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A culpa secreta

Imagem: Duboix



2017-10-04

Quando um crime perpetrado por um escritor ultrapassa a fronteira literária

 

O título do romance era uma luz na sombra do crime, mas a polícia chinesa levou mais de duas décadas seguindo pistas até chegar ao autor do homicídio de 3 adultos e um adolescente em uma pensão onde o escritor chinês Liu Yongbiao, 53, também se hospedava. Desde a madrugada sangrenta de novembro de 1995, em Huzhou, cidade da província oriental de Zhejiang, foram feitas inúmeras provas de DNA, sem contar a análise de mais de 60 mil impressões digitais espalhadas por 15 províncias do país.

Isso tudo para no fim, como em um bom romance policial, concluir que a suspeita recaía na pessoa mais óbvia, sentada em sua casa, já quase impaciente para ser incriminada e acabar logo com o jogo de troca de papéis entre escritor e espectador. Além de Liu Yongbiao, seu cúmplice onze anos mais velho, Wang, foi preso.

Segundo o “China Daily”, durante anos a versão oficial do crime envolvia dois hóspedes da pensão, naturais da província de Anhui. A habitação tinha sido alugada com o propósito de facilitar o roubo de outros clientes. Num desses assaltos, um hóspede acabou sendo morto por esses dois “falsos” vizinhos de quarto. Para livrar-se de testemunhas do crime, abateram em seguida o casal responsável pelo albergue e seu neto de 13 anos. À época, os verdadeiros criminosos foram apontados como suspeitos, mas o que faltou como prova final foi a identidade de ambos, não exigida à recepção, o que obrigou a polícia a se aprofundar na investigação.

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Nascido em uma das regiões mais pobres da China, Liu Yongbiao despontou em 2005 com o exitoso O filme, romance publicado pela maior editora do país. Em 2014, outro título seu foi adaptado para uma série de TV. Yongbiao, desde então, tornou-se pessoa relativamente conhecida nos meios literários e de cinema.

Dizem que o autor dramatizava as próprias histórias diante do espelho, dando voz a cada personagem com arrebato e temor. Deixava-se contaminar por qualquer ruído vago de fora, como passos na escada, ou o som de algum guindaste na rua, além dos próprios pensamentos obscuros, mas isso era atribuído à sua genialidade. Em todo o caso, era visto como um sujeito vaidoso, afetado por cada nota esporádica que surgia nos jornais.

Ao publicar em 2010 o policial A culpa secreta – cujo o título inicial era A bela escritora assassina -, Liu escreveu um prefácio sugestivo. Não disfarçava a obsessão que tinha pela própria protagonista do seu romance, ela mesma uma escritora do tipo doce e perigosa, que lograra escapar da mira da polícia. A narradora era espirituosa, envolvente, mesmo quando descrevia o crime que cometera com frieza. 

Ao ser questionado pela polícia sobre os quatro homicídios ocorridos em 1995, Liu alegou que a realidade pode incitar a criação literária: romances policiais, filmes e séries de crimes de TV ajudaram-no a compor o cenário para seu livro, mas nada mais pulsante do que a experiência vivenciada na própria pensão. No entanto, Liu já não dormia. Os cadáveres desapareceram do cenário, mas não os seus pesadelos. Como diria Stephen King, “monstros são reais e fantasmas também: vivem dentro de nós e às vezes vencem”.

*

Liu foi detido em sua casa no condado de Nanlin, na província de Anhui. Horas depois foi a vez de Wang, seu cúmplice no crime. Estava em Shangai, onde trabalhava com fundos de investimento. As pessoas mais próximas, incluindo sua mulher, não suspeitavam de nada, no entanto a carta de Liu para ela falava do remorso que o consumia, mas também revelava como observou a polícia juntar as provas sem dar nenhuma pista de que era ele a quem buscavam.

Segundo o jornal online “The Paper”, o breve texto foi encontrado em sua casa. “Faz vinte anos que espero por esse dia”, escreveu. “Finalmente vou poder me livrar desse tormento espiritual que me persegue há tanto tempo”.

Referindo-se ao caso em outro jornal chinês, um de seus colegas escritores chegou a citar uma frase de Oscar Wilde: “Assassinato é sempre um erro. Não deveríamos fazer nada que não possamos comentar durante a sobremesa”. Se Liu receberá pena de morte ainda é um fato desconhecido. Tudo o que se sabe, por enquanto, é que sua carreira profissional como escritor está em suspenso.



Lucrecia Zappi

Lucrecia Zappi (Buenos Aires, 1972) é escritora, jornalista e tradutora. Cresceu em São Paulo e fez o colegial na Cidade do México. Cursou artes plásticas na Academia Rietveld (Amsterdam) e mestrado em Criação Literária na NYU. Há dez anos na cidade norte-americana, assina o Diário de Nova York para a Ilustríssima. Seu primeiro livro, Mil-folhas (CosacNaify, SP, 2009), ganhou o prêmio Bologna Ragazzi, em 2011, e o romance Onça Preta (Benvirá, SP, 2013) foi traduzido pela autora para o espanhol. Saiu no México (Pollo Blanco, Guadalajara, 2014) e na Espanha (La Huerta Grande, Madrid, 2015). Acre é seu segundo romance, lançado no Brasil pela Todavia e na Espanha pela La Huerta. No momento Lucrecia prepara seu terceiro, ainda sem título.




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