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Tenho apenas duas mãos, e agora?



2016-10-20

Primeira leitura da série sobre Drummond, no mês de aniversário do poeta

A demolição do que empareda um horizonte pode começar na descoberta de que até o prego que sustenta o tal quadro enferrujou enquanto se contemplava o que parecia preso ao imóvel. O reboco esfarelado na troca por uma nova peça, para sustentar a moldura, anuncia em rombo progressivo outro lado através do concreto. Escrevi isso e primeiro me ocorreu que há nessa abertura um acúmulo de imagens fixadas, quando delas talvez fosse preciso se libertar para pensar o movimento incessante da leitura, contrário à oxidação, mesmo quando se trata de autores canonizados. Em seguida, me dei conta de que, se ler convoca tantas vezes ao deixar ruir, talvez esteja aí, paradoxalmente, o arrimo de uma construção possível e a necessidade da releitura, isto é, do que não se dá em terreno baldio. Insisti em manter a parede, ainda que no lugar do estático se abra uma janela, para reconhecer que lemos, muitas vezes, a partir de edifícios inteiros ou mesmo sob um teto qualquer, mesmo que ameace cair. Por vezes, essa operação de desedificação é convocada pela própria forma de um texto, noutras, ao longo de toda uma obra e seus intérpretes. Essa possibilidade existe mesmo em trabalhos tidos como homogêneos. Que dizer, então, dos heterogêneos por essência? Se os heterônomos de Pessoa, por exemplo, organizam até certo ponto diferenças, como lidar com a descontinuidade e a dimensão entrecortada assinada por um único Drummond (único?)? As interrogações se acumulam.

Volto sempre a Carlos Drummond de Andrade e a ele retornarei em outros textos de leituras sobre o poeta mineiro, iniciando aqui esta série de recortes e fichamentos que não podem perder de vista um contexto que ainda nos diz respeito, de transformação da paisagem urbana, ascensão do fascismo (incluindo o tupiniquim), acirramento entre capitalismo e socialismo e a guerra. Tempo de captação extrema dos problemas históricos e da consciência do papel da poesia como instrumento de intervenção (mas também, nesse sentido, de seus limites).

Neste hoje, que nos compele a agir, a tomar alguma providência, este hoje sob o imperativo da tomada de posições urgentes e que não titubeiem e não traiam lugares de fala, volto a Drummond à luz de um questionamento suscitado durante uma aula em que eu cumpria um estágio docente (mais aluna do que nunca): afinal, herdeiro de latifúndio oligárquico que se desloca da província para o centro urbano e industrializado e integrante do governo do Estado varguista, onde localizar sua voz entre o político, o poder e os privilégios de sua classe? No meio do caminho? Seria possível localizar de que lado está quem logo ao nascer atende ao chamado de um anjo torto, a ambiguidade irônica, o gesto crítico e ácido a partir do gabinete de um funcionário exemplar, perspectiva do observador no escritório que é cortejado pelo Partido Comunista? Não é simples e qualquer identificação com esta ou aquela polaridade soa simplificadora diante de sua obra. Uma possível resposta: sete faces são poucas para dar conta da complexidade que envolve as tensões entre o social e o literário, entre o sujeito histórico e o sujeito lírico. Resposta que só intensifica perguntas.

Inicio neste mês do nascimento de Drummond, ele é de 31 de outubro, esta série sobre diferentes e divergentes leituras da obra do poeta de Itabira (e do mundo) com o último trabalho lido por mim sobre ele e que aqui compartilho: o cotejo entre política e escrita que Roberto Said, professor de Teoria da Literatura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), faz em Angústia da ação (UFMG, 2005), privilegiando o período entre o Golpe de 30 e o fim do Estado Novo, e seu projeto moderno de identidade nacional, que coincide com a atmosfera ideológica da Segunda Guerra Mundial e com o intervalo de publicação entre Alguma poesia (1930) e A rosa do povo (1945). Período que, como afirmou Mário Faustino em texto publicado no Jornal do Brasil, em abril de 1957, aquele que quiser sobre ele conhecer terá que “recorrer muito mais a Drummond que a certos historiadores, sociólogos, antropólogos, ‘filósofos’”. No livro, o autor procura diluir as fronteiras entre fatos, teoria e ficção, a partir de materiais, muitos deles inéditos, do acervo pessoal de Drummond na Fundação Casa de Rui Barbosa: bilhetes, recortes de jornais, manuscritos, cartas, anotações, ensaios, crônicas e entrevistas.

Haveria uma estratégia discursiva que poderia ser fruto do desejo do escritor por uma representação no plano da arte sem implicações políticas? Said identifica na obra desvios próprios dos “constrangedores lugares da ação”, expressão de Jacques Rancière em Políticas da escrita, e que inspira o título Angústia da ação, mais que título, trata-se da formulação por Said engendrada para nomear uma condição de escrita que se realiza entre o “desejo de mudança” e o “recolhimento constrangido”, uma espécie de inibição trágica, disposição típica da melancolia, na qual algo foi perdido, mas permanece investido. “Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?”, com este verso Drummond encerra “Explicação”, de Alguma poesia. Encerra?

Sem qualquer identificação com causas bélicas, Drummond integrou o Estado-Maior das Forças Armadas Revolucionárias Mineiras em Barbacena, onde era o responsável pelos telegramas, experiência que formalizou em “Outubro 1930”. “Oscilando entre o ‘eu’, o ‘nós’ e o ‘ele’, o poeta abstém-se de maiores adesões, colocando-se ao mesmo tempo dentro e fora do poema, dentro e fora do embate político, mostrando-se, enfim, tão indeciso quanto o próprio país”, nas palavras do crítico, que remetem aos versos do poeta: “Um novo, claro Brasil/ Surge, indeciso, da pólvora./ Meu Deus, tomai conta de nós”.

No Governo Vargas, Drummond foi homem de confiança de Gustavo Capanema no então Ministério da Educação e Saúde entre 1934 e 1945. Demitiu-se do cargo ao final da Segunda Guerra, mas sem romper com o amigo, de quem, anteriormente, também tinha sido oficial de gabinete na Secretaria do Interior de Minas Gerais, entre 1930 e 1933. Depois daquele pedido de demissão, teve breve passagem pelo jornal comunista A Tribuna, e logo assumiu a diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, onde se aposentou no início da década de 1960. Ao todo, foram mais de trinta anos de trabalho no funcionalismo público, atividades exercidas concomitantemente com suas práticas literárias e jornalísticas.  

Em carta datada de outubro de 1930, citada por Said em seu livro, Capanema escreve ao amigo: “Mando-te o meu mais afetuoso abraço, não só pelo seu aniversário, mas  sobretudo pela vitória da nossa revolução, que tem em você um soldado intrépido e iluminado”. Drummond, por sua vez, recusava-se a se identificar como este “soldado”: “tive ouro, tive gado, tive fazendas/ Hoje sou funcionário público”. Confidencia nesses versos mais que um percurso na direção do poder, um declínio que soa lamentar e parece atribuir ao aspecto político inerente ao cargo mera contingência social.

Aliás, é bom lembrar que entre os escritores modernistas, contemporâneos do momento histórico em questão, estão vários que também ocuparam cargos públicos importantes, como Mário de Andrade, Cyro dos Anjos, Cornélio Pena, José Lins do Rego, João Cabral, Vinícius, Graciliano Ramos etc. Essa proximidade com o Estado é analisada pelo sociólogo Sérgio Miceli em seu hoje já clássico Intelectuais e classe dirigente no Brasil (1920-1945), tese que defendeu no final do decêndio de 1970, que, na visão de Said, rompe com uma certa tradição protecionista – no sentido de que se procurava resguardar um caráter transgressor conferido aos escritores envolvidos – ao demonstrar como o recrutamento intelectual garantia uma certa continuidade no poder de atuação e decisão política da classe dirigente, arregimentando os filhos das famílias aristocráticas em declínio para cumprir no governo o trabalho simbólico (conjugação de decadência econômica e dependência patrimonialista). Quem estava à margem, seguiria à margem...

Quando publicada em livro, essa tese de Miceli (que também pode ser encontrada como parte do livro Intelectuais à brasileira, a edição que tenho) foi prefaciada por Antonio Candido, em argumentação bastante contrária ao ali defendido: “estão envolvidos homens, com sua carne e a sua alma, de modo que conviria acentuar que um Carlos Drummond de Andrade ‘serviu’ ao Estado Novo como funcionário que já era antes, mas não alienou por isso a menor parcela de sua dignidade ou autonomia mental, tanto assim que as suas ideias contrárias eram patentes e foi como membro do Gabinete de Capanema que publicou os versos políticos revolucionários de Sentimento do mundo e compôs os de Rosa do povo”.

O próprio Drummond também deu seu parecer em entrevista ao Estado de S.Paulo por ocasião de seus 50 anos, em que repudia qualquer associação à ideia de cooptação. “Saiu um livro lá em São Paulo que contém uma série de inverdades. Acho primário se confundir o fato de ter trabalhado numa ditadura com ter trabalhado a serviço da ditadura. Trabalhar como trabalhei no Ministério da Educação não significa de maneira alguma subordinação ao poder. Conheci Gustavo Capanema em 1916, no colégio. Éramos amigos desde então. E foi o amigo que me chamou para o ministério”.

Roberto Said renuncia a imagens drummondianas amplas e conciliadoras. Avalia que, se com Miceli perde-se de vista o caráter simbólico do ativismo dos escritores modernistas, não se pode concordar que a inserção deles no Estado seja avaliada apenas por critérios ideológicos: “porque mesmo aqueles que construíram uma obra literária progressista, de esquerda (gauche), poderiam participar ativamente da definição política e simbólica do regime varguista [e seus claros anseios de modernização do país]. Também não deve ser tratada somente em termos de cooptação, pois tal conceito, ao lidar apenas com os componentes classistas do processo histórico, reduz todo o movimento a um jogo de interesses”. A propósito, não é difícil para um leitor de Drummond identificar exemplos em que a obra do poeta coloca em xeque pilares desse programa, caso da noção de identidade nacional. “Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?”

Nesse tempo, “tempo partido, tempo de homens partidos”, no qual Drummond representa-se a ele próprio cindido entre o literário e o social, entre o estético e o político, “a experiência do poeta, devido à representatividade de sua obra na cultura brasileira e à sua proximidade com o poder estatal elabora-se como experiência-limite na qual se encerram as contradições existentes entre a enunciação literária e a subjetividade política, isto é, os encontros e desencontros entre as vanguardas artísticas e as ditas vanguardas políticas de 1930”, escreve Said. Para o crítico, foi justamente a partir de tais “fricções” que “a prática poética drummondiana pôde traçar seu caminho desviante, seu percurso gauche”.

Assim, Roberto Said bate de frente com estudos que procuram identificar um princípio articulador que equacione essas contradições e que veem na obra do mineiro um sistema harmônico reduzido a princípios evolutivos e de maturação. Chama atenção para o fato de que na Antologia poética, publicada em 1962, o critério de seleção dos textos do poeta não é cronológico, sugerindo um recorte marcado por uma descontinuidade temporal, mais voltado à espacialidade de lugares trilhados e à sobreposição imagética.

Identificar em Alguma poesia uma mão “suja de muitos anos”, que se deseja cortar, e, em Sentimento do mundo (composto entre 1935 e 1940), a cumplicidade de quem estende esta mesma mão e se volta para o outro e para o presente a convocar “Não nos afastemos muito, vamos todos de mãos dadas” não é suficiente para se traçar uma linha progressiva drumondiana sem impasses e hesitações, nem mesmo no período considerado o mais social da obra. “Seu salto participante é apenas aparente, ou melhor, revestido por uma indisfarçável angústia. Pois à vontade de agir se justapõe uma sensação de impotência, uma certa desilusão”. Não que não se identifique na poesia desse grande mestre o desejo de transformação sociocultural. Acontece que esse desejo confronta-se com uma lucidez cortante de que o caminho prático para essa conquista, naquele horizonte, levava aos “incômodos braços do Estado autoritário – apresentado pelos setores dominantes como o único e legítimo agente transformador”.

Em “A um jovem”, reunido em A bolsa & a vida, livro em “estado de crônica”, publicado no mesmo ano da antologia, em 62, lê-se ao prezado Alipio: “Pouco há a fazer, quando não nascemos para a política nem para o mister guerreiro. Nosso negócio é a contemplação da nuvem”. (O tal “estado de crônica” refere-se à disposição de “não atormentar o leitor – apenas aqui e ali – recordando-lhe a condição humana”.) “Procuras e achados se equilibram e se alternam, no vaivém das crônicas, mas a tudo o poeta prefere o recolhimento”, escreve Marcelo Coelho sobre A bolsa... no posfácio da edição de 2012 publicada pela Companhia das Letras. Está nesse tipo de ambivalência identificada no jovem ou no velho poeta a força motriz de sua escrita, conforme a leitura de Roberto Said.

O capítulo que fecha o livro de Said intitula-se “Posso, sem armas, revoltar-me?”. Ficaria por aqui também, com esta pergunta que tanto tem me perturbado e a amigos meus. Nesse clima interrogativo, passo os olhos na timeline do Facebook e salta uma postagem do professor Alcides Villaça, um dos leitores de Drummond que mais aprecio e que não deixarei de incluir nesta série... A postagem não é sobre o mineiro, mas poderia ser, ou não?

“A revolta dissemina-se, furiosa. Razões não faltam – e algum dia faltaram? Resta compreendê-la. Poetas revoltados da modernidade (não o serão, todos os grandes?) interessaram a Camus, investigador dos motivos existenciais, que os identificou, numa passagem de O homem revoltado, como aqueles que afirmam a ‘desesperada nostalgia de alguma ordem’. Tal percepção ajuda a compreender o fundo humano e altamente afirmativo que se dissimula e parece ausente nos autores mais céticos e mais desistidos. Torcem o nariz para este mundo porque ele desmente seus anseios de idealidade, mais fortes que os dos comuns esperançosos.”

A pensar...



Luciana Araujo Marques
Luciana Araujo Marques é mestre em Teoria Literária (USP) e doutoranda em Teoria e História Literária (Unicamp). É jornalista e atua no mercado editorial. Está entre os autores selecionados pelo programa Rumos Literatura, do Itaú Cultural, que teve como objetivo apresentar novos nomes da produção crítica brasileira com foco na produção literária contemporânea do Brasil, tendo como resultado a publicação do livro de ensaios "Protocolos Críticos" (2009).



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