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O melro em Paraty

Gravura de Aluísio Carvão. Sem título



2017-09-02

O que pude observar nesses dez meses é que o Brasil parece se tornar silenciosamente um país de leitores à medida que se constitui uma nova geração de leitores negros - numa outra grande leva de leitoras mulheres a incentivar outras leitoras mulheres - que vincula leitura, cidadania, resistência e recriação. Uma imagem muito próxima da que Lima Barreto, sempre visionário, deixou no tal trecho de "Bagatelas". Via no subúrbio do Rio de sua época; quem sabe agora se possa ver em todo o subúrbio brasileiro.

 

Jeff  Fisher faz o cartaz da Flip todos os anos. O designer australiano que vive entre Londres e Paris desenhou desta vez um pássaro de plumagem estampada tal como patchwork a bordo de uma bicicleta. Atípico meio de transporte, atípica pescaria: com um anzol fisgou uma galocha que é exibida como se a asa fosse braço, o gesto lúdico a prevalecer sobre o imprevisto.

O cartaz chegou pouco depois que o programa 2017 fora anunciado. Como Fisher nunca recebe briefing, intuiu o que eu intuí, entre São Paulo e Salvador, em pontos geográficos distintos o barômetro da intolerância nos indica a mesma condição de asfixia. Paraty funcionaria como trégua, com autores e autoras reunidos para desestabilizar expectativas sobre papéis e posições, identidades e obras. A começar pelo homenageado do ano.

Em trânsito entre o centro e a periferia, Lima Barreto (1881-1922) produziu como artista da vanguarda literária e política do Brasil do pós-abolição, o racismo definiu não só o lugar que ocupou na literatura em vida como após sua morte. Por três décadas ficou sem circular. Até hoje tem posição pouco sólida entre os clássicos. Sob inspiração de sua trajetória e obra, encontrei vozes em subúrbios de todo o mundo, por vezes de fora do mainstream, dissonantes, a desafiar cânones, descumprir a norma, produzir em gêneros híbridos ou vistos como de pouco prestígio - do diário ao rap -, saídos do que se pode chamar de zonas de desconforto - seu corpo, uma ditadura, a guerra.

Não fora simples para Lima Barreto, tampouco para a maioria dos que convidei. Em suas trajetórias houve atrasos, percalços, recuos e silêncios; no entanto são premiados ou a seu modo reputados. Veteranos ou iniciantes, publicaram obras de força e têm projetos novos em curso. As escolhas que fiz contrastam com o que o mercado editorial brasileiro costuma absorver, mesmo em circuito não-comercial: consagrados num eixo de valorização específico, Nova York; de perfil específico, autor branco do grande romance ou expert num grande tema ouvido corriqueiramente na grande imprensa.

Colocar a literatura de novo no centro, quando o bom-senso recomenda qualquer outro assunto na busca por audiência, completou o caráter da insurreição. O que mais simbolizou essa peleja por mais arte e menos protocolo não foi outra senão a série Fruto Estranho. Seis autores e autoras fizeram intervenções as mais variadas, da performance ao digital, do audiovisual à dramaturgia. A poesia até este ano entrava no programa no formato fixo das mesas de debate. Como parte do plano de ir até o limite para evitar clichês em relação ao outro, as mesas também foram montadas por questões literárias, não por assunto ou origem de autores e autoras. 

O que une o rapper angolano e a escritora-freira brasileira com o dobro de sua idade? A experiência recorrente de conjugar letra e liberdade. O letrista-romancista islandês e o romancista brasileiro conhecedor de samba-enredo? O uso de mitos - africanos, nórdicos, indígenas - como matéria-prima de suas narrativas ficcionais. A autora chilena de obra experimental e o documentarista brasileiro que elegeu uma forma de fazer filmes tão singular quanto as personagens que retrata? A busca de uma complexidade que exige do leitor ou platéia um tipo de fruição além da mediania, a linguagem elevada à enésima potência. Para responder à pergunta “por que escrevo?” - leitmotiv de todas as mesas de todas as festas literárias -, dois autores de inequívoca versatilidade. Uma sul-africana cuja formação como poeta, dramaturga, ensaísta e romancista se deu no contexto do apartheid e um autor de não ficção que, depois de publicar livros sobre conflitos raciais como repórter na África, lançou suas memórias como surfista. 

Não perguntei se praticavam o ciclismo, sei que algumas nadavam e me convenci de que todas voavam: Adelaide Ivánova, Alberto Mussa, Álvaro Tukano, Ana Maria Gonçalves, Ana Miranda, André Mehmari, André Vallias, Antonio Arnoni Prado, Beatriz Resende, Carlos Nader, Carol Rodrigues, Conceição Evaristo, Deborah Levy, Diamela Eltit, Djaimilia Pereira de Almeida, Edimilson de Almeida Pereira, Felipe Botelho Corrrea, Felipe Hirsch, Frederico Lourenço, Grace Passô, Guilherme Gontijo Flores, Ivanildes Kerexu Pereira, Jacques Fux, Joana Gorjão Henriques, João José Reis, Josely Vianna Baptista, Laura Maria dos Santos, Lázaro Ramos, Leila Guerriero, Lilia Schwarcz, Luaty Beirão, Luciana Hidalgo, Luiz Antonio Simas, Maria Valéria Rezende, Marlon James, Natalia Borges Polesso, Noemi Jaffe, Patrick Deville, Paul Beatty, Pilar Del Río, Prisca Agustoni, Ricardo Aleixo, Scholastique Mukasonga, Sjón, William Finnegan.

No site oficial, seus perfis. As sinopses das mesas. Áudios original e traduzido, a íntegra dos frutos estranhos, e a cobertura feita pela equipe de divulgação.

“Cada gente esquisita nessa tal Flip”, disse um leitor de portal de notícias no comentário de uma reportagem sobre o historiador e cronista Luiz Antonio Simas, conhecedor de Ifá, cultura de rua e religiosidades brasileiras.

Contagiado pelo que se deu em Paraty, Simas fez uma nova definição para um verbete de seu dicionário pessoal e a publicou no facebook:

“Macumbeiro: definição de caráter brincante e político que subverte sentidos preconceituosos atribuídos de todos os lados ao termo repudiado, e admite as impurezas, contradições e rasuras como fundantes de uma maneira encantada de se encarar e ler o mundo no alargamento das gramáticas. O macumbeiro reconhece a plenitude da beleza, da sofisticação e da alteridade entre as gentes. A expressão macumba vem muito provavelmente do quicongo "kumba"; feiticeiro (o prefixo "ma", no quicongo, forma o plural). Kumba também designa os encantadores das palavras; poetas. Macumba seria, então, a terra dos poetas do feitiço; os encantadores de corpos e palavras que podem fustigar e atazanar a razão intransigente e propor maneiras plurais de reexistência e descacetamento urgente, pela radicalidade do encanto, em meio às doenças geradas pela retidão castradora do mundo como experiência singular de morte.”

Amigos se dividiram sobre os trechos preferidos. "Descacetamento urgente" e "radicalidade do encanto" foram os mais votados.

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Não houve sequência definida, as idéias iam aparecendo, do que sabia e passei a saber mais articuladamente depois que me tornei curadora, em outubro de 2016.

Procurei André Mehmari para compor a Suíte Policarpo. Um dos primeiros, foi o último anunciado: é mais caro levar um piano de cauda de São Paulo a Paraty do que trazer um autor de Nova York. Lilia Schwarcz me contou que conseguiria concluir a tempo a biografia de Lima Barreto, pela Companhia das Letras. Com sua ajuda, recebi os originais do livro que sairia de Lázaro Ramos, ator cuja estréia no Bando de Teatro Olodum compareci duas décadas atrás, em Salvador –“somos da máfia do dendê”, lhe disse, quando o conheci em Paraty.  Felipe Hirsch teve a sacada de gênio de levar de surpresa a vida-obra dramatizada até a praça.

Recebi da Mazza, uma das pioneiras na publicação de autores negros, uma caixa de livros de Edimilson de Almeida Pereira. Comecei a sondar Josely Vianna Baptista, pouco afeita a aparições, ainda mais numa festa literária. André Vallias e Ricardo Aleixo eram nomes em vista, até que conheci a produção de Adelaide Ivánova, Grace Passô e Prisca Agustoni. Yasmin Thayná contribuiu com Josely na produção de um vídeo-poema, bastava enviá-lo. Estava completa a série Fruto Estranho.

Dos estrangeiros, logo convidei Luaty Beirão. Lima Barreto fizera um diário de sua temporada no hospício. O rapper angolano fez um diário de sua temporada como preso político. A mesma língua, dois artistas a desafiar a ordem vigente. A Tinta-da-China planejava a edição brasileira, sugeri uma antologia com suas letras à Demônio Negro, que encarou a aventura.

A ruandesa Scholastique Mukasonga aceitou o convite em seguida. A francesa Gallimard buscou entre grandes editoras brasileiras, foi a independente Nós que se encorajou a publicar dois livros seus de uma vez, um deles vencedor do prestigioso Renaudot havia década. Por que não tinha saído aqui?

Pensei em juntar Julián Fuks e Jacques Fux depois de assistir a uma conversa hilária entre os dois durante coquetel num prêmio infanto-juvenil. Fuks fora jurado, Fux, um dos finalistas. Conhecia a obra de ambos havia mais de década e sabia que leitores por vezes confundem um com o outro. Os dois planejaram naquele dia - obviamente por pura diversão - fazer um empreendimento literário, consolidando juntos vocabulário e sintaxe, assinar com um pseudônimo comum e se tornar best-sellers. Ainda não era hora de chamar os brasileiros, mas não houve um instante de hesitação de minha parte quanto à dupla. Havíamos de ter uma mesa sobre autoficção.

Conheci a obra de Diamela Eltit durante um curso de literatura hispano-americana com a professora Ana Cecilia Olmos, da USP. Perguntei a Fuks, por acompanhar a sua ligação com a área, por que Eltit nunca fora publicada aqui. O histórico era de tradução de autores de sua geração e posteriores; autoras jovens que a consideravam grande influência foram traduzidas e eram recomendadas a festas literárias. Por que não a própria Eltit? Fuks me respondeu que planejava traduzi-la, até ali uma grande editora que consultara não se animou. Uma surpresa saber que se correspondiam; em dois dias tive o aceite, não mais que uma semana depois a Relicário, no empenho de trazer alta literatura hispano-americana, topou a parada.

Marlon James, Man Booker Prize 2015, era outro confirmado, com romance em tradução pela Intrínseca. Um dos mais difíceis de convencer, está com agenda lotada, e seu agente quis antes checar se seria necessário visto para entrar em território brasileiro. Estranhei que se inteirasse antecipadamente de tal burocracia. Soube então que, para um jamaicano, o trâmite costuma ser tão demorado e chato, que antes de aceitar precisava se certificar. O Brasil não pede visto para jamaicanos. Paul Beatty, assim como James, um autor negro de sofisticadíssima literatura com histórico de rejeição por editoras, venceu em novembro o Man Booker Prize 2016. Não conseguia parar de pensar em reuni-los, mas somente em abril tive certeza de que havia uma editora brasileira para sua obra, a nova Todavia. Estava trazendo autores ainda pouco conhecidos e não era sensato que não tivessem sido traduzidos. Cidadão americano, Beatty tampouco precisa de visto. Um ex-aluno seu me contou que tinha horror a avião. Quem sabe se viesse de barco. Não foi preciso tal arranjo.

Leila Guerriero é outra descoberta recente, parte da bibliografia que pesquisei quando passei a dar aulas de não ficção no Instituto Vera Cruz, há três anos. Não faltei à oficina que, ali, a jornalista argentina ministraria depois de Paraty - sensacional. Quem me falou de Deborah Levy foi a editora inglesa Liz Calder, uma das fundadoras da Flip. Seu Hot Milk  por um triz não vencera o Man Booker Prize 2016. Levy era a favorita, Beatty, a surpresa. Quando a Autêntica me contou que seu ensaio-resposta a George Orwell sairia aqui, parti para ler tudo o que havia disponível de Levy. Não me esqueço como, no brinde de boas vindas, antes de tudo começar, Levy se apressou em conhecer Conceição Evaristo, já um clássico contemporâneo da memória negra brasileira.

Carol Rodrigues, Djaimilia Pereira de Almeida, Natalia Borges Polesso: se na Flip o lugar das poetas jovens vinha sendo conquistado nos últimos anos, era hora de abrir algum para as novas prosadoras de língua portuguesa. João José Reis é um historiador que admiro desde adolescência. Sjón veio como sugestão da Planeta, li o que existia no Brasil e o que acabava de ser traduzido, e foi outro que parecia verdadeiramente feliz de estar aqui.

Aos novos, somavam-se outros que conhecia e admirava fazia tempo. Nem todos os desejados podem aceitar o convite; muitos, embora admirados, não tive como integrar à programação tal como era pensada. Ouvia sugestões de todas as partes e ficava contente em ver que, de Bento Gonçalves (RS) à Islândia, viria gente sem igual para o convescote de Lima Barreto.

***

Quando, da platéia, a professora negra Diva Guimarães entrava no seu quinto minuto de depoimento inesperado sobre racismo na sexta-feira, eu tentava administrar internamente três temores.

O primeiro, o de que aquela senhora que acabava de conhecer se sentisse mal. O segundo, o de que não soubesse da possibilidade real de seu testemunho se tornar um desses vídeos virais da internet; se acontecesse, quem sabe se sentisse exposta demais. Enquanto escrevo este balanço-texto, encontrei uma soma de mais de 13 milhões de visualizações de seus 12 minutos de fala. Diva Guimarães está levando bem a fama, e entre os muitos convites que surgiram, pelo que soube, está escalada para participar da atual Bienal do Rio. O terceiro temor me acompanhava num nível subjacente havia dez meses, desde que fui anunciada curadora. Em hipótese alguma quis que o preconceito de cor virasse na imprensa assunto de maior repercussão que o talento dos autores e autoras negros convocados.

Creio que jornais e revistas, sites independentes e publicações de nicho compreenderam muito bem essa finíssima fronteira. É pena que certa cobertura ainda insistiu em dizer que, com mais negros, a Flip trataria - ou tratou - da questão racial. Continuaram a confundir autor e tema quando disseram que as questões de gênero prevaleceriam em 2017 porque havia mais mulheres, a despeito de todo o refinamento da proposta. (Confesso que a palavra diversidade, que muitos usam como elogio, me causa receio. Oposto do que seria uniformidade, tem sido empregada como se fora um conjunto de atributos, sinônimo de minorias, por vezes me soa como um jeito contemporâneo de assistir à diferença com indisfarçado tom paternalista). Um repórter me perguntou o que um jamaicano - Marlon James - fazia numa mesa chamada “O grande romance americano”.

Nem sabia por onde começar. James escreveu tempos antes e de modo irônico sobre o formato, aliás largamente importado no século 20; leciona escrita criativa nos EUA, portanto vem contribuindo para o preparo de novas gerações de escritores em língua inglesa; afinal, a Jamaica fica na América Central. Esses que reduzem um autor à jamaicaneidade são os que passam ao largo da invenção e da experimentação; confundem-se a ponto de duvidar se faltou literatura ou política. Não por coincidência ignoraram os frutos estranhos, abalo e surpresa para quem esteve em Paraty e,  depois, continua a assisti-los online. O contraste entre o programa e o que o mercado editorial brasileiro costuma absorver pode explicar o desconcerto. Como saber o impacto de mesas paritárias naqueles que, até três anos, só assistiam a um número que ia de três a seis mulheres em todo o programa e, entre essas, uma era eleita musa? E o impacto de conversas entre dois interlocutores negros, quando nem sempre se pode encontrá-los na escalação de festas literárias?

De volta a Diva Guimarães, me dou conta que protagonizara um sétimo e improvisado fruto estranho. Assistira na véspera à mesa Em nome da mãe, com Scholastique Mukasonga e Noemi Jaffe. Quis homenagear a própria mãe, que a incentivou a estudar e a fez professora, quando o público usou o microfone para fazer perguntas aos autores da mesa “Na minha pele”, Lázaro Ramos e Joana Gorjão Henriques. Imaginar um contingente de professoras como Diva Guimarães me leva a um dos vídeos da parceria Flip-Arte 1, este apresentado no domingo cedo. O ator Zé Geraldo Jr. lê um trecho de Lima Barreto, que retirei de "Bagatelas", sobre escolas públicas povoadas no subúrbio - para quem quer conferir no youtube, o título é "Manhãs".

“Certas manhãs quando desço de bonde para o centro da cidade, naquelas manhãs em que, no dizer do poeta, um arcanjo se levanta de dentro de nós; quando desço do subúrbio em que resido há quinze anos, vou vendo pelo longo caminho de mais de dez quilômetros as escolas públicas povoadas. Em algumas, ainda surpreendo as crianças entrando e se espalhando pelos jardins à espera do começo das aulas, em outras, porém, elas já estão abancadas e debruçadas sobre aqueles livros que meus olhos não mais folhearão, nem mesmo para seguir as lições de meus filhos. Brás Cubas não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria; eu, porém, a transmitiria de bom grado.”

***

Um mês depois do fim da Flip 2017, o melro não sai de minha cabeça. Seria um melro?

Numa primeira mesa dedicada a Lima Barreto, o poeta e ensaísta Edimilson de Almeida Pereira, de Juiz de Fora (MG), falou da sankofa, pássaro ancestral africano de duas cabeças, entre o passado e o futuro.

Mas foi William Finnegan, de Nova York, quem me deixou mais certa de que podia ser um melro o pássaro de plumagem estampada tal como patchwork que Jeff Fisher desenhou. Na sessão "Livro de Cabeceira", que tradicionalmente encerra a festa literária, Finnegan leu "Thirteen ways of looking at a blackbird", poema de Wallace Stevens que, entre o cubismo e o haicai, nos lembrava ali, pela derradeira vez, a questão do perspectivismo. Blackbird virou melro na versão do poeta e tradutor Paulo Henriques Britto.

Pensei depois que era o pavão misterioso. Estava em Salvador, onde ouvi, durante a Flipelô, o romancista e dramaturgo cearense radicado no Recife Ronaldo Correia de Brito falar desse que é o maior clássico do cordel brasileiro. Escrito pelo paraibano José Camelo de Melo Rezende - outras autorias em disputa -, teve dez milhões de cópias vendidas desde seu lançamento, em 1923, segundo se estima. É um romance? É um poema? Tem influência ibérica? Das mil e uma noites? Não me recordo como terminou sua conversa com Salgado Maranhão, poeta maranhense radicado no Rio.

Ocorre que fui ler a história, encontrada num pdf na internet, e a dita ave não é uma ave, e sim uma máquina de voar, uma espécie de aeroplano.

***

O cálculo de moradores e visitantes ficou pelos mesmos 25 mil de 2016.

Com o redesenho arquitetônico, que ampliou cadeiras gratuitas, mais gente assistiu a mais mesas, numa ordem de crescimento de quase 30%. Nas contas oficiais, o acesso pela internet duplicou. Sei que o pessoal das letras e das humanidades continua a assistir à programação, e há um jovem crítico da UFMG dedicado esses dias à preparação de um artigo amplo sobre os frutos estranhos.

A Livraria da Travessa, oficial, registrou recorde. "Na minha pele", de Lázaro Ramos, suas memórias e reflexões como ator negro, vendeu três vezes mais que o livro que mais vendera em todas as Flips. Quem comprou? Leitores brancos? Leitores negros? Esperavam queda de 30%, e houve crescimento de 30% na aquisição de títulos, com o país em recessão e instabilidade política. Na lista de mais vendidos, Scholastique Mukasonga emplacou os dois livros. As memórias negras da mineira Conceição Evaristo, o romance-ensaio da angolana Djaimilia Pereira de Almeida sobre o cabelo de uma narradora negra. Lilia Schwarcz com sua biografia de Lima Barreto, mais de meio século depois da inaugural, a de Assis Barbosa. Provavelmente leitores brancos, porque estavam em maioria, ainda que o número de negros tenha aumentado desta vez. Mas esse é apenas um ângulo.

O que pude observar nesses dez meses é que o Brasil parece se tornar silenciosamente um país de leitores à medida que se constitui uma nova geração de leitores negros - numa outra grande leva de leitoras mulheres a incentivar outras leitoras mulheres - que vincula leitura, cidadania, resistência e recriação. Uma imagem muito próxima da que Lima Barreto, sempre visionário, deixou no tal trecho de "Bagatelas". Via no subúrbio do Rio de sua época; quem sabe agora se possa ver em todo o subúrbio brasileiro.

Os sinais me apareceram em conversas com autores, editores e leitores negros. Na interlocução que se tornou quase diária com Giovana Xavier, historiadora da UFRJ à frente do catálogo Intelectuais Negras, uma das vozes ativas para divulgar autoras negras de todos os campos. O aumento de leitores negros impressionou, durante a Flipelô, as editoras da Corrupio Arlete Soares e Rina Angulo, desde 1980 dedicadas à publicação de obras sobre cultura afro-brasileira. Vagner Amaro, da carioca Malê, relata reedições e reimpressões.

Quando me bater algum desânimo, vou me lembrar da mensagem que recebi por whatsapp de Pilar del Río, que viu Paraty com olhos de quem conheceu a Espanha de Franco e hoje, em Lisboa, está empenhada em causas como a declaração dos deveres do homem: “Hay que insistir en la importância del cambio de paradigma, en abrirse más a los lectores y a la pluralidade de la sociedade, porque es justo y además funciona.”

 



Joselia Aguiar

É jornalista da área de livros, mestre e doutoranda em história (USP). Em jornalismo, de início trabalhou com assuntos internacionais. Na Folha de S. Paulo, foi repórter, redatora e correspondente em Londres. Assinou depois uma coluna e um blog de livros. Editou a EntreLivros, revista mensal sobre livros, já extinta. Foi curadora do Festival da Mantiqueira (2014) e da Festa Literária Internacional de Paraty (2017). É professora do núcleo de não ficção no Instituto Vera Cruz. Escreve para o jornal Valor Econômico e assina esta coluna na Revista Pessoa. A convite da editora Três Estrelas, escreveu a biografia do escritor Jorge Amado, prevista para este ano.




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