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Do exílio, ágora do agora: #elenão #elenunca

Arte: Alice no país das maravilhas. Por John Tenniel



2018-10-01

não posso evitar de pensar que um novo recomeço
exigiria antes, hoje, um se reconciliar com nossos fantasmas:
de ter menos medo de iniciar, e menos medo de continuar.

M. Potte-Bonneville

decido começar uma nova série de colunas no exato momento em que a minha vida foge sobre uma linha inesperada – a do exílio. e o nosso país foge sobre outra – o risco de uma direita fascista no poder de um país cuja democracia ainda é frágil e a justiça social desconhecida. a puta viageira, nessas condições, hiberna, sem condições. sem tesão. sem, por ora, solução.

encontrando-nos nessa espécie de transformação, de desterro, de algo despregando-se e desmontando-se aproximamos inevitavelmente a mudança da ruína. e se as coisas concretas ainda ruem diante de nós. se os muros caem. e se esse fogo nos destrói algo muito difícil e desafiador instala-se nesse espaço-tempo do agora.

nesse contexto há sempre um sentimento iminente de que o desconhecido – inerente aos riscos das mudanças, assim como ao sentimento de um depois de tudo - pode ser muito promissor. ou trágico. trágico porque há, em toda mudança, uma linha do retorno que subjaz. [afinal já falávamos antes mesmo de... ou: será que agora seremos suficientemente diferentes?, ou: o quanto tudo realmente pode mudar?].

essa linha do retorno é por si só uma linha dura. tingida sempre de uma sensação de retrocesso.

mas há ainda uma outra linha, que a acompanha e a ela por vezes se acopla. a linha do recomeço. também difícil, mesmo que menos dura. habitada em parte pela memória de um começo primeiro, para o qual nunca voltaremos. tingindo de velho todo e qualquer recomeço. mas também habitada por um esquecimento, quiçá, com sorte, por uma potência de sermos interpelados por algo. esquecimento por vezes pertinente. e necessário. afinal, sem ele nada pode recomeçar.

mas justo esse esquecimento - agora - infla-se para nós de um grande impossível. já não podemos nos permitir esse velho companheiro. eu não posso. ele é feito de uma terrível história inconclusa. espiralando-o, dobrando-o sobre si mesmo. nosso esquecimento é feito do nosso desconhecimento da nossa própria história. esquecer no Brasil reveste-se de uma ignorância cega. e não daquela alegria militante. esquecimento veste-se entre nós de um desejo violento de dominação. e de conquista. de apagamento de todo e qualquer traço de tudo o que possa resistir a esse ou a qualquer outro “novo começo”. esquecer parece portar - nesse agora - o traço de seu gesto primordial:

a aniquilação dos povos indígenas.

as guerras coloniais.

o poder colonial.

a escravidão.

a morte dos traços de um povo.

as correntes e as máscaras de ferro sobre os corpos dos negros.

nessa ágora do agora esquecer assume a pena das origens aterrorizantes. de minha mãe presa grávida de mim. do meu pai na cadeia. numa cela onde a água subia. numa fortaleza banhada pela baía. essa boca banguela de todos nós. balbuciantes. torturados. inseguros. diminuídos.

[todos nós quem?].

[e por que pensam tantos que não esquecer agora data apenas de um momento recente. encabeçado pelo Partido dos Trabalhadores no governo. ou pelo deflagrar da roubalheira que caracteriza, desde sempre, a política brasileira? por que esquecemos desse entre vírgulas – onde se deveria ler: desde sempre -?]

sou obrigada a reencontrar-me comigo de novo aqui. 20 anos depois. sou obrigada a reencontrar-me com o meu país fora dele. que avulta ainda mais. minha terra tem mais terra. sem terra. sem terra. sem terra.

tudo agora avulta em berro e dor. sem terra, sou de fato obrigada a habitar o agora e só o agora. o que por si só encerra. fechando-nos claustrofobicamente nesse tumulto de corpos embaralhados. só agora.

o agora é agora um imenso sem fronteiras. feito desse sem limite espaço-temporal. como um deserto sem terra. por onde sou engolida. mastigada por uma massa de algo que parece que não passará.

[mas o que não passará?]. [frase a ser lembrada também como berro anti-fascista na Espanha de Franco].

o que de fato não passará é tudo o que ainda não sabemos. porque nesse agora a política e a vida ganham contornos de um jogo que nunca jogamos. de um jogo perigoso. e logo eu que nunca gostei de jogar. que nunca gostei de nenhuma teoria do jogo. da linguagem à matemática. vejo-me como Alice caindo em seu túnel. estou sem charme algum presa pelo prego de uma roleta. que gira sem parar. estonteando-me numa espécie de afasia atroz. porque dizer. porque dizer. [por que dizer?].

porque dizer agora é dizer todo o tempo o risco que estamos enfrentado de não poder dizer mais.



Ana Kiffer
Professora Associada da Pós-Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade da PUC-Rio, escritora, curadora da Exposição ‘Cadernos do Corpo’ (CCJF, 2016), uma das fundadoras da Revista DR, pesquisadora da obra do francês Antonin Artaud. Autora dos livros A punhalada [poesia], (7Letras, 2016, coleção Megamini), Antonin Artaud (EDUERJ, 2016), e das coletâneas Sobre o Corpo (7Letras, 2016), Expansões Contemporâneas – literatura e outras formas (UFMG, 2014), Experiência e Arte Contemporânea (Ed. Circuito, 2013), entre outros artigos e ensaios.



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