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Ficar aqui e produzir beleza

Imagem: Mira Schendel



2018-10-23

O mundo samba nas nossas cabeças, como queria Murilo Mendes. Estamos em todos os nascimentos e, em cada um deles, nos insinuamos nos quatro cantos do mundo. Cuidado, normopata, estamos no ar.      

 

Há algumas semanas tento escrever um texto sobre a Lucia Nogueira para este espaço, uma das artistas homenageadas pela Bienal desse ano, ainda pouco conhecida, e, no entanto, uma alegre surpresa. É difícil. A cada dia, os parágrafos são mais supérfluos. A cada dia, um grande endurecimento afeta a mim, aos meus amigos, à minha família, a todos que amo. A cada dia eu preciso cuidar um pouco mais dos meus afetos. Acordo e durmo pensando em Orides Fontela: “Não há palavras. Selvagem o silêncio cresce, difícil”.

Eles não sentem prazer. Ou, ao menos, não o mesmo prazer que nós. Seu desejo de poder não cessa. Não cessará. A alegria lhes é inalcançável. Como no poema de Paco Urondo, “Tire sarro: a direita é mal comida”. Eu não perderia mesmo essa oportunidade. Eles fodem mal. Serão hoje e sempre a nossa chacota.  

Eles são os donos da cafonice. Gozam com a morte. Seus gestos são todos hiperbólicos. Eles desconhecem a sutileza, sequer têm artistas. Repito: eles não têm artistas. São paranoicos obcecados por nós, não cessam de espiar nossos corpos ganhando a cidade, nosso punhado de poemas indispensáveis que levamos nos bolsos. Acham inadmissível a gente ler poema assim, na mesa do bar. A gente ter esse corpo assim, reinventado. Acham um horror essa coisa de vida. De gente que faz performance no meio da rua. Eles acham um horror que a gente se apresente frágil, vulnerável, que a gente chore e morra, que a nossa vida não seja a sua armadura. Eles odeiam a vida, sua condição experimental. Não existe fascista sofisticado.

Às vezes acordo com Pasolini, “talvez bastasse uma só experiência diversa na sua vida, um simples e só encontro, para que o seu destino fosse diverso”. Outras vezes, a generosidade é inegociável. Lhes falta sentimento de mundo, paixão pelas coisas gerais, e com Piva, eu nunca poderia ser piedosa. Nossa alma sapateia feito louca. Estamos definitivamente na vida.

E tudo que respira atravessa o impossível. Dia a dia atacamos o horror. Temos beleza, produzimos beleza, produzimos diferença. Sem adoecer, sem sucumbir, sem se alimentar desse limo que cobre as superfícies, sem se apaixonar pelo poder, sem se demorar nos encontros tristes. Ficar aqui. Produzir. Produzir beleza. Os espaços independentes de arte se multiplicarão por todo o Brasil. As revistas de cultura. As editoras autônomas. Os cineclubes. Os novos compositores. Os corpos dançantes. Se a rua parecer difícil, sei que as casas dos amigos estarão cheias. Leremos juntos os textos e juntos dançaremos. Muito tambor, como já tem sido.

Esse país abismal é sobretudo gigantesco, excessivo em vida. Portanto, aos normopatas tristes, que se preparem para a dificuldade que será encarcerar o nosso desejo. Sabemos ora ou outra suspender as circunstâncias, ver o sol nascer, estar com os nossos antepassados. O mundo samba nas nossas cabeças, como queria Murilo Mendes. Estamos em todos os nascimentos e, em cada um deles, nos insinuamos nos quatro cantos do mundo. Cuidado, normopata, estamos no ar.      

Junto com os nossos e pelos nossos.
A poesia dói nesses filhos da puta.



Pollyana Quintella

É curadora assistente do Museu de Arte do Rio e pesquisadora independente. Formou-se em História da Arte pela UFRJ e é mestre em Arte e Cultura Contemporânea pela UERJ, com pesquisa sobre Mário Pedrosa. Atuou como pesquisadora na Casa França-Brasil, coeditora da revista USINA e colunista do jornal Agulha. Curou exposições em instituições e espaços independentes no Rio e em São Paulo. 




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