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Vládia

Na foto: Theda Bara. Domínio Público



2019-03-06

 E me enterneço, me enterneço até a morte, mas também não posso simplesmente ignorar a hipótese de que este enternecimento não passe de um falhanço vocabular.

Eu me enterneço, no escuro, empenada, e é cada vez mais possível, sim, é cada vez mais possível que eu odeie.

             

para a Barbara Rangel

 

Tive certa vez um vestido muito bonito, muito pouco objetivo.

Metros de organza branca.

Saiu para passear certa tarde e nunca mais deu notícias.

Faz falta.

Ser por metros e metros imaculada é sensação que faz falta, às vezes.

Ao me levantar, despegando lentamente as mãos da terra, da grama, a palavra “sarjeta” fazendo na boca o que costuma fazer à boca de toda a gente, ocorria-me volta e meia o caráter incontornável do culto à Virgem Maria nos idos medievos.

Talvez não seja do conhecimento de todos, mas não foi época das mais fáceis para as mulheres.

As mulheres que não eram ícones da Virgem Maria.

Fez-me companhia em tantos tropeços, o tal vestido, que não posso deixar de me perguntar às vezes o que foi feito dele.

Perdeu-se como perdem-se as palavras durante uma enxaqueca.

Figuro nele, em cuja companhia me sentia tão pura, e percebo que não estou absolutamente figurando nele, e sim no ódio.

Tive de passar pelo mundo catando imagens para dizer ódio, ira, fúria. O mais dos casos, da lixeira dos outros. Ninguém nunca me disse quais eram as imagens adequadas, as palavras cabiveis, o que me forçou a exuberar também em associações deste tipo.

Um vestido branco, branco imaculado, ódio.

 Figuro muito no ódio.

E o vestido, desempenhado de mim, deve vagar por capitais estrangeiras, detém-se frente a uma porta envidraçada, encardida, o letreiro em néon informando o preço da consulta, e cogita – vejam que disparate – cogita seriamente por alguns instantes de subir o lance de escadas e consultar-se com a médium.

Não há futuro. Melhor comprar uma pistola.

Da esquina seguinte, ele radia até Daniel, Constantino, Raul. Todos.

Todos os meus maridos. Todos os meus maridos sempre foram atores.

Tiveram, naturalmente, toda sorte de ocupação. Tradutores, advogados, restauranteurs etc. Mas não é disso que se trata.

Trata-se de uma imaginação.

Uma lembrança de todos estes cavalheiros em cuja companhia tanto me empenhei em não vomitar fogo ou sangue.

Um vestido que era para mim uma vivência cultual do ódio mais elementar.

Estou sempre a caminho do teatro.

No escuro, atenta à postura, vendo-o evoluir, recuar, procurar a luz.

E me enterneço, me enterneço até a morte, mas também não posso simplesmente ignorar a hipótese de que este enternecimento não passe de um falhanço vocabular.

Eu me enterneço, no escuro, empenada, e é cada vez mais possível, sim, é cada vez mais possível que eu odeie.

             

           

        

             



Ismar Tirelli Neto

É poeta, ficcionista, tradutor, performer bissexto e roteirista cinematográfico, autor dos livros synchronoscopio, Ramerrão, Os Ilhados, Os Postais Catastróficos (editora 7Letras), A Mais ou Menos Completa Ausência (Ó Editorial) e Duas ou três coisas airadas (LUNAParque), este último em parceria com Horácio Costa. Publicou textos em O Globo, Folha de S. Paulo, Suplemento Pernambuco, Revista Select, Blog do IMS, Neue Rundschau (Alemanha), Relâmpago (Portugal), Jacket2 (EUA), entre outros. Atualmente vive em São Paulo e ministra oficinas de escrita criativa.




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