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Gotemburgo, 26/09/2015 (primeira parte)



2015-12-02

Há dois tipos. Os que falam da infância em Botucatu na casa da tia Conchita - pobrinha, é verdade, mas legal porque deu a eles a consciência social tão importante na literatura que fazem. E há os que falam sobre a especificidade da semiótica em campos de intersubjetividade. Os primeiros têm mais público. Eu sou dos segundos.

E não queria ser de nenhum. Porque, afinal, se escrevo é pra não falar.

Hoje não tem jeito. Você tem de falar e falar bem. Há mesmo coaching pra isso, dez sessões e uma é de graça. Por exemplo, você deve começar sempre com piada. Numa plateia tinha um judeu, um árabe e o Lacan. E terminar com citações inspiradoras. Vinicius e Nietszche estão meio por baixo. Guimarães Rosa emplaca bem.

Não que eu tenha feito o cursinho. Ouvi dizer, só.

Aliás, eu, na minha vida, bem que tentei não falar nem escrever. Com uns sete anos, ainda me esforçava pras pessoas entenderem, pela minha simples cara, o que eu pensava delas e do mundo. Acho que não deu certo. Ou as pessoas fingiram que não deu certo.

Então, o caso é que estou na Suécia com o papelzinho na mão que é, na verdade, bem mais do que um papelzinho. São cinco páginas em corpo doze e eu uso espaço simples.

Do meu lado, o editor já falou da Clarice Lispector, também publicada por ele. Falou da Clarice enquanto olhava pra mim. Está certo, iceberg, rosenberg, tudo a mesma coisa.

É minha vez.

Preparei o papelzinho sobre um livro que ia ser lançado mas não ficou pronto. Fiz uma análise da construção estrutural clássica em três atos e a razão de haver um epílogo que retoma as referências  metalinguísticas do incipit. Coisa fina. Mas tudo que consigo pensar naquela hora é que não gosto da Clarice Lispector. Nem de editores. E até mesmo daquela plateia, ali na minha frente, até onde eu conseguia ver.

Uma pausa pros óculos.

Escritoras mulheres de súbitos e avassaladores sucessos mundiais: é essencial que fiquem bem na foto. Se tiverem feito um livro, melhor ainda. Não fico bem de óculos. Também não fico bem sem óculos. Tento não pensar nisso, mas em palestras só ponho óculos na hora mesmo de ler o papelzinho. Então eu estava sem óculos, mas dava pra ver. Os diplomatas do Itamaraty, órgão responsável pelo convite preu ir até lá. Eram três e inchavam o peito pra ocupar mais do que três cadeiras. A mocinha do estande. Duas velhinhas que não sabiam se era palestra ou show de stripper e não que fizesse diferença. Mais umas sombras que determino serem pessoas.

Umas oito, calculei.

Eu tinha quinze minutos.

E disseram: sueco não tem essa. Quinze minutos e acendem uma luz na tua cara, desligam o microfone.

Então eu tinha quinze minutos pra falar de um livro que não estava pronto, pra um público, vamos chamar de público, sueco, ao lado de um editor que usou o tempo dele tecendo loas à Clarice Lispector, quem ele achava, com toda a razão, ter mais chance de vender livro do que eu, mesmo se eu tivesse livro.

E foi aí que baixou uma dessas inspirações de momento, dessas coisas que não se sabe de onde vêm.

Lembrei que mato gente.

Um, com sorte dois, em cada livro. Quinze minutos sobre minhas motivações de matar gente, sendo que me ative às literárias.

Uma pausa pro sotaque.

A palestra é em inglês e falo inglês com sotaque alemão, mas não é bem isso, é raiva. Sou da década de 1970, o imperialismo ianque e tal.

Batem palma. Com vigor. E saem correndo. Eu também. Pelos corredores e mais corredores da feira, cheios de livros em sueco, nenhum sentido. A falta de sentido, fico repetindo, é porque está tudo em sueco.

No estande brasileiro, a mocinha diz que gostou. Não acredito sequer que tenha entendido. Mas ela ri dentinhos pontiagudos e percebo que, sim, gostou.

Sento no banco alto que chamo de lar e é aí que Gotemburgo de fato começa.

Eles vêm e desde longe, nas aleias lotadas da feira, abrem os braços, um rebolado e o miudinho no pé, sem música mas perfeito, o riso na cara.

Eeeehhhh.

Eu no meu banquinho também começo a rebolar e abraço quem vem, os olhos molhados de encontrar a Donizete, nossa, a Donizete, que ainda não conheço mas que está há oito anos em Gotemburgo e a quem, portanto, não vejo há oito anos.

Se ela gosta de lá.

Vixe.

E revira os olhos. O marido ao lado parece maravilhado com tudo, e a filha deles, trancinhas afro, já vai entrando e pegando os livros como se estivesse em casa.

E é tão bom encontrar a Donizete que adorei Gotemburgo.

Já o livro não saiu até hoje, dizem que em janeiro.



Elvira Vigna
Elvira Vigna é escritora e desenhista. Nasceu em 1947, no Rio de Janeiro e atualmente mora em São Paulo. Formada em literatura pela Universidade de Nancy, na França, é também mestre em comunicação pela UFRJ. Seu romance Nada a dizer, publicado em 2010 pela Companhia das Letras, recebeu o prêmio de ficção da Academia Brasileira de Letras.
Site oficial: http://vigna.com.br Twitter oficial: @elviravigna



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