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Os ‘beijos na boca’ do acervo de Calasans Neto

Acervo da autora



2017-08-02

Na casa do autor das xilogravuras que ilustram obras de Jorge Amado, estão guardadas suas obras e algumas coleções curiosas

 

“Hoje cedo eu acordei e disse: o primeiro que me chamar eu rogo uma praga!”, esbravejou da janela Auta Rosa, em resposta às palmas que ouvia do portão. De sutiã de algodão branco e cabelos desalinhados, não se comoveu com os pedidos de desculpas de quem avisava que podia voltar outra hora.

“Agora que já está aqui, entre. Mas espere eu colocar uma roupa”, respondeu-me ela, por trás de uma grade vermelha de ferro retorcido com figuras de sereias e peixes. Era uma manhã ensolarada de março de 2015, eu estava de férias em Salvador, quando resolvi passar por lá, depois de uma dica de um dos monitores do museu Casa do Rio Vermelho, onde viveu Jorge Amado: “Você tem que conhecer a casa de Auta Rosa e Calasans Neto em Itapuã, o acervo deles é de cair o queixo”. Tomei um ônibus no dia seguinte e fui.

 

 

Impossível não reconhecer, entre tantas casas simples pintadas de azul ou branco, entre as vendinhas e botequins da Praia de Itapuã, em Salvador, a casa-ateliê onde vive Auta Rosa e onde viveu o marido, o gravurista, escultor e pintor Calasans Neto (1932-2006), conhecido pela autoria das ilustrações de livros de Jorge Amado e cartazes de filmes de Glauber Rocha.

Com paredes branquíssimas, a casa se destaca pelas ferragens e azulejaria com motivos fabulares na fachada, pelas portas de madeira pesada feitas com matrizes de xilogravuras, mas também pelo entra e sai de gente que vai atrás de Auta Rosa pedir uma muda de planta ou um dedo de prosa.

Então com 84 anos, a falante Auta Rosa só fingia que não gostava de ser incomodada. É que no dia anterior já tinha recebido muita gente, contou ela, “estudantes de arte, amigos, de um tudo bate aqui, só não gosto que venham crianças endiabradas”.

A casa de Auta Rosa e Calasans Neto sempre foi cheia de gente. Desde os anos 70, quando Vinicius de Moraes se mudou para a Praia de Itapuã atrás de sossego e da nova mulher, a baiana Gessy Gesse. A casa do poetinha ficava a duas quadras dali (hoje é um hotel e restaurante), e todos os dias ele passava por lá para filar o almoço  e a conversa, só saindo no fim da tarde.

 

 

A menos de meia hora morava o escritor Jorge Amado, na famosa casa do Rio Vermelho, e vez ou outra também se acochava no quintal de Calasans e Auta Rosa. Glauber era outro que sempre aparecia por lá. E Carybé. E Caymmi. E Pierre Verger. Na casa dos dois já se hospedaram o escritor Gabriel García Marquez e o ator Robert de Niro. O americano Hemingway não sabia de nada, a Praia de Itapuã é que era uma festa.

Auta Rosa contou uma história curiosa: antes de Vinicius se mudar para o bairro, a rua do casal não era asfaltada, era pura lama e esgoto a céu aberto. Revoltado com o descaso do prefeito, Vinicius redigiu uma petição em versos, solicitando a reforma do logradouro. Jorge Amado conseguiu que o poema fosse publicado no Jornal A Tarde, e a rua finalmente foi asfaltada.

Trechinho:

Prefeito Clériston Andrade
A quem ainda não conheço: 
Quero tomar a liberdade
Que eu nem sequer sei se mereço 
De vir pedir-lhe, em causa justa 
Um obséquio que, sem favor 
Muito honraria (e pouco custa!) 
Ao Prefeito de Salvador.
Existe ali no Principado
Livre e Autônomo de Itapuã 
Uma ruazinha que, sem embargo 
Pertence à sua jurisdição
Uma rua não sem poesia
E cujo título é dar teto
A uma das glórias da Bahia:
O gravador Calasans Neto.
Dizer do estado dessa ruela
eu não arrisco 
Porque sem esgotos, correm nela
Rios de ... — Valha-me o asterisco!
E isso é uma pena, Senhor Prefeito
Pois Calasans e sua gravura
Têm cada dia mais procura(...)
 

 

Uma tarde em Itapuã

Depois da morte de Calasans, a casa virou seu museu informal, com todo acervo do artista e muito da memória daquele período, sendo procurada por pesquisadores e curiosos em geral. Quando está com paciência, Auta Rosa os recebe, quando não está, fecha a porta. Por enquanto, é preciso contar com a sorte. Naquela manhã, eu tive um bocadinho...

Depois de trocar de roupa, Auta Rosa autorizou algumas fotos - menos dela, não, não adianta, nem pensar - e foi mostrando a casa.

- Começa pelas matrizes de madeira. Aproveitadas em portas, cabeceiras de cama, no teto do banheiro e nas paredes do quintal, elas estão entranhadas como veias da casa;

- Mostra livros e cartazes ilustrado por Calasans, como Tereza Batista cansada de guerra e Tieta do Agreste;

- Humor: toda a casa tem piadas pelos cantos. No quarto de hóspedes, há um quadro com fotos de todos que passaram por ali, com as respectivas intimidades (Vinicius de Moraes passou dois dias inteiros sem sair do quarto com Gessy, “nem para beber água”, conta ela);

- Das coleções curiosas: Calasans colecionava sapos, assim como o amigo Jorge Amado. A coleção dele ficava guardada na cozinha e no banheiro (!);

- E uma de sereias (como Maria Bethânia): há um sem-número delas espalhadas pela casa, em murais pintados e entalhados ao ar livre. Há um baú que fez de presente para Auta Rosa todo pintado com sereias. Não um baú qualquer, mas um presente de amor: uma caixa de madeira onde cabia um microsystem e dezenas de CDs, escolhidos por ele, só com músicas que o faziam lembrar dela.

- A coleção mais curiosa e original, no entanto, é uma de fotos de casais de amigos se beijando na boca. Fica exposta num aparador na sala. Funciona assim: os amigos eram convocados a mandar uma foto se beijando na boca para Auta Rosa e Calasans Neto, que se encarregavam de emoldurá-las e deixá-las à vista.

Ao final, Auta Rosa me deu de presente uma muda de mirra, presente dos Reis Magos, “que pega de galho e é ótimo tempero”. E retirou a praga: “Vá embora em paz”.

 

 

 

 

 



Mariana Filgueiras

Mariana Filgueiras é jornalista cultural com passagens pelo jornal O Globo, TV Globo, Jornal do Brasil e O Estado S. Paulo. Tem quatro prêmios de jornalismo. Estudou Literatura Comparada na University of St. Andrews, na Escócia, e na Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, com uma bolsa Erasmus Mundus. Atualmente faz mestrado em Literatura Brasileira na Universidade Federal Fluminense (UFF) e colabora com as revistas piauí e Continente. É uma das autoras da coletânea de crônicas "O meu lugar" (Mórula Editorial).




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