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Luz à deriva entre São Paulo e Porto

Foto: Av. São João - Centro da Cidade de São Paulo



2019-05-11

Percorrer e mapear visualmente, como se fossem espaços contíguos, territórios de memória afetiva cujos núcleos de interesse estão há sete mil quilômetros de distância, separados pelo Oceano Atlântico, é a proposta central do ensaio Luz à Deriva, do fotógrafo Walter Craveiro.

 

Centro de cidade é território de memória e de desejos. Ruas, prédios, comércio, monumentos testemunham a passagem de gerações. O predinho de arquitetura eclética que habita tanto o Centro Velho de São Paulo como a Baixa do Porto traz em si os vestígios de saber e trabalho daqueles que já passaram por lá, mas ali não mais estão.

Eu cresci no Centro de São Paulo e, sempre que volto a caminhar por estas ruas, ando e vejo como se levasse os meus comigo. Por ali passou meu avô, depois meu pai e agora eu, com nossos sonhos, pensamentos, desejos e dúvidas. A prática da fotografia, tentativa de expressão que se tornaria profissão, nasceu dessas caminhadas. Há alguns anos, câmera na mão e dirigido pela luz, resolvi revisitar o Centro paulistano. Assim iniciei o percurso deste ensaio, a busca dos vestígios do palco urbano montado pelos que lá passaram.

No meio do caminho, durante uma viagem a Portugal, surgiu o inusitado. Neto de português, encontrei nas ruas da Baixa do Porto o prolongamento daquilo que eu buscava em São Paulo. O Porto passou então a ser uma extensão do lugar que eu já explorava. Comecei a percorrer as duas regiões, a fotografá-las de maneira alternada, construindo pelas imagens uma geografia afetiva em que o Centro de São Paulo e a Baixa do Porto tornam-se um único território, carregado de afetos e identificação. Nesse movimento de reviver o passado, resolvi fotografar no mesmo espaço cromático do filme que eu utilizava ao iniciar minha carreira profissional, no início dos anos 90. Naquela época analógica, cada fotógrafo tinha o seu filme preferido, que funcionava como uma paleta de cores. O meu era o Fuji Velvia. Altíssima resolução, cores saturadas e baixa latitude davam ao filme uma característica ímpar e exigiam um grande cuidado ao fotografar nas áreas de sombra – por conta da baixa latitude, facilmente o preto invadia essas regiões. Passei a fotografar as ruas do Porto e de São Paulo com os padrões do filme Velvia registrados na câmera digital. Entretanto, e de forma intencional, dessa vez a sombra e o preto ganharam destaque na paisagem, criando nas zonas de baixas luzes a área de maior informação da imagem. Formaram-se assim composições de cores pausadas. Nesse espaço de luz e sombra revelou-se a ausência. E um vigoroso território de lembrança.

 

Sé - Porto

 

Anhangabaú - São Paulo

 

Edifício Sampaio Moreira - São Paulo

 

Braz - São Paulo

 

Minhocão - São Paulo

 

Rua Dom José de Barros - São Paulo

 

Estação São Bento - Porto

 

Passeio das Fontainhas - Porto

 

Ponte Dom Luís I - Porto

 

Mercado do Bolhão - Porto

 

Escada dos Guindais - Porto

 

Rua das Oliveiras - Porto

 



Walter Craveiro

Walter Craveiro atua como fotógrafo profissional desde 1988, tendo trabalhos publicados em diversas revistas e jornais. Desde 2003 é o responsável pela cobertura fotográfica da FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty. Nos últimos anos, vem experimentando a fotografia como linguagem em ensaios autorais. 




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