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Quando saber o final é só o começo

Divulgação. Foto da peça O conto 19, baseada no conto de Doris Lessing



2017-05-01

Parece não existir nada de novo no exame do enclausuramento doméstico ligado à identidade feminina? Eis aí a questão, aquela que diz do que permanece enquanto enredo, enredamento de vidas. Quantas protagonistas que já estraçalharam essas molduras do lar poderíamos contar na literatura, no cinema, nas histórias de nossas vidas? Quantas precisamos encarnar dia a dia? Saber o final é só o começo quando se vai assistir a uma peça de um conto que já se leu. Porque algo novo precisa ser feito em relação a essa mesma história

Quando fui assistir à peça O quarto 19, concebida e encenada por Amanda Lyra, com direção de Leonardo Moreira, em cartaz entre março e abril deste ano, no Sesc Pinheiros, em São Paulo, eu tinha lido no original “To Room Nineteen” (No quarto 19), conto de Dorys Lessing (1919-2013) no qual a montagem é baseada, reunido, por exemplo, em A Man and Two Women, de 1963. Mesmo ressabiada de minha apreensão do lido em inglês tempos atrás, portanto sem ter certeza do que no texto encenado era Lessing, do que era a releitura da atriz, fui logo tomada pelo jogo entre as pessoas do discurso que se dava em cena. Daquela leitura passada, não havia restado nenhuma impressão nesse sentido forte que agora se dava para mim como expectadora em relação àquela que conta sobre os outros e sobre si em voz única. Por isso intuí que estava ali, naquele ela/nós/ele/eles/eu dito por aquela mulher, parte do novo proporcionado por outra arte (o teatro), sobretudo na opção pelo monólogo, além do impacto da pertinência de seu efeito como estreia hoje.

Se não me falhava a memória, ou meu inglês, como alertado, no conto havia uma voz narrativa em terceira pessoa e discursos diretos, de modo que as falas e pensamentos da protagonista – Susan Rawlings no conto (creio que não nomeada na peça, ou seu nome me escapou, tamanha quantidade de nomes que ela poderia ter?) – aparecia seguida de dois pontos (:), indicando um outro que fala, às vezes entre aspas, outras não, mas sempre após as explanações daquela voz narrativa. (Terceira pessoa que, é verdade, abria o conto dizendo “Esta é a história, eu suponho...”, portanto marcada por este “Eu” que “supõe”, não um típico onisciente.) O mesmo se dava com as falas das demais personagens. Por isso tudo, a opção pelo monólogo arranjava de maneira nova algo do que se transmite da percepção daquela mulher sobre sua própria história. Era ela dizendo sobre eles como casal, e sobre ela, e sobre o marido, e sobre seus filhos, sobre a empregada, sobre a casa, sobre o jardim perfeito. Sobre a amante concreta dele, sobre um amante imaginário dela. Tantos sobre, mas também tantos sob de que trata, sempre com um rio no horizonte, como se ela própria fosse uma de suas margens, a conhecida e caseira, mas também a outra que só se almeja descobrir na travessia para o outro lado, num quarto de hotel. Sem falar de seu fundo, o leito.

Em O quarto 19 há um todo escancarado, escarafunchado, enquanto algo permanece escondido na história de vitórias convertidas em fracassos que conta e que as medidas do reconhecimento social ainda vigentes não são capazes de apreender, mesmo hoje, mas também no tempo de sua protagonista, super inteligente e esclarecida, dessas que, quem sabe já não se sentiu em algum momento “à frente de seu tempo” ou quem sabe com ele alinhado em termos de conquistas. Não se trata de alguém que não teve a oportunidade de ter uma carreira e retomá-la, por exemplo, mesmo depois do afastamento para a dedicação à maternidade, oras, se poderia dizer.

Parece não existir nada de novo no exame do enclausuramento doméstico ligado à identidade feminina? Eis aí a questão, aquela que diz do que permanece enquanto enredo, enredamento de vidas. Quantas protagonistas que já estraçalharam essas molduras do lar poderíamos contar na literatura, no cinema, nas histórias de nossas vidas? Quantas precisamos encarnar dia a dia? Saber o final é só o começo quando se vai assistir a uma peça de um conto que já se leu. Porque algo novo precisa ser feito em relação a essa mesma história.

A pertinência do tempo de uma estreia vem sempre carregada de algo que se gesta há anos, transmissão do que restava calado e é preciso dizer, com dicção de quem alcança ser ouvido até na cadeira mais distante em relação ao posto em ação. Ressaltar a atualidade de um texto da década de 1950 de Doris Lessing, portanto seu lugar no palco atual, com tantas luzes sobre o que se chama “protagonismo”, com a aura do que não se repete do mesmo modo, aqui não gira a gasta chave do que define uma obra por seu resistir ao passar dos anos em vista de um caráter universal, do chamado humano de qualquer tempo e lugar, mas da especificidade de ser mulher naquele ontem e lugar que ainda diz do agora, como se fosse hoje, sem uma paisagem para fora do cômodo (incômodo) para o qual voltamos a atenção. Mais que cenário, o quarto 19 é uma reverberação de outras e outras de suas paredes e cadeiras onde não se pode sentar e sossegar.

Trata-se do que se diz de novo, mas novamente, isto é, modulado, como indica o advérbio, encarnando algo próprio do que caminha ao nosso lado onde quer que se esteja, como resultado de experiências de tempos anteriores que se acumulam em lutas e suas conquistas, mas ainda em derrotas diárias que dizem respeito a todos os envolvidos – eu, eles, ele, elas, nós – em relação a tudo que impossibilita alguém de se ver como sujeito. E, sim, arrisco afirmar que, se há uma aproximação entre tempos, o espaço também se expande para além das paredes burguesas onde podem insistir em pendurar o retrato de sua protagonista. Se expande como corporeidade feminina.

(A propósito desse corpo de mulher, que também é o meu, e dos lugares que ele habita, fiquei bastante inclinada a pensar a abundância em termos materiais de tudo o que rodeia O quarto 19 num contraste-aproximação com tudo o que falta no Quarto de despejo, de Carolina de Jesus, por exemplo. Seria estapafúrdio aproximar essas formalizações literárias? Creio que não. Sei ainda que tentar responder a essa pergunta demandaria um outro tempo, que não o destas crônicas de leitura – mas também sei que este tempo já se cria a partir de sua formulação aqui dentro, de mim, como leitora, como mulher, aqui no quarto onde escrevo, com suas abundâncias, com suas faltas. Terceiras margens, ever, quando o que era inglês se torna tão meu.)

Ela, a protagonista em cena, quando lhe escapa poder ter um distanciamento de si do dizer Ela, diz este Eu que necessita sabe-se lá o quê. Sabe-se lá. Num lá saberia? Aparentemente, ela tem tudo o que se poderia desejar, alguém diria, claro, um alguém capaz de nomear o desejo do outro e enquadrá-lo. Por um tempo, depois de mais de doze anos em que não sabia mais o que era estar sozinha, por conta das demandas da criação dos filhos, parecia que este lugar podia ser um quarto dentro da própria casa perfeita. Mas aí o quarto dentro da casa, como lugar privado, se tornava o quarto “da mãe”, “da patroa”, com a porta convertida em fronteira entre os ouvidos e olhos curiosos de tudo aquilo que ela mesma precisa descobrir esconder. Até que foi procurar o quarto 19, num hotel, onde é apenas uma hóspede.

Esta primeira pessoa que fala e ganha corpo diante do rio que se avista quase extático da casa construída sobre os alicerces do cálculo inteligente dos dias, um atrás do outro, sempre os mesmos. O mesmo (ou outro?) escuro rio que corre ao final como metáfora de morte... Um Eu que se diz, que é protagonista. Um eu que se mata. Sim, fazia toda a diferença para mim, como expectadora/leitora, saber que, ao final, ela se mataria no quarto 19. Espaço que titula um lugar de busca do enigma de si, que é onde uma singularidade brota em meio a esta ou aquela máscara social, as impostas, as vestidas por suposta opção.

Se por um lado é possível identificar esse protagonismo na opção formal pelo monólogo, por outro, poderia se perguntar por que este protagonismo identificado não salvaria a protagonista da morte se, afinal, é ela quem teria optado por se matar? Como, afinal, às vezes é visto todo suicídio, como opção. Se ela é capaz de dizer sua própria dor, elaborar a própria pergunta, rir de si, quase gozar o turbilhão das próprias palavras entre risadas nervosas (ou no ritmo frenético de uma masturbação corporal e verborrágica sobre uma cadeira, bela cena na peça), nada disso dá conta ou tem cabimento num recinto.

(Contam que quando Graciliano Ramos ainda era vivo, o teriam consultado sobre a filmagem de São Bernardo numa versão em que Madalena não apenas não teria cometido suicídio, como teria se tornado uma líder revolucionária. Intenção que o alagoano teria reprimido visto que todo o livro, e o livro tratado dentro do livro, aquele que Paulo Honório é levado a escrever, é desencadeado pela morte de Madalena pela própria vontade dela. Toda a problemática que a obra aborda tem nesse final marcado pelo encontro voluntário com a derradeira o começo de uma reflexão que precisa ser nossa, as dos que seguem vivos e implicados com os fantasmas de tudo o que é mortífero.)

Alguém pode sussurrar nas cadeiras do teatro um irônico “classe média sofre”, enquanto outro pode se dar conta da coincidência fatal entre o enredo e o sabe-se lá exatamente o que foi que levou a sua própria mãe a também se matar num quarto de hotel, não muito longe do teatro onde assistíamos à peça. Ser o que se é resvala nos dramas de classe mas nunca apenas, tão somente.

 

 



Luciana Araujo Marques
Luciana Araujo Marques é mestre em Teoria Literária (USP) e doutoranda em Teoria e História Literária (Unicamp). É jornalista e atua no mercado editorial. Está entre os autores selecionados pelo programa Rumos Literatura, do Itaú Cultural, que teve como objetivo apresentar novos nomes da produção crítica brasileira com foco na produção literária contemporânea do Brasil, tendo como resultado a publicação do livro de ensaios "Protocolos Críticos" (2009).



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