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Brochadas



2015-08-14

Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura em 2013 como melhor autor estreante, Jacques Fux volta a embaralhar as fronteiras entre ficção e realidade em seu novo romance. No ousado Brochadas, o escritor mineiro propõe uma Ilíada da impotência, remontado ao passado da humanidade e a suas próprias origens judaicas em busca de respostas culturais, sociais, biológicas, místicas, artísticas e etimológicas para uma questão milenar: o funcionamento ilógico do pênis. Ao mesmo tempo, mergulha nas lembranças de seus amores passados – ou, mais especificamente, em seu currículo de brochadas – para traçar aquilo que chama de autoanálise ficcional selvagem.

Porém, mais do que resgatar seus antigos relacionamentos com Agnes, Alice, Carla, Juliana, Jacqueline, Deborah, Sarah e Leah, Fux transforma as ex-namoradas em coautoras da obra. Indagando-as sobre as respectivas brochadas com o protagonista-escritor, ele literalmente conversa, por e-mail, com suas personagens – conduzindo a narrativa a um território insólito e instigante, nos limites da criação.

O que é recordação e o que é fantasia? Em que momento o autor Jacques Fux sai de cena para abrir espaço a Jacques Fux, figura dramática? O que foi idealizado e o que foi de fato vivido? Não há respostas, pelo contrário: a intenção é exatamente confundir, provocar. Desde a abertura – onde deixa registrado que tudo ali “é verdade, exceto o que não invento” –, ele joga com os conceitos de metalinguagem e autoficção enquanto, evocando nomes como os de Flaubert e Montaigne, tece uma análise pungente e irônica do eu na literatura.

Seria o simples ato de contar histórias sempre uma forma de ficção, mesmo quando o objetivo é relatar fiel e detalhadamente um acontecimento? Como afirma o personagem-autor, “a literatura – assim como a vida, a memória e os momentos – é extremamente limitada e pobre”. Brochadas mostra que fato e imaginação são complementares e inseparáveis: é necessário viver, lembrar, esquecer, criar, escrever, brochar.

Jacques Fux é formado em Matemática, mestre em Ciência da Computação e doutor em Literatura Comparada pela UFMG e Docteur em Langue, Littérature et Civilisation Françaises pela Université de Lille 3. Pesquisador Visitante na Universidade de Havard, ganhou em 2012 o Prêmio Capes pela melhor tese do Brasil em Letras/Linguística. Já viveu em Israel, França, Argentina e Estados Unidos. Foi vendedor do Prêmio São Paulo de Literatura em 2013 com seu primeiro romance, Antiterapias.

Eu

Aqui conto minhas histórias. Relato as experiências de uma geração e talvez as memórias de um povo que viveu inúmeras frustrações e flagelos (não, não é o povo judeu!), já que não conheciam o deus Baco contemporâneo: o Viagra. Talvez este livro seja datado por conta disso. Talvez não. Casos de brochadas são conhecidos desde sempre. E desde sempre se buscam explicações, desculpas e soluções. Como neste livro. Como, talvez, em todos os livros já escritos! Assim me insiro novamente na História, dessa vez não tão glamourosa assim. Até os grandes brocharam!

Até os grandes não compreenderam muito bem a diacronia dos seus ilustres órgãos. Rousseau, em seu livro Confissões, revelou sua brochada de uma forma poética e literária: “de repente, ao invés de chamas devorando meu corpo, senti um frio mortal percorrendo minhas veias; minhas pernas tremeram e, quase desmaiando, sentei e chorei como uma criança.” Platão se incomodava por não conseguir controlar seu Platinho: “desobediente e teimoso, como uma criatura deficiente de razão.” Montaigne reclamava da rebeldia do seu petit: “é certo notar a dispensa e a desobediência desse membro que inoportunamente nos deixa na mão quando mais necessitamos.” Tantos homens, importantes ou não, brocharam. Aqui narro a Ilíada da brochada. O célebre e verdadeiro tabu da sociedade.

(Mas eu não quero ser brocha não, me tira dessa. Quero me proteger dessa terrível possibilidade. Acho que vou seguir o conselho de Plínio e vestir um amuleto para proteção: “usar no pescoço o molar direito de um crocodilo garante a ereção nos homens.” Mas não vale comprar na Amazon, você tem que ser “o cara” que pega esse molar à força! Assim, para garantir minha ereção eterna, sem nunca mais ter que reviver os casos e contos desse livro, voilà, acabo de marcar minha passagem para África! Os crocodilos que se cuidem!)

Narrar a brochada é reviver a dor, a vergonha, a incompreensão, a ironia, o misticismo e as muitas neuroses ao longo da história. Já diriam os historiadores e antropólogos: “cada época com seus monstros”, mas se esqueceram de levar em consideração a inextinguível brochada. Santa brochada! Esse monstro que sempre acompanhou os grandes momentos da História. Desde os gregos e romanos que usavam o sexo e a sodomia para subjugar o outro e, quando brochas, eram considerados inferiores e desprezíveis, até o que aconteceu comigo “ontem”. Terrível. Triste. Ficção? Acabei, ao menos, me encontrando junto a alguns dos maiores acontecimentos da literatura mundial... e brocha! Assim divulgo, sem vergonha, o mais sigiloso e despudorado segredo da humanidade (que pretensão!). E quando isso acontece muitas perguntas são colocadas: Por que logo comigo? Por que não consigo controlar algo tão próximo, tão pequeno e tão simples? Como posso continuar vivendo após mirar meu próprio pênis e, suplicando por uma ereção urgente, receber em contrapartida um olhar combalido e agonizante do próprio? Por que essa parte do corpo que me pertence tem vontade e desejo próprios? Perguntas para as quais busco respostas pessoais, históricas, culturais e místicas. Perguntas sem repostas, mas literariamente ricas. Muito ricas. Por isso me atrevo a tratar dessa questão, sentida por muitos, em tantas épocas, e quase totalmente silenciada. Bem, vamos lá! Seja o quê e quando o alter ego deste livro, Jacozinho, quiser! Amém.  

Ela

Eu já brochei sim, Jacques, mas até então nunca tinha imaginado escrever nada sobre o tema. Costumava conversar naturalmente com minhas amigas a respeito desses fatídicos e acidentais ‘casos’. Era um assunto comum, às vezes engraçado e divertido, outras vezes complexo e confuso... e que ficava entre a gente... mas eis que surpreendentemente recebo uma carta bem machista sua me contando o motivo real de suas brochadas! Uau! Que coisa hilária e surreal! Merece uma boa e ‘vigorosa’ resposta!

E sim, Jacques, eu já brochei com você! E não foi apenas uma vez. “Ontem”, por exemplo, acho que não deu muito certo... Acontece, querido. Acontece nas melhores e mais ‘pujantes’ famílias! Mas, refletindo bem, talvez a única verdade desse mundo louco seja realmente a brochada. Brocha-se o tempo todo. Brocha-se com ou sem tesão. Brocha-se com ou sem paixão. E da brochada pode até nascer um surpreendente amor. Isso que parece impor o fim antes de seu tempo, pode fazer nascer, surgir, crescer. Não exatamente o que você queria que crescesse nesse infortunado instante... mas a brochada pode ter o potencial de fecundar o amor.

Nós, mulheres, muitas vezes dissecadas, pesquisadas e endemoniadas, contamos com a maravilhosa possibilidade literária do fingimento. Sim, Jacques, somos as verdadeiras e únicas poetas possíveis. Possuímos o estupendo dom de fingir completamente a dor que, de fato, sentimos. Podemos sentir (e simular) muito mais prazer. Como escreveu Hilda Hilst, talvez sobre algumas de nossas pequenas vantagens: “uma vagina em repouso tem por si só vida, pulsão, cor. Já um caralho em repouso é um verme morto.”

A nossa brochada é uma questão metafísica, Jacques. Uma questão talvez de outro mundo. Olha que paradoxo: mesmo estando com o maior tesão a queridinha pode dar uma de louca e não ficar tão molhada. Imagina o desespero? Você está lá, superexcitada, mas percebe que há um risco iminente do outro supor que você não está. Aí você fica morrendo de medo do outro brochar, ou pensar que você é brocha. Mas não é! Neurose total.

Nessa história ou Ilíada das brochadas que você propõe, Jacques, podemos narrar vários acontecimentos sobre vocês, homens, e outros que nem sonham. Eu, por exemplo, lembro-me de várias vezes que transei sem sentir nenhum tesão, apenas pensando na vida que acontecia... Tudo passa na nossa cabeça quando não estamos excitadas. E vocês lá, se esforçando, suando e não podendo se descuidar – qualquer distração é brochada na certa!

Por isso posso responder e escrever também sobre as brochadas dos homens e todas as desculpas que já escutei. Confesso, entretanto, que não seja tarefa tão fácil assim. Dói, dói um pouco. No momento em que isso ocorre compadeço. Surge uma grande insegurança, um constrangimento, um leve tumulto. Mas não só comigo. Com ambos. Eu tenho consciência que a culpa não é só minha, que algo não bateu, que alguma química não existiu. E até então não imaginaria jamais compreender o ‘real’ motivo desses embates ‘murchos’, Jacques!

Mas, além de sexo, quero mais. Quero homens especiais e sensíveis, que, mais que corpos perfeitos, desejem ser seduzidos pela minha inteligência, pelo meu humor, pelos meus encantos. Diz-se que Cleópatra era nariguda e não era tão bonita assim. E ela até hoje excita, encanta e fascina pelo seu dom da palavra, do olhar, dos odores e das essências que dominava. Ela possuía a arte de seduzir a quem quisesse. (Mas diz-se que até ela reclamou da “arma inútil” de Antônio: “a vara do soldado caiu. Sua espada alada foi roubada”.)

Também, em um olhar bem mais atento, encontramos a inteligência, a ironia e a sensibilidade de Sherazade. Ela fascinou o rei que decapitava todas as mulheres com quem passava a noite. Misto de sedução, encanto e magia, Sherazade criou a possibilidade da paixão pela literatura, pelas histórias, pela arte de contar e convencer. Ela não era nem de longe a mais bonita das inúmeras ex-cônjuges do rei, mas foi a única que sobreviveu e o arrebatou completamente através de suas lindas palavras, das mágicas histórias inacabadas, e de todo feitiço literário que produziu. (Mas o soberano, ao não cumprir sua promessa somente com ela, eternizou-se impotente diante do amor e da magia da literatura. Como já diria Hilst: “Vox Populi, vox Dei: com a leitura, vão-se as picas duras. (...) Já dizia o Rei: um livro nas mãos é uma foda a menos).”

Assim reflito sobre os diversos desencontros e limitações das palavras, dos corpos e dos sentimentos, Jacques. Também recordo, revivo e recrio os mais esmorecidos e prostrados Jacozinhos que encarei. Amplio as acepções e enalteço a ruidosa polêmica da “brochada”. E contesto seriamente as suas provocações!  



Revista Pessoa
 



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