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Palácios, Redivivus



2019-02-11

Palácios me narra a história de um homem que passou sua vida inteira poupando tempo. Acreditava, o tal sujeito, que estas horas tinham certa materialidade; que era possível estocá-las, dispor delas quando a necessidade se apresentasse. Como ele fez isto? Esquivado-se a toda e qualquer atividade, solitária ou comunal, o tanto quanto possível.

 

            Era isto – ir ter com o Palácios lá ao fim do corredor – ou começar a escrever o grande romance americano. Sopeso. Verbo heroico, “sopesar”. Nas epopeias, nas tragédias, em todas estas literaturas mais austeras, as pessoas vivem sopesando a torto e a direito.  

            Em minha alma sopesei portanto estas duas possibilidades. Trato da louça, sopesando. Perecer em combate, morte gloriosa, cancionável, ou tornar ao torrão de nascença, onde me aguarda vida longa e pacífica. Vida que não conversa com hino.

            Palmas abertas. Braços maximamente estendidos. Passam pelos braços, neste momento, uns nomes a um só tempo vagos e luminosos: Menelau, Aquiles, Ulisses, Helena. Minha alma, pensei, contraí, “minh'alma”. Que categoria imprecisa.

            Enxugo a louça. Guardo. Entalho num post-it – perguntar ao Palácios – um dia, um dia, quando a atmosfera se mostrar propícia – o que pensa ele das almas. Se em algum momento já se ocupou do assunto. Homem com tanto tempo livre nas mãos já deve ter se detido em algum momento sobre o que as anima. O que anima as mãos.

 

*

 

            Palácios termina de jantar. Cruza os talheres sobre o prato vazio. Não me lembro de uma ocasião sequer em que me tenha oferecido um prato. Espera que o visite já forrado. Deve pensar que é uma questão de decência. Não tomar dos desvalidos.

            Apoia o queixo, a barba grisalha e sempre em desalinho, sobre as mãos. Começa a me encarar com insuportável gravitas. Nesta altura, já estou arrependido. Arrependido de não ter ficado em casa, de não ter caído pela espada junto aos muros. O som deste arrependimento: lanças cruzadas, talheres tilintando e meus próprios passos a caminho do apartamento de Palácios. Como que ouço os passos na minha mente – alma, dá igual – de trás para frente. Imagino-me refazendo os passos até minha casa enquanto Palácios me faz grosserias com o olhar.

            “Você tem me visitado um bocado”.

            “Sei”.

            Penso que devo me desculpar.

            “Meu marido está viajando a trabalho. Não sei muito bem o que fazer de noite”.

            “Cinema, teatro? Amigos?”

            “Sim, existem todos essas coisas, sim. No mundo”.

            “E há outros moradores no edifício, sabe?”

            Começo a retirar a louça. Transporto a baixela, os copos e as xícaras para a cozinha de Palácios.

            “Escute, sua Penélope de meia-tigela...”

            Ligo a torneira. Verifico que o detergente de Palácios está quase terminando. Volto à sala. Pego no prato vazio de Palácios. Ele o toma de volta com raiva, recoloca-o sobre a mesa e me mostra o garfo sujo de maneira ameaçadora.

            “Agora veja só o que faço com as faltas”.

            Palácios começa a dar garfadas no vazio e a comê-lo. E o garfo golpeia o fundo do prato com cadência guerreira, e cada bocado de nada que põe na boca é acompanhado de um som terrível, um grunhido de ódio, um grunhido de quem come ambrosia a contragosto.

            “Seu detergente está quase no fim”.

           

*

 

            “Não devemos comparar solidões, Penélope. Em primeiro lugar, isso é de uma vulgaridade tremenda. Em segundo, bom, a mim, tudo me faltou. Acho que isso não está na Ilíada”.

            “O quê?”

            “Nem na Odisseia. Deve estar... em algum lugar. Um desses compêndios mitológicos de autoria contestada, redigidos já na... era Comum. De todo modo, alguém conta, conta-se que Ulisses, para não guerrear em Troia, simulou loucura”.

            “E o que aconteceu?”

            “Foi desmascarado. Botaram o menino dele na frente do arado. Antes que o moleque fosse estraçalhado, Ulisses foi lá e o apanhou”.

            “Você está sugerindo que meu marido deveria ter feito o mesmo?”

            “Simular loucura?”

            “Sim”.

            “Não estou sugerindo nada”.

            “Sim, isto não seria mesmo do seu feitio”.

            Palácios não consegue esconder o escândalo que lhe provoca minha resposta arrevesada.

 

*

 

            Palácios narra. Palácios narra sobre os meus próprios passos, cada vez mais apressados de volta ao meu apartamento, de volta à segurança. Palácios me narra a história de um homem que passou sua vida inteira poupando tempo. Acreditava, o tal sujeito, que estas horas tinham certa materialidade; que era possível estocá-las, dispor delas quando a necessidade se apresentasse. Como ele fez isto? Esquivado-se a toda e qualquer atividade, solitária ou comunal, o tanto quanto possível. Qualquer coisa que pudesse ser interpretada como dispêndio de tempo era, para ele, uma maldição. Não era exatamente homem de posses, mas sua capacidade de viver com muito pouco parece ter impressionado imensamente o Palácios.

            E a necessidade, naturalmente, apresentou-se. Um belo dia, este amigo de Palácios descobriu que estava doente – foi informado que tinha os dias, por assim dizer, contados. E pensou então nos dias que havia poupado, no silêncio e na economia daqueles anos todos, em todo aquele tempo que deveria estar ali, ao alcance da mão, garantia de sobrevida.

            E este amigo de Palácios passou todo o tempo que lhe restava neste mundo abrindo e fechando armários, vasculhando gavetas, revirando as velhas malas sob a estreita cama de campanha que ocupou sozinho por décadas.

            “Palácios”, pergunto, açulado não sei por que força misteriosa, “como você passa os seus dias?

            Palácios ergue-se da poltrona, seu corpo rangendo de teatro. Caminha a passos vagarosos mas certeiros até seu quarto. Sigo. Ele se abanca sobre outra poltrona, ao lado de sua cama, também um bocado estreita.

            “Velo”.

            “O tempo inteiro?”

            “Posso acordar a qualquer momento”.

             

 

             

 

           

           

           



Ismar Tirelli Neto

Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados. Atualmente assina uma coluna quinzenal no blog da Editora Cotovia, chamada Aborrecimento, quase poesia, e o podcast "Programa do Ismar", sem periodicidade definida, acessível em: mixcloud.com/tirelli".




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