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A pedra antropofágica: Albert Camus e Oswald de Andrade

Imagem: Reprodução



2018-04-08

"A multidão cresce. Alguns dos romeiros estão na estrada há cinco dias, nos caminhos esburacados do interior. Um deles, que tem o ar de assírio, ornado de uma bela barba negra, conta-nos que foi salvo de um naufrágio pelo Bom Jesus, após uma noite e um dia passados nas ondas furiosas, e que fez a promessa de carregar na cabeça uma pedra de 60 quilos durante a procissão. Mas a hora se aproxima. Da igreja saem os penitentes negros, depois brancos, com roupas clericais, depois as crianças vestidas de anjo; em seguida, os que poderiam ser os filhos de Maria e, ainda, a imagem do próprio Bom Jesus, atrás da qual adianta-se o homem da barba, de dorso nu, carregando uma enorme laje na cabeça. Por fim, vem a orquestra, que toca ‘dobrados’, e a multidão de peregrinos, afinal, a única interessante, já que o resto é bastante sórdido e comum. Mas a multidão que desfila ao longo de uma rua estreita, enchendo-a por completo, é efetivamente o agrupamento mais estranho que se possa encontrar. As idades, as raças, a cor das roupas, as classes, as doenças, tudo fica misturado numa massa oscilante e colorida, estrelada às vezes pelos círios, acima dos quais explodem incansavelmente os fogos, passando também, vez por outra, um avião, insólito neste mundo intemporal. Mobilizado para a ocasião, ele ronca a intervalos regulares, acima das autoridades elegantes e do Bom Jesus. Vamos esperar a procissão em outro ponto estratégico, e, quando ela torna a passar diante de nó, o homem da barba parece crispado de cansaço, as pernas bambas.” Diário de viagem de Camus

 

 

Em viagem pelo Brasil entre julho e agosto de 1949, Albert Camus anota em seu diário:

“Jantar com Oswald de Andrade, personagem notável. Seu ponto de vista é que o Brasil é povoado de primitivos e que é melhor assim. (...) Em seguida, Andrade me expõe sua teoria: a antropofagia como visão de mundo. Diante do fracasso de Descartes e da ciência, retorno à fecundação primitiva: o matriarcado e a antropofagia. O primeiro bispo que desembarca na Bahia tendo sido comido por lá, Andrade datava sua revista como do ano 317 da deglutição do bispo Sardinha.”

Descartada a pequena imprecisão bibliográfica (o Manifesto Antropófago, publicado em 1928 no primeiro número da Revista de Antropofagia, foi datado do “Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha”), o comentário de Camus mostra uma empatia instantânea não apenas com a cativante personagem Oswald de Andrade, mas também com seu pensamento.

Durante a visita, Camus conheceu alguns importantes intelectuais e artistas brasileiros, com os quais também teve afinidade imediata: Manuel Bandeira (tuberculoso como ele e que escreveu uma...

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Manuel da Costa Pinto

É mestre em teoria literária pela USP, jornalista, apresentador do programa Arte 1 ComTexto, do canal Arte 1, e colunista da revista sãopaulo, da Folha de S.Paulo. É autor de Paisagens Interiores e Outros Ensaios (B4), Albert Camus – Um Elogio do Ensaio (Ateliê), organizador e tradutor de A Inteligência e o Cadafalso e outros ensaios, de Albert Camus (Record).




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