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Vai, malandra. Primeiro romance de Giovana Madalosso traz protagonista que desafia clichês



2018-02-18

 

Em entrevista a Diogo de Hollanda, escritora curitibana fala de seu novo livro e desmistifica vários temas, como o feminismo, a literatura e o meio literário

 

Dois anos depois de estrear com o elogiado livro de contos A teta racional (Grua), finalista do Prêmio Clarice Lispector, da Biblioteca Nacional, a escritora Giovana Madalosso está lançando seu primeiro romance, Tudo pode ser roubado (Todavia). O livro é narrado por uma mulher que, na dupla condição de garçonete de um restaurante badalado em São Paulo e ladra que seduz seus clientes endinheirados, transmite uma visão mordaz da elite paulistana. O eixo central da trama é um golpe para roubar uma edição rara de O Guarani, o clássico do escritor romântico José de Alencar, o que faz da própria literatura um dos elementos temáticos do romance, numa abordagem irreverente que coincide com a atitude de dessacralização defendida pela autora. Nesta conversa, Giovana define sua protagonista como uma anti-heroína que tira do mundo masculino o monopólio da figura do malandro. Clique abaixo para escutar a entrevista ou leia a seguir alguns trechos.

 

 

FEMINISMO. Não tem como você não se posicionar politicamente com tudo o que faz. Mesmo que você não queira, seu livro é político, de certa forma. Isso nunca está para mim lá no começo, na hora da criação. Mas, depois que o trabalho começou a andar e eu fui olhar de uma maneira crítica, me alegrou ver que eu tinha uma personagem que, por mais que não empunhasse nenhuma bandeira, é uma personagem pouco óbvia na literatura em geral e na literatura feita por mulheres. E ocupa também o lugar da malandragem, que é o lugar do homem, o anti-herói. Uma anti-heroína, finalmente. Geralmente [na literatura] a gente tem as mulheres muito ligadas a assuntos da casa ainda: a maternidade, o casamento, a relação familiar. A mulher fica dentro dessa esfera. Não lembro até agora, talvez eu esteja muito enganada, e provavelmente estou, mas não me ocorre facilmente nenhuma outra [personagem] desse tipo. Mesmo que eu não traga um discurso com ela, consigo provocar um rompimento nesse sentido, e isso já me deixa satisfeita.

CÂNONE. Tem obras que são incríveis e, no momento em que foram feitas, provocaram uma ruptura, são fantásticas, devem ser respeitadas, mas acho que a gente também tem que estar à vontade para falar que acha algumas delas chatas, difíceis de ler. (...) Eu acho que a gente tem que estar mais à vontade para falar de literatura, né? As pessoas têm muitos dedos para falar de muitas coisas, e eu acho que, a partir do momento que a gente, vamos dizer assim, dessacraliza a literatura, a gente fica mais à vontade para amar ela. Eu me interesso, eu acho bacana que ela possa se aproximar da gente, que ela não esteja num degrau acima. 

 

O podcast "Chamada literária" é produzido mensalmente por Miguel Conde e Diogo de Hollanda. Os jornalistas se revezam na condução das entrevistas.

 



Miguel Conde e Diogo de Hollanda

Miguel Conde é jornalista e editor. Foi repórter e editor assistente do caderno “Prosa & Verso”, do jornal O Globo, onde assinou a coluna “Procura-se”, sobre livros fora de catálogo. Seus artigos, reportagens e entrevistas foram publicados em veículos nacionais e estrangeiros como os jornais Folha de S. Paulo e Valor Econômico, o site Literary Hub e as revistas Arcadia e Letterature d’America. Foi curador de duas edições da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), em 2012 e 2013, coordenador editorial da Rocco e pesquisador visitante na Brown University. É doutorando em Letras na PUC-Rio, curador de ficção do Garimpo Clube do Livro e coordenador da coleção "Marginália", de textos raros de grandes escritores, publicada pela editora Rocco.

 

Diogo de Hollanda é  jornalista, tradutor e doutor em Letras Neolatinas pela UFRJ. Foi professor de literatura hispano-americana da UFRJ e, desde 2017, é professor de jornalismo da PUC-SP. Trabalhou como repórter nos jornais Valor EconômicoO GloboGazeta Mercantil e Jornal do Commercio, além de ter feito colaborações para diversos outros veículos, como Folha de S. PauloReuters e rádio El espectador, do Uruguai. No mercado editorial, assinou a tradução de sete livros do espanhol e organizou as reedições de O cemitério dos vivos, de Lima Barreto, e Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro, de Joaquim Manuel de Macedo, publicados pela Planeta do Brasil em 2004




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