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Paulo Palácios

Foto: Veneza -Santa Maria della Salute. Domínio Público



2019-01-26

Um gesto que se dissolve em outro, que se dissolve em outro. É tudo o que quero. Não sou dialogista dos mais hábeis. Todas as pessoas que me ocorrem costumam falar exatamente como eu. Erguem a mão exatamente como eu. A mesma mão. A destra. Felizmente, há agora o Palácios. Palácios e sua obstinação em não me ouvir. Felizmente.

 

Levanto a mão, peço a palavra. Sempre quis começar com estas palavras. Um croqui, um apontamento. Qualquer coisa. Sonhava com um romance de gestos. Certa cadência de gestos. Um gesto dissolvendo-se em outro, dissolvendo-se em outro. A mão direita, invariavelmente a direita, erguida, esperando pela palavra, esperando pelo saleiro, esperando permissão para ir ao mictório. Palácios não faz caso disto. Nem do gesto, nem do sonho obscuro que o projeta, que o projeta na realidade, seja lá o que isto for. Prossegue o Palácios:

“Na cidade imaginada, o julgamento de Joseph Brodsky é encenado em praça pública a intervalos de duas horas. Anda-se plano. De repente, há uma aglomeração. Uma ferradura de pessoas se forma em torno do tribunal. O ator que faz o juiz pergunta a Brodsky, por que o senhor não trabalhava? Brodsky não contava mais que uns vinte e poucos anos à época. Responde com firmeza, resolutamente: eu trabalhava. Escrevia poemas. Os passantes – os passantes, repito, andam plano – detém-se à volta do cenário, do tribunal no meio da praça, silenciosos, reverentes”.

Um gesto que se dissolve em outro, que se dissolve em outro. É tudo o que quero. Não sou dialogista dos mais hábeis. Todas as pessoas que me ocorrem costumam falar exatamente como eu. Erguem a mão exatamente como eu. A mesma mão. A destra. Felizmente, há agora o Palácios. Palácios e sua obstinação em não me ouvir. Felizmente.

“Na cidade imaginada. Mesuras verbais. Os vizinhos se cumprimentam. Também foram, no deserto, avizinhados de alguém. Portanto, a Lei prescinde da letra. O julgamento de Joseph Brodsky é encenado na praça principal de duas em duas horas. Sob o luar. O belo luar. Quando eu tinha 23 anos eu era seu oposto. Eu era oposto, ponto. Robusto, vigoroso. Eu teria respondido ao juiz com a mesma firmeza. Teria firmado os olhos nos olhos do juiz. Eles me vêm empapuçados”.

A mim também, agora que Palácios proferiu a palavra empapuçados. Os olhos do juiz me vêm com o peso de muitas noites insones, muito torcer de mãos. De muita espera pelo gesto seguinte. Seu peso torna difícil o carregá-los pela cidade, real, imaginada, dá igual. No entanto, continuo firme em minha crença de que grandes obras de arte podem nascer da exaustão. 

“Do ponto de vista arquitetônico, lembra um pouco Veneza. Mas só, somente só, se os futuristas que atiraram aqueles panfletos imbecis do alto da Torre do Relógio se tivessem atirado a si próprios do alto da Torre do Relógio em vez de panfletos”.

O semblante de Palácios se agrava ao mencionar este episódio. De repente, sem transição, abre-se todo, talvez para receber o cigarro que queima preguiçoso entre os dedos de sua mão esquerda. Ele me pergunta se já visitei Veneza. Digo que não. Ele tampouco.

“Não há dentistas. Nada de dentistas na cidade imaginada. Uma só, talvez. Minha irmã Irma, que Deus a tenha. Nome ridículo, Irma. Irma Palácios. Não acha? Irma Palácios, dentista. Era a única irmã que me suportava. Às vezes me dava uma esmola. Era muito rica, rica e vagamente sinistra, como o são todos os dentistas. Mas nunca deixei ela chegar perto da minha boca. Disso você pode estar seguro. Certa vez, apareci sem aviso na casa dela para pedir uns tostões, e ela me disse: só se você me deixar dar uma vista de olhos na sua boca. Sabe o que fiz?”.

Eu não saberia o que fazer com uma Veneza. Acabaria me perdendo. No idioma, nos idiomas. Mas isto talvez não fosse de todo mau. A mão levantada, a mão com que escrevo, é a direita. Com frequência indago dela quando me mandam dobrar à direita. Olho para a minha mão que escreve. Penso: esta é a mão direita, a mão que escreve, é nesta direção.

“Eu disse: Irma, que obscenidade é esta? Você é revoltante. É realmente surpreendente que eu tenha conseguido manter alguma integridade, tendo sido criado em meio a gente tão vil”.

Quero perguntar ao Palácios se ele também acredita que grandes obras de arte podem nascer da exaustão. Quero perguntar ao Palácios por que diabos acabou de se referir à irmã como Irma, se da última vez ele a chamou de Brenda (nome que ele também rotulou ridículo na ocasião). Quero perguntar ao Palácios uma colunata de coisas. De que tártaros vem, de que entressonho, de onde? Quero, em suma, perguntar a meu vizinho Paulo Palácios se não seria ele, enfim, a grande obra de arte que a minha própria exaustão produziu, está produzindo. Mas não me atrevo. Não me atrevo sequer a pedir mais um café.

Espero o gesto seguinte, a pausa dramática, a deixa.



Ismar Tirelli Neto

Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados. Atualmente assina uma coluna quinzenal no blog da Editora Cotovia, chamada Aborrecimento, quase poesia, e o podcast "Programa do Ismar", sem periodicidade definida, acessível em: mixcloud.com/tirelli".




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