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Declaração de independência



2017-01-13

Fundei um país.

O meu país não tem nome, mas tem bandeira. No quarto dia deste ano, fotografei meu cachorro, o Gaspar, e decidi que 2017, no calendário das minhas astrologias, seria o Ano do Cão, que rege quatro virtudes cardeais: elegância, ternura, honra e altivez. As quatro estão representadas na bandeira do meu país, que tem as cores do Gaspar: preto (elegância), mostarda (honra), branco (ternura) e marrom-musgo (altivez). A primeira figura histórica do meu país foi a Tia Jupira, costureira de porta de loja na serra fluminense, que confeccionou a bandeira.

O meu país, portanto, foi fundado no dia 04/01/2017. Não gritei nada, porque não sou muito de gritaria. Estava de pijamas.

O meu país não tem fronteiras nem alfândegas. Sou eu andando, o meu país. Eu e as minhas porosidades. Logo, quando estou em solo internacional, não sou força invasora nem atento à soberania. De certa forma, embora eu mesmo seja o meu país, estou sempre em solo internacional. O meu país é a diluição de fronteiras.

O grande produto de exportação do meu país é o hálito, que em certos invernos pode ser visto a flutuar próximo à boca, com mais frequência se estou apaixonado. O meu país importa o ar dos países vizinhos e, segundo acordos firmáveis de boa-fé, o hálito e a saliva dos habitantes de outras nações.

O meu país é ingovernável.

O meu país não tem exército, mas é indevassável.

O meu país é a migração total. O comércio miúdo nas feiras, o café oferecido por gentileza, todas as línguas são o meu país – e sua mistura. Todo prato de comida é o meu país, arroz e feijão, sushi, babaganoush, samosas.

O padroeiro do meu país é Ogum, senhor das estradas, em cujas encruzas encontramos muitos outros deuses e lhes prestamos homenagens.

Todo e qualquer cidadão natural de outra nação pode se tornar o meu país. Toda nação pode se tornar o meu país. Toda canção pode ser o meu país.

O hino do meu país é a sua voz.

Vida longa ao meu país.



Victor Heringer

O poeta, cronista e ficcionista Victor Heringer  nasceu no Rio de Janeiro em 1988 e faleceu em 2018. Publicou Glória (7Letras, 2012, Prêmio Jabuti), O escritor Victor Heringer (7Letras, 2015), Lígia (e-galáxia, 2014), entre outros. Colaborou para a revista Pessoa entre 2013 e 2017.




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