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Falando verdades no país do eufemismo

Foto: manifestantes pró-Bolsonaro retirando faixa em defesa da educação na Universidade Federal do Paraná. Reprodução



2019-06-04

Os novos donos do poder não se comprazem em distribuir migalhas para os agregados enfileirados à borda da mesa. Eles têm por propósito declarado nos exterminar. Quem odeia a cultura não precisa de artistas e intelectuais. Muito menos respeita a criação quem tem a morte por única pulsão psíquica.

 

Cheguei cedo para a palestra do Luiz Ruffato em Berlim, no dia 2 de maio passado, porque sabia que iria lotar. O apelo do autor, nascido em Cataguases e residente em São Paulo, é grande na Alemanha – o suficiente para encher um auditório de 500 lugares com público pagante, numa noite de quinta-feira. E nem só de brasileiros desterrados consistiu a plateia. Eu não saberia contabilizar precisamente quantos ali eram alemães, mas havia grande demanda pelos fones de ouvido disponibilizados para quem precisasse da tradução simultânea. Desde que pronunciou a palestra de abertura da Feira do Livro de Frankfurt, em 2013, Ruffato passou à estranha condição de ser mais conhecido na Alemanha do que no Brasil. Ele é tido por lá como uma espécie de consciência crítica da nossa literatura, conforme anunciaram veículos da imprensa local. Por motivos de transparência, devo esclarecer que conheço Ruffato há coisa de quinze anos. Ele chegou a assinar a orelha do meu livro Entre as mulheres, em 2007. Escrevo, portanto, sobre alguém por quem nutro uma relação de admiração e simpatia, mesmo que à distância.

Para quem já esqueceu, vale relembrar um pouco o teor daquela outra palestra de 2013. Sem papas na língua, Ruffato ousou pronunciar algumas verdades históricas, traçando um panorama sucinto da espoliação do país e das gentes, das relações de escravagismo, brutalidade e rapinagem que fazem do Brasil essa terra em transe que conhecemos. Na ocasião, não disse nada de novo ou inédito. Nada que qualquer historiador não estivesse cansado de saber e subscrevesse abertamente em sala de aula, pelo menos naqueles tempos idos em que se esperava dos professores que falassem a verdade, sem medo de serem filmados e denunciados por “ideologização”. O surpreendente não foi o teor do que ele disse, mas o fato de ter proferido sua fala nada ufanista diante dos altos representantes da cultura pátria ali reunidos para aplaudir o Brasil como país homenageado da Feira de Frankfurt. Estes não esperavam tamanha franqueza do autor mineiro, até então conhecido por ser cordial e afável – o que, na nossa cultura do silêncio conivente, quer dizer saber esconder os podres de família. Sentindo-se traídos, nossos mandarins e medalhões reagiram com fúria nada contida. A frase mais emblemática (mas, longe de ser a única de censura) foi do cartunista Ziraldo: se o Ruffato não gosta do Brasil que vá embora. Os da minha geração – nutridos na infância pela leitura de Flicts, livro lindo que completa 50 anos em 2019 – viveram para ver o triste espetáculo de um ex-colaborador do Pasquim abraçar a causa do “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

É revelador que a fala de Ruffato tenha repercutido mal em meio a uma comitiva integrada por escritores e intelectuais, e isso no auge da hegemonia petista sobre os rumos políticos do país. Naquele momento, poucos meses após as jornadas de junho de 2013, ainda vivíamos na esperança ingênua de que o Brasil estava no limiar de uma grande transformação para melhor: em direção a ser um país menos desigual e mais honesto consigo mesmo. Ninguém sonhava ainda com golpe, Fora Temer, mamadeiras de piroca e gestos simulando arminha, na eleição por voto popular de um governo capitaneado pelo que há de mais baixo no baixo clero da política nacional. O próprio Ruffato esperava outra reação. Ao pronunciar o que era tido como o óbvio ululante por quase todos que pensamos conjuntamente o Brasil, ele talvez imaginasse ser aplaudido. Como, de fato, o foi e continua a ser pelos alemães, que bem sabem o valor de uma auto-crítica histórica.

Nenhum de nós que fez oposição ao governo Dilma pela esquerda dimensionava a força atávica da perversidade no Brasil. Subestimamos a pulsão coletiva pela morte e pela mentira. Desmatamento e aquecimento global? Conspiração chinesa! Combate ao machismo e à homofobia? Marxismo cultural! Feminicídio e genocídio de jovens negros? Mimimi! Nos últimos anos, a sociedade brasileira mostrou-se capaz de negar a realidade com uma fé cega que causaria espanto até ao famoso maluco de anedota, aquele que se imagina Jesus Cristo. Não há surpresa alguma em ver setores retrógrados caçarem fantasmas de “comunista” e “maconheiro” e “viado” nas brumas e sombras com a finalidade de promover o desmonte de tudo que é bem público: previdência social, escolas e universidades, cultura e patrimônio histórico. Surpreendente é que a maioria da população tenha aderido a esse jogo em que as fichas a serem queimadas são os direitos de todos nós e o próprio bem-estar de cada um, incluindo algo tão básico quanto a possibilidade de comer um prato de comida sem ser envenenado por um dilúvio de agrotóxicos. Tal qual os terraplanistas, o eleitor médio no Brasil parece acreditar que verdades científicas e fatos documentados podem ser substituídos pela crença pessoal. Basta torcer a favor que o desgoverno mais evidente resultará em políticas públicas benéficas.

Ainda mais decepcionante é o silêncio de setores da intelectualidade que compactuam com o regime atual ou transigem com ele. Aos leitores que me lêem aqui, muitos pertencentes à casta antes apelidada de formadores de opinião (hoje suplantada pelos digital influencers), cabe a pergunta: onde erramos? Há a influência nefasta, é claro, de forças muito maiores do que nossos vãs debates letrados. O crescimento do populismo e da extrema-direita é fenômeno mundial, na esteira dos gigantescos recursos investidos por bilionários mal-intencionados e do poder desenfreado de instrumentos digitais de persuasão como Facebook e Whatsapp. Não é por menos que o presidente dos Estados Unidos é, muito provavelmente, o indivíduo mais desqualificado a ocupar esse cargo em todos os tempos. Porém, de modo nada surpreendente, as instituições americanas vêm resistindo a Trump com um vigor que falta às nossas. Tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, artistas e intelectuais, museus e universidades fecham questão para combater o obscurantismo; e seus esforços, até agora, têm servido para retardar o avanço do câncer populista. Tanto isso é verdade que nosso aspirante a trump-dos-trópicos desistiu de se apresentar em Nova York por livre e espontânea pressão dos nova-iorquinos.

No Brasil, estamos sendo esmagados. Apesar do vigor das passeatas pela educação na semana passada, a arte, a cultura e a inteligência encontram-se atualmente debaixo da pata do boi. São muitos os motivos da nossa fragilidade. A maioria não controlamos, mas um, ao menos, compete ao próprio meio intelectual corrigir. É preciso falar a verdade e não transigir com a cultura do silêncio conivente. Não é um papel que se exerça com naturalidade no Brasil. Desde sempre, nossos intelectuais acostumaram-se a viver do favor dos poderosos, conforme bem diagnosticou Roberto Schwarz há mais de quarenta anos. Imprensados entre uma massa inculta e os laços de familiaridade, e mesmo de família, que nos unem aos donos do poder, costumamos nos omitir em expor as entranhas de um sistema que favorece a quem repete o que se quer ouvir. Quem almeja verbas e cargos e prêmios deve evitar, a todo custo, falar o que todos sabem mas ninguém diz. Ouvidos de mercador. Roupa suja se lava em casa. Ao vencedor as batatas. Esse pacto do silêncio em troca do favor vigora ainda. Apesar da ruidosa oposição de alguns poucos militantes de plantão – no mais das vezes, engajados em projetos partidários que visam igualmente a obtenção do favor, por outras mãos – boa parte dos artistas e curadores, escritores e editores, cineastas e produtores, professores, jornalistas e assemelhados se resigna a um mutismo emburrado na busca de preservar o pouco espaço que tem. Medo de retaliações. É o caminho azeitado da sobrevivência no meio cultural brasileiro. Em boca fechada não entra mosca, e de vez em quando até sobra um bom-bocado para quem souber abocanhar na hora exata.

O problema desse dito pelo não dito que nos rege é que as regras do jogo mudaram. Os novos donos do poder não se comprazem em distribuir migalhas para os agregados enfileirados à borda da mesa. Eles têm por propósito declarado nos exterminar. Quem odeia a cultura não precisa de artistas e intelectuais. Muito menos respeita a criação quem tem a morte por única pulsão psíquica. Enquanto as elites do passado deliciavam-se às escondidas com os prazeres que proibiam, essas novas assumem abertamente sua tara pelo castigo e a violência. Substituíram a velha hipocrisia da casa grande pelo sadismo explícito do pelourinho. Até para o casamento recente de Sua Excelência Filho 03, o figurino do noivo não dispensou a presença de um prendedor de gravata em forma de arma. Na nova ordem bolsonolavista, fala-se obsessivamente em pedofilia e em cu, mas sexo que é bom, nada. Com gente assim, não há convivência possível. Eles têm como artigo de fé destruir quem pensa diferente deles e criminalizar a liberdade de pensamento. Por isso, é tão mais necessário sair do lugar familiar da contemporização, da conivência e dos eufemismos. Falar verdades em alto e bom som, como fez Ruffato em 2013, é urgente. Mesmo que venham as retaliações (elas virão). Caso contrário, o silêncio dos acovardados será abafado com brados, uivos e relinchos dos fanáticos empoderados.

 



Rafael Cardoso

É escritor e historiador da arte, PhD pelo Courtaud Institute of Art (Londres). É autor de numerosos livros sobre história da arte e do design brasileiros e também quatro livros de ficção, assim como roteiros de cinema e tevê. Colabora com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Instituto de Artes) e a Freie Universität Berlin (Lateinamerika Institut) como pesquisador associado. Atua ainda como curador independente. Fotografado por Patricia Breves.

 




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