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Leva meu corpo junto com meu samba

Heitor dos Prazeres



2017-04-24

A mãe da minha mãe, já velhinha, baixava uns santos lá em casa. O meu preferido quando criança era o erê Joãozinho da Praia, que fazia o corpo envelhecido de vovó correr pela cozinha, tomar goladas de guaraná e comer açúcar direto do pote. Joãozinho me dizia quais meninas gostavam de mim no colégio, fazia graça com meus pais como se fosse meu amigo – e adorava pular carnaval. Uma vez o ouvi dizer que era proibido os erês descerem à terra no carnaval, mas ele ia assim mesmo, ficava no topo dos carros alegóricos dançando. E riu, como moleque que é.

Gosto muito dos erros de percepção que acabam abrindo espaço para novos jeitos de enxergar. Por exemplo, outro dia estava com o Dimitri BR e começamos a cantar "Não deixe o samba morrer", o clássico de Edson Conceição e Aloísio Silva. Ele logo percebeu que eu cantava diferente: "Quando eu não puder pisar mais na avenida,/ quando as minhas pernas não puderem aguentar,/ leva meu corpo junto com meu samba". Ou seja, havia uma quebra depois das pernas, um pedido: leva o meu corpo. E não, como é o correto, a continuidade da frase: "quando as minhas pernas não puderem aguentar levar meu corpo junto com meu samba"... 

Para mim, "Não deixe o samba morrer" sempre tinha sido uma espécie de cântico funeral. Imaginava o caixão do sambista mais velho sendo carregado enquanto o samba ia junto, o anel de bamba como herança pós-morte, o último pedido ecoando do Além, risonho e potente. Meio diferente da interpretação usual, como meu amigo me apontou. Aí lembrei do Joãozinho da Praia.

"Eu vou ficar no meio do povo espiando,/ minha escola perdendo ou ganhando/ mais um carnaval", eram esses os versos que me faziam acreditar que o samba se dava em outro plano astral. Que, como Joãozinho, o sambista, agora já refeito em espírito, desceria ao mundo dos vivos no carnaval, mesmo proibido, para se juntar à festa. Porque no samba todo mundo vive. Na minha terra, atrás do carnaval vai até quem já morreu.



Victor Heringer
Victor Heringer (Rio de Janeiro, 1988) é escritor, autor de Glória (7Letras, 2012, Prêmio Jabuti), O escritor Victor Heringer (7Letras, 2015), Lígia (e-galáxia, 2014), entre outros. Colabora na revista Pessoa desde 2013.



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