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Santa Rosa, o artista como leitor (II)

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2017-11-02

Se o nome de Santa Rosa não brilha entre artistas do nosso modernismo, não tendo se destacado como pintor, por exemplo, é incontornável ao se tratar de uma determinada sensibilidade visual junto ao público de jornais, revistas, livros. Salta aos olhos a familiaridade de Santa Rosa com a literatura, e é para ela que se joga a luz de maneira preciosa. A capacidade de ler e apresentar o que leu, em diálogo próximo com o leitor, é central no trabalho de Santa Rosa.

 

Em Capas de Santa Rosa, o professor e crítico Luís Bueno traz à tona uma nova pesquisa de fôlego e de certa forma herdeira da anterior, Uma história do romance de 30 (Edusp/ Unicamp, 2006). Se nesta última, sua tese de doutorado, Santa Rosa é mencionado apenas duas vezes, em uma empreitada com mais de setecentas páginas, isso em nada contabiliza sua participação naquele cenário editorial, o que pode ser constatado neste livro sobre o artista, publicado em coedição (Ateliê Editorial/Sesc) em 2015. Mais de dez anos de perambulação por sebos, coleções particulares e bibliotecas resultaram no levantamento de mais de 300 capas de livros assinadas por Santa Rosa, entre eles, muitos são pouco conhecidos do público. Uma pesquisa que dá conta não apenas de uma trajetória singular, mas que literalmente ilustra um capítulo importante da história do livro no Brasil.

Numa das tais menções a Santa Rosa feitas em Uma história do romance de 30, ao questionar a centralidade do romance cíclico na década em questão, Bueno destaca o exemplo de Banguê, que assim como a segunda edição de Menino de engenho, ambos de José Lins do Rego, tinha tido uma capa de Santa Rosa e outra de Cícero Dias, mas somente na do primeiro o leitor era informado de que lia um volume do “Ciclo da Cana-de-Açúcar”. Estratégia do próprio autor ou da editora para divulgar ciclos nem sempre idealizados de cara e tantas outras nem sequer concluídos? Sim, pode ser, ao que tudo indica, mas, para além de qualquer esboço de intenções exteriores e de planos de marketing, o que mais chama a atenção nas capas de Santa Rosa é sua leitura sempre muito atenta e particular. “Esse cara era um leitor muito precioso”, logo conclui Luís Bueno, conclui para continuar. Em O livro no Brasil, por exemplo, Laurence Hallewell, atribui a Santa Rosa toda a transformação estética das edições nacionais nos anos 30 e 40 do século XX, afirmação que soa para Bueno como um atestado de paternidade do livro moderno no país.

A partir de uma citação maior feita por Bueno em seu livro, recorto aqui um trecho da ficção alterbiográfica Em Liberdade, em que Silviano Santiago recria Graciliano Ramos: “Quantas vezes já, neste curto espaço de tempo em que estou no Rio, presenciei o José Olympio encomendar-lhe uma capa de livro – para amanhã. Não se faz de rogado. Recebe de suas mãos os originais e, não sei como, no dia seguinte a capa está pronta, bem inventada, pertinente, executada à perfeição. [...] Quando trabalha, tem a alegria da criança que inventa frases sem o saber que está inventando. A finalidade do trabalho de Santa Rosa é compreendida e justificada pela necessidade que representa a encomenda do trabalho. Com que fim faço este desenho? Para ser capa de um livro.”

Esse Graciliano-personagem, na observação sobre o colega, estaria justificando sua própria atitude diante das demandas profissionais versus a necessidade da sobrevivência econômica, mas a crítica também parece se referir a uma suposta falta de interesse de maior reflexão sobre o próprio trabalho artístico por parte de Santa Rosa. As solicitações editoriais representariam todo o significado possível? Fazer capas para livros de qualquer autor expressaria um vazio ideológico?

Atento às condições do trabalho intelectual em pleno regime varguista, Luís Bueno não parece estar convencido. Na biografia A vida ilustrada de Tomás de Santa Rosa, de Cássio Emanuel Barsante, que orientou as primeiras buscas do pesquisador, há uma lista de capas do artista para a José Olympio. Nos anos 1930, todas as obras de ficção da editora tinham capa dele, exceto Renúncia, de Jayme R. Pereira, irmão do dono da editora, e as de Plínio Salgado. “É difícil saber se Santa Rosa se recusou a ilustrar os romances do ‘chefe nacional’ integralista, ou se o autor não o quis como seu capista, mas o resultado final num caso ou noutro é o mesmo: uma incompatibilidade dentre o escritor e o artista plástico que coloca sob suspeita essa figura sem cor, ciência ou ideologia”, ressalta Bueno.

Santa Rosa fazia parte de um grupo que se reunia no Bar Central, em Maceió, em 1932, entre seus integrantes, Graciliano, Zé Lins e Raquel de Queirós. Em junho daquele ano, ele trocou a capital de Alagoas pela então capital do país, o Rio de Janeiro. Foi a carioca Ariel que abriu as portas do mercado editorial para Santa Rosa, pela editora, saíram Urucungo, de Raul Bopp, e a de A reconquista do poder, de Cid Corrêa Lopes, com capas que já traziam as marcas da primeira fase do artista. Em 1934, ele inicia suas colaborações para a José Olympio. Como já citado, Banguê e Menino do engenho, além de tiragem alta, de 10 mil e 5 mil exemplares respectivamente, tinham capas de Santa Rosa e Cícero Dias. O leitor podia escolher a preferida nas livrarias. Com soluções bastante distintas, a de Santa Rosa daria a cara do livro brasileiro naquele período. Luís Bueno passa então a apresentar qual foi esta cara e como ela se modificará a partir de 1939, mais uma vez pelas mãos do designer, ainda que a palavra em si fosse inexistente no tempo de Santa Rosa, como nos lembra Bueno. Entretanto, está na função de designer, sem qualquer rebaixamento hierárquico, a concentração de seus esforços e influência.

Se o nome de Santa Rosa não brilha entre artistas do nosso modernismo, não tendo se destacado como pintor, por exemplo, é incontornável ao se tratar de uma determinada sensibilidade visual junto ao público de jornais, revistas, livros. Salta aos olhos a familiaridade de Santa Rosa com a literatura, e é para ela que se joga a luz de maneira preciosa. A capacidade de ler e apresentar o que leu, em diálogo próximo com o leitor, é central no trabalho de Santa Rosa. Em “Sobre a arte da ilustração”, que integra o livro Roteiro de arte (1952), é ele próprio quem afirma, em detrimento da técnica, que “a ajuda do gosto literário é para o ilustrador o guia mais seguro”. E é esse gosto pelo texto que o distingue, como fica evidente neste livro de Bueno. A transposição do lido para o desenhado se deu, como técnica, primeiro no estabelecimento de layouts, seguido da escolha de um plano ou cena que captasse os movimentos mais íntimos de um personagem no interior de uma narrativa ou do eu lírico de um livro de poemas.

Essa síntese presente nas capas, a propósito, pode ser aproximada a do olhar poético. Como lembra Antonio Candido, ao apresentar Santa Rosa, “No aparecimento de Caetés”, reunido em Ficção e confissão, em que trata da obra de Graciliano Ramos: ele “também foi poeta.” Waldemar Cavalcanti, aliás, trata de sua “reação lírica” em artigo de 1933. No “poeta sem livro”, “mas com poemas”, que foi Santa Rosa, Luís Bueno nota uma maior liberdade de criação nas capas de poesia, ora elidindo a ilustração, ora agigantando-a. 

Aqui, no meu texto, a falta de uma galeria das capas de Santa Rosa – falta que por sua vez é abundância no livro de Bueno, tão repleto de imagens –, dificulta expor um pouco mais as interpretações propostas pelo autor, pois poderiam ficar soltas, abstratas demais. Assumindo a limitação, fica feito o convite para conhecerem As capas de Santa Rosa, o livro, as capas, o leitor por trás delas.

Neste espaço batizado “D(e)screver Leituras”, em que tantas vezes trato a leitura por perspectivas tão particulares, misturadas ao cruzamento do que é cotidiano ou do que o atravessa de súbito, me pareceu apropriado trazer a notícia deste que foi um “artista-leitor” em nosso passado cultural. E se chamo aqui “notícia” é porque estive nessas linhas muito colada às informações que o próprio autor oferece e, apesar de o livro ter sido lançado há dois anos atrás, e tratar de um personagem morto precocemente, em 1956, me chama a atenção pela atualidade em uma faceta paradoxal, isto é, a necessidade de se olhar para o passado para compreender percursos presentes, mas jamais como se estivéssemos numa linha progressiva, evolutiva. Quase nunca... Mas aqui, claro, já não estou falando dos traços de Santa Rosa apenas, mas quem sabe, da falta que faz a leitura, mesmo em tempos em que somos soterrados e nós próprios produzimos tantas imagens.



Luciana Araujo Marques
Luciana Araujo Marques é mestre em Teoria Literária (USP) e doutoranda em Teoria e História Literária (Unicamp). É jornalista e atua no mercado editorial. Está entre os autores selecionados pelo programa Rumos Literatura, do Itaú Cultural, que teve como objetivo apresentar novos nomes da produção crítica brasileira com foco na produção literária contemporânea do Brasil, tendo como resultado a publicação do livro de ensaios "Protocolos Críticos" (2009).



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