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Leitora a bico de pena

Acervo da autora



2017-06-07

 

Para Maria Juliana e sua autora querida, Ana Maria Machado

 

Foi em Bogotá. Um acontecimento, mas também o desenho da menina que interpelou a mulher caminhando por entre os estandes da feira do livro, na volta do almoço.  

O toque era delicado, e firme. Puxava o casaco com a mão livre, perguntava à mulher se ela era Ana Maria Machado. A voz fina e precisa, olhava, quase aflita, esperando a resposta, o livro apertado contra o peito. A negativa da mulher trouxe o desolamento. A mãe interveio, explicou: tinham vindo de Pitalito, dez horas de viagem noturna em ônibus. A confusão causada pelo you tuber e seus seguidores frenéticos cerrou os portões da feira ao meio-dia. Mãe e menina só conseguiram entrar às duas, depois da ajuda de uma editora conhecida. E a menina com o livro no braço esperava encontrar Ana Maria para que desse a ela um autógrafo.

O rosto era delicado. Não seria uma beleza quando adulta, mas uma mulher serena, as linhas leves e torneadas da face, os cabelos lisos, olhos bem colocados. Agora era inteira uma menina que perdeu sua autora. Aquela, que permitiu a ela saber da história de um passarinho que levava seu pedido de ajuda para que a árvore em que construía o ninho não fosse derrubada. O rosto da menina se crispara ao anúncio do lenhador, se desanuviara no risco do voo do pássaro decidido a obter auxílio. Novos traços de sombra surgem no rosto da leitora, com a passagem do problema para adiante, para alguém mais poderoso que o humilde servo a que ela se dirigia, que ele sim poderia estancar a ordem dada ao lenhador. A pena que desenha o rosto da menina treme sobre o papel, quando ela ouve a negativa. Mas segue firme novamente quando o pássaro retoma o voo já com o novo indivíduo a procurar. Depois do capataz, o barão, depois do barão, o visconde, depois o conde, depois o marquês. Cada um deles tem medo do superior, não ousa desobedecê-lo. Vem o duque, e depois o imperador, que, autoritário e surdo às questões do pássaro, ignora seu pedido. Traços rápidos, a pena range no papel. A leitora não pode crer: o passarinho será derrotado? O nanquim se curva aos caminhos sinuosos que o bico fino da pena traça. O rosto da pequena leitora ganha linhas como pontos de interrogação.   

A menina fecha o livro, abandona o penoso trabalho de seguir a história. Não quer ver a árvore derrubada, posto por terra o galho mais bonito, o passarinho sem sua casa. A pena risca e rabisca essa decisão dolorosa, e fica suspensa no ar um infinito de tempo. A menina não resiste, logo volta. É possível que morda a ponta do dedo, arranque uma farpinha de unha. E ousa virar a página. A pena precisa aprender esplendor para recortar o semblante aberto da menina com a ousadia do pássaro que desobedece à ordem do rei de sair do palácio e faz uma pergunta a ele. Os olhos da leitora se arregalam, e agora? O rei ameaça prender o pássaro numa gaiola, a pena quase não consegue chegar ao papel. Tudo em suspenso, até o desfecho, e a pena sabe da luz que toma a página e se reflete na face da leitora debruçada sobre o texto. Um movimento fácil, e grato. O retrato está pronto.

A mulher precisa responder rápido à menina, antes que se desfaça essa aura e o rosto dela, menina, mergulhe num mar de linhas apertadas, negrura chapada no papel. “Não sou Ana Maria, ela já foi embora. Mas posso pedir a ela que autografe o livro quando nos encontrarmos no Brasil e mandá-lo para você. Está bem assim?”

A menina balançou a cabeça, a pena abriu os traços para os cabelos esvoaçarem. As curvas encontraram-se de novo, no sorriso pequeno, e decidido. A mãe dela e a mulher trocaram as informações devidas. A menina, flor por muito tempo elaborada, desabrochava. A pena tomava as ondulações dos cerros, lá fora, para um retoque final, sempre necessário.

Agora, aí está a pequena leitora de Bogotá. Eu, há tanto para escrever à mãe, saber se, afinal, minha promessa chegou a termo.

 

MACHADO, Ana Maria. Ah, cambaxirra se eu pudesse... Il. Gerson Conforto. Rio de Janeiro: Salamandra, 1991.

 



Nilma Lacerda
Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.



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