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Sete faces, um coração?



2016-11-22

1 - O “Poema de sete faces” foi publicado pela primeira vez em 1928, sob o pseudônimo de Carlos Alberto, em 25 de dezembro. O nascimento colocado em versos, entretanto, não era o do Menino Jesus, mas o de um outro, a quem: “um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.” Nesse Natal, a face do Cristo é a do calvário: “Meu Deus, por que me abandonaste/ se sabias que eu não era Deus/ se sabias que eu era fraco.” Por ocasião do lançamento de Alguma poesia, livro que abre com o “Poema de sete faces”, Carlos Drummond de Andrade lembrou em discurso durante em jantar oferecido por amigos aquele anjo “delicadamente torto do lado do coração” (Minas Gerais, 16/17 jun. 1930).


Decorei que o lado direito era aquele da mão com que se escrevia (não é daquele tempo a descoberta dos canhotos). O outro lado, o esquerdo, era aquele onde a gente levava à mão ao peito, para cantar o hino nacional na escola. Num daqueles pós-recreios, ofegante de correrias e mão no peito, senti meus batimentos. Foi uma espécie de agonia saber do que se tratava, parecida com a do medo de altura na roda-gigante, mas eu sabia que ali eu não devia gritar. Eu sabia fingir, no fundo, da fila, que não era nada. Calei o susto e aquela altura dentro de mim. Na sala de aula, desenhei um coração a lápis na carteira, sob o plástico xadrez que protegia o móvel de nossos riscos. Logo apaguei, porque zombou de mim a colega, que dizia que o certo era com uma flecha. De um lado, a lança, do outro, a pena.


2 - John Gledson, em “Poesia e poética de Carlos Drummond de Andrade” (Duas Cidades, 1981), ao tratar de “Poema de sete faces”, fala de uma técnica da perspectiva e de uma fragmentação de todo o Alguma poesia, onde o humano aparece inevitavelmente dividido. Gledson faz uma conta que parece fácil – “a palavra ‘coração’ aparece duas vezes no poema” –, que logo revela uma equação difícil, isto é, uma igualdade que envolve no mínimo uma ou mais variáveis, o contato com o mundo, o mundo que é qualquer outro. “A dificuldade do ‘Poema de sete faces’ tem sua origem no fato de que esse processo é difícil e que, por isso, as tentativas se limitam a explosões definitivas mas necessariamente curtas”, constata o crítico. Curtas, jamais rasas.


Um dia antes disseram: “o seu coração é de atleta”; no dia seguinte, no teste ergométrico, ele foi levado de ambulância às pressas. “Será submetido a um cateterismo de emergência.” “Artéria obstruída.” Na sala de espera, um quadradinho bege e sem janelas, descobri que o corpo é todo o lado esquerdo. Onde quer que exista toque, lá está o que pulsa. Lá dentro, o que se passa? Alguma notícia?


 3 - Drummond nunca mais repetiu a estrutura do “Poema de sete faces”. Outras formas foram dando conta de modo mais organizado para o que permanece como tensão entre polos que não se harmonizam na sexta face, face anterior a cada um de nós, a do “mundo mundo vasto mundo”, para a qual não há solução, rimada ou livre.


Nós morávamos nos fundos da casa dos meus avós paternos. Num domingo de manhã, dia do aniversário de minha mãe, ouvi uns gritos vindos de lá. Quando cheguei no quarto, o coração de meu avô Justino já tinha parado. Ao tocar no peito imóvel e ainda quente, constatei que era a primeira vez que o fazia. Foi a única vez que chorei por ele, justo por ele, que contava sempre a mesma piada suja sobre um vestido roxo, sempre me fazendo rir.


4 - As dificuldades e contradições encontradas por Drummond para dar forma ao seu lirismo meditativo (mescla de drama e pensamento) são percorridas por Davi Arrigucci Jr. em Coração partido (Cosac Naify, 2002) em análises imanentes dos poemas “Sentimental”, “No meio do caminho”, “Áporo”, “Mineração do outro”, mas não antes da do “Poema de sete faces”. Davi busca (e mostra os caminhos de sua busca) uma unidade no caminho difícil e tortuoso de Drummond, que pode ser sintetizada nesse intertítulo de seu ensaio: “Sete faces e um coração”. Para o crítico, é uma invenção da crítica se considerar uma oposição entre um “pretenso formalismo e a participação social” do mineiro, por exemplo, sob o contexto ideológico da ditadura Vargas e a atmosfera da Segunda Guerra Mundial. A complexidade da obra de Drummond estaria na articulação, desde o início, de “contradições que não se resolvem num falso contraste”.


Senti o exato momento que o coração de minha cachorra parou. Antes, seu pescoço tombou torto. Senti o exato momento que o coração do pássaro caído na calçada parou. Antes, ele gritou. Eu achava aquela cachorra o mais altivo dos vira-latas. Para mim, os pássaros apenas cantavam. 


5 - “A cidade grande decerto muda muito a perspectiva da província, que com ela contrasta; a experiência na metrópole se expande com a força do inesperado, mas o que nela ficou subjacente da vida do interior pode, por sua vez, mudar sua mudança. É que mesmo a novidade deve ainda muito à memória do passado: às vezes, ele dói para sempre, como o retrato de Itabira na parede”, escreve Davi Arrigucci Jr. sobre Drummond.


Eu não sei qual foi a primeira vez que vi um coração, destes desenhados, mas recordo o dia em que vi um imenso coração sobre uma mesa. Eu não sabia o que era aquilo que escorria vermelho. Meu avô materno resmungou uma explicação. Era tempo de Natal, e ele preparava o animal abatido para os patrões. Com a barrigada, minha avó fazia sabão. O modo como ela revolvia o conteúdo do taxo de ferro é a rima mais antiga que guardo, bem, vocês sabem onde. Minha avó morreu sem conhecer o mar. Meu avô, já velho, provou e exclamou: “Num é que é salgado mesmo!”.


6 – Davi explica que a vocação drummondiana para o chiste tem uma origem romântica, mesmo o mineiro sendo moderno, e dando tratamento moderno ao chiste, porque o estilo do pensamento dos primeiros românticos é o do trabalho reflexivo sobre si mesmo, da procura no “ilimitado coração”. De modo que “a reflexão surge como a condição para que o poeta alcance o que busca e, contraditoriamente, se torna o empecilho para isso”. “O que se sente dá o que pensar.” Não é piada, é chiste, “relâmpago exterior da fantasia”, Davi cita Friedrich Schegel, em O dialeto dos fragmentos, “Ideias”, fragmento [26], na tradução de Márcio Suzuki.


“Só os cardiologistas devem entender”. Mas eu quero ver, oras. Coloco o DVD no computador. Na tela, o coração não tem a forma dos desenhos, não tem a deformidade da carne sobre a mesa na fazenda. Em preto e branco, vejo o objeto que invade e rompe uma barreira. O coração é irrigação. Rios e seus afluentes. Em todo caso, mantive o som desligado. Sempre tive um receio da percussão cardíaca, por isso sempre evitei deitar minha cabeça sobre o seu peito, amor. Quando menina, batuquei no violão assim... tum, tum, tum. Depois descobri a distância íntima das cordas.


7 - Dizer o que vai no coração, eis o caminho da dificuldade de Drummond, no “Poema de sete faces”, mas não apenas nele. A análise de Davi se embrenha nesse percurso obstinado do poeta de, via reflexão, tentar encontrar as palavras precisas que digam “até os movimentos imperceptíveis do coração”, dar um nome ao inominável. Davi, filho de um médico, de quem herdou não só o nome, é ele próprio poético em seu diagnóstico do coração como “lugar da falta”: “O infinito do sentimento é um acidente do coração, existe em potência como um querer que não se preenche de todo, mas busca a vastidão, como um movimento contrário de sua própria privação, oco do querer sem jeito onde reside o seu não-poder”.


Circulo com caneta vermelha para revisitar com chave na mão o que queria saber de cor. Tudo o que sei de cor tem um pouco de azul, “porque é a cor mais funda”, me conta uma amiga, me ajudando a dar um nome para o que só sei chamar de meu, mas em alemão, para disfarçar qualquer noção de posse sobre o que só me escapa. Eu não sei nada de alemão. Só algumas palavras soltas, como Hilflosigkeit. Azul é a cor que escolhi para pintar uma pequena janela daquele quarto, que, antes de eu morar ali, vivia fechada. Com a tinta que sobrou, pintei os contornos da cristaleira que separa a copa da cozinha. Misturado com branco, um azul claro, cobriu as mensagens que sua mãe escreveu atrás dos postais que te enviou e enquadrou em molduras sem fim, da quais nos desfizemos naquela reforma, como se fosse fácil manter o sangue que corre bem fino, sem gorduras, coágulos e pedras no meio do caminho.



Luciana Araujo Marques
Luciana Araujo Marques é mestre em Teoria Literária (USP) e doutoranda em Teoria e História Literária (Unicamp). É jornalista e atua no mercado editorial. Está entre os autores selecionados pelo programa Rumos Literatura, do Itaú Cultural, que teve como objetivo apresentar novos nomes da produção crítica brasileira com foco na produção literária contemporânea do Brasil, tendo como resultado a publicação do livro de ensaios "Protocolos Críticos" (2009).



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