomes da produção crítica brasileira com foco na produção literária contemporânea do Brasil, tendo como resultado a publicação do livro de ensaios "Protocolos Críticos" (2009).



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