Imagem 1493836984.jpg

“que as primaveras flor-exit”

Foto de M. Connors



2017-05-03

 

O título veio de Antonio Carlos Amorim, a quem ofereço,
compartilhando com o buquê do Printemps Littéraire Brésilien.

 

Florescer é trabalho árduo. Quem é rosa, cravo ou margarida que o diga. Produzir uma polpa de pétalas, uma carnalidade de cor em matiz é para os fortes. Ou para as fortes, já que flor mostra intimidades de útero, ao guardar e alimentar a vida por nove unidades de tempo.

Por quanto tempo uma flor é guardada em seus breviários de beleza até dar-se à vista dos passantes e aprimorar-se para os escolhidos? Um antúrio, como a violeta, surge enrolado em si e soltar o tecido do pudor pede tempo medido em lógica de nanoinstantes. Pois uma primavera inteira preparou-se e floresceu em tempo próprio, por terras de Europa. Entre observar a carne inchada a abrir-se em brechas, entre colher essas pequenas âncoras que agarram ao solo a esperança e deixar-se levar pelos encantos de visão e olfato, a primavera escolheu distribuir amizades e reconhecimentos. Fora de casa é que melhor se vê a casa. Em terras alheias, floresceram as vozes brasileiras, as angústias de cá, as perspectivas nos mastros – panos de prato, lençóis, toalhas no varal dos fundos, a baloiçar.  

Lá estávamos, descobertos, descobertas, descobrindo. Conversando com jovens que leram nossos textos, mediados por professoras brasileiras ou portuguesas; conversando entre nós, sabendo de nós na riqueza das dicções, na fundura dos buracos. Fazendo de nós a nós as perguntas devidas, criando respostas para um público interessado em abrir a flor com sua náusea.

Retomando o mito fundador: o professor da Sorbonne decide levar autores e autoras do Brasil para florescer em Paris, Bruxelas, Lisboa, Barcelona e algumas cidades circunvizinhas. Nossa cultura, nosso modo de atrapalhar e de resolver o mundo. Nossas intervozes, nossos estranhamentos, nossas comunhões, nossas páginas. Volto para casa carregada delas, para consumi-las eu própria, para emprestar, para presentear. O calor e o fruto se fazem síntese do grupo que se revia a cada cidade conquistada ao plano de trabalho, que reconhecia o desejo expresso numa frase alvissareira: “que as primaveras flor-exit”.

Pois foi. Farta de primavera, me volto às pencas do outono. 



Nilma Lacerda
Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.



Artigos Relacionados


Flor-em-furto

A voz popular constrói sua moral, às avessas muitas vezes, ou mesmo ao direito, no final: ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Não é ...
Desenvolvido por:
© Copyright 2017 REVISTAPESSOA.COM