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O próximo da fila



2015-08-07

No prelo, o primeiro romance de Henrique Rodrigues: O próximo da fila. Você confere trecho inédito da obra aqui na Arca.

Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1975. É mestre e doutor em Letras pela PUC-Rio e trabalha na gestão de projetos voltados para a promoção de leitura.Publicou o livro de poemas A musa diluída, além de vários infantis e juvenis, como Sofia e o dente de leite e O tesouro na sombra da árvore. Participou de várias antologias de poesia e prosa, e é organizador e coautor das antologias de contos Como se não houvesse amanhã e O livro branco, inspiradas respectivamente nas músicas da Legião Urbana e Beatles.

*
O homem fica em dúvida do que pedir, e a indecisão aumenta à medida que o número de pessoas à frente vai diminuindo. Presta mais atenção nelas, no que cada uma escolhe, se combina com o jeito, as roupas que vestem e o modo de falar. Distrai-se, tenta evitar a necessidade de optar por algo, concentra-se num ponto fixo, volta a olhar para os que fizeram seus pedidos, planeja algo para um futuro abstrato ou tenta fazer contas aleatórias, como verter o preço de um sanduíche para outra moeda. Nada disso é útil.

Chega a sua vez.

Como vem acontecendo há tempos, acaba optando por algo de que irá fatalmente se arrepender. Devia ter pedido outra coisa, com menos gordura ou mais saborosa. Tanto faz, pensa. O importante é estar aqui.

Mas ainda assim tenta saborear cada mordida. Mastiga bastante pedaço por pedaço, entusiasma-se um pouco mais quando arranca do sanduíche um naco de algo com um gosto que não conhecia — ou do qual já havia se esquecido. Empolgado com o pequeno prazer oferecido pela iguaria, acaba engolindo um pouco de ar e se engasga.  

Tosse, bebe goles de refrigerante, receoso de que alguém o esteja observando. Evita aparentar uma tranquilidade que já não tem, revelada pela vermelhidão que lhe cobre o rosto. Tenta respirar tranquilamente enquanto pigarreia, para que a glote seja liberada e o fluxo de ar se normalize.

Olha para baixo, finge prestar atenção à lista de bobagens escritas na bandeja, e assim parecer um pouco invisível na cena que está criando. Sente uma presença ao lado de pé. O vulto parou por muito tempo. Seria um funcionário, talvez mais de um, acompanhado pelo gerente, oferecendo ajuda ao cliente que está passando mal? E todos os demais frequentadores da lanchonete que ainda não estivessem olhando se levantariam para acudir o pobre homem, engasgado com algo simples como um pedaço de picles. Tentar explicar que está tudo bem iria apenas piorar a situação, pois não conseguiria falar direito e isso tudo se transformaria numa bola de neve, fazendo-o se lembrar do motivo pelo qual raramente saía de casa, mesmo depois do tratamento. Esconde as mãos logo depois de tossir, não quer que as vejam.

O homem foca numa figura da lâmina, pisca mais demoradamente, quase fechando os olhos, e pensa no quanto gostaria que a pessoa parada ao lado fosse alguém perguntando timidamente,

Oi, moço. Você não é aquele escritor que foi na minha escola uma vez?

Mas é nesse instante que aperta um pouco mais o queixo e olha para o bolso da camisa. Ao lado do troco e da notinha da compra, o crachá do trabalho. Fecha os olhos e os aperta com força. Sai do breve delírio e se lembra de que precisa voltar à lida em alguns minutos, porque a vida o espera de novo, a contragosto, para o segundo turno do dia. Não, não foi o escriba reconhecido no banco da lanchonete por um leitor de boa memória. E não iria simular uma falsa timidez para enfim autografar um guardanapo que o seu leitor mostraria todo orgulhoso na escola no dia seguinte. É o funcionário que bate ponto na redação, o mesmo do dia anterior e o mesmo que seria amanhã e na manhã seguinte, no próximo mês e nos anos que ainda o esperavam. O homem então se dá conta de que não está mais entupido com o pedaço de sanduíche, abre os olhos, e nada há de anormal no entorno. Ninguém havia se dado conta de que estava engasgando, que poderia até ter morrido sem respirar. Ninguém havia se importado, mais uma vez. Estão todos quietos, concentrados na própria comida e nos celulares, mesmo os acompanhados.

E vê o ridículo daquela cena, passando a ter dúvidas sede fato estava tendo um princípio de colapso ou se queria, mesmo inconscientemente, chamar a atenção das outras pessoas com um incidente simulado. Coloca o sanduíche na bandeja, olha as duas mãos e as fecha, escondendo os braços sob a mesa.

O vulto ao lado, que parecia uma ameaça, é apenas um atendente limpando o chão. Desengonçado, parece não ter mais que dezesseis anos, treinado por outro garoto quase da mesma idade, mas que demonstra confiança e experiência. O garoto franzino tenta acertar o ritmo em vão, quando seu treinador perde a paciência, toma o esfregão e o orienta, com um tom entre o irônico e o pedagógico,

Faz como eu aqui, olha só. Você precisa dançar com o esfregão. Vai andando pra trás e passando de um lado pro outro. Imagina que está desenhando um número oito, enten- deu? Assim, pensa que o esfregão é a sua parceira de dança.

O recruta vê que o homem olha para ele e baixa os olhos, constrangido. Pega o esfregão e começa o seu primeiro baile de limpeza, corpo meio rígido, e de um traço parece começar a desenhar o oito deitado, fazendo um símbolo do infinito enquanto anda para trás. Percebe que aprendeu, fica mais solto e desenha vários infinitos pelo salão, recebendo um sarcástico elogio do colega veterano,

Isso, garoto, vai dançar aí pra sempre, você nasceu pra isso.

Sem perceber, o homem não consegue tirar os olhos dos infinitos marcados pelas cerdas úmidas do esfregão. Sente até uma empatia imensa pelo rapaz que está dando os primeiros passos no primeiro emprego, com todas as descobertas ainda por fazer, com todas as etapas do restaurante para conquistar, e depois de dominar cada setor da lanchonete estaria pronto para tocar a própria vida, sem medo do público e de si. Foi assim que o homem pensou um dia. Por isso agora tem certa inveja do rapaz magro e confuso. Já não está mais ali com o seu crachá engordurado, que,olhando agora, valia muito mais que esse do bolso. Se pudesse, trocaria de lugar com o jovem, oferecendo a ele a chance de saltar logo para um bom emprego de verdade, como dizem. Ficaria ali no subemprego, no empreguinho de merda, exatamente como esteve quando aprendeu a limpar cada canto daquela lanchonete há mais de vinte anos. E com a segunda chance tudo talvez tivesse sido diferente.

Tira do bolso uma caneta, enquanto os infinitos vão secando no chão e desaparecem.  

Existem basicamente dois tipos de pessoas: aquelas que já se arrependeram e as que ainda vão se arrepender. Pertenço a ambos. 

Este guardanapo, desdobrado duas vezes, multiplica-se por oito e se transforma em um espaço ainda não muito grande. Mas é suficiente para a minha demanda. Pego vários, são de graça, e se nunca consegui contar para ninguém o que me aconteceu, resolvo-me ao escrever tudo aqui, para em seguida amassar e jogar fora. 

Um dos terapeutas disse: verbalize, que isso ajuda a colocar para fora e a se autoentender. No trabalho minhas palavras são direcionadas, lacradas no manual da empresa, mas aqui fora, sinceramente, a quem interessa o que tenho para dizer? Cada um com seus problemas, sua correria, sua angústia, seu inferno particular. O meu é aqui, e por que não é efêmero como tudo o mais? Quero que isso tudo vá embora logo, porque eu morro um pouco a cada palavra que escrevo, e cada guardanapo desses vai me ajudar nesse lento objetivo de desaparecer completamente.

Explico: não me interessam as estatísticas de obesidade, tampouco os gráficos de ampliação das redes de comida rápida no mundo, muito menos a falta de tempo e de comunicação entre as pessoas, mecanizadas em torno dos próprios umbigos. O que me traz aqui é a rica possibilidade que esse lugar me oferece para entrar num processo definitivo de esquecimento. Lembrar fere. Não sou ninguém aqui, não mais que um número, e escrever 15 ou 827 é tão inconclusivo e impessoal — a rigor, um número não diz absolutamente nada, exceto o zero na sua perfeição redonda — que essa situação me é suficiente. 

O tempo que falta lá fora para todas as pessoas aqui dentro mal chega a existir. Por isso é que contrario a reclamação comum dos que vivem correndo: quero-o cada vez menos, e escrevo como quem limpa a boca e amassa o papel antes de jogá-lo na lixeira.



Revista Pessoa
 



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