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Vista Chinesa

Foto: Tatiana Salem Levy



2019-11-21

Confira trecho do novo romance de Tatiana Salem Levy. O livro, ainda sem título definido, será lançado no primeiro semestre de 2020 pela Todavia.

A escritora também é investigadora na Universidade Nova de Lisboa e colunista do jornal Valor Económico, no Brasil. Publicou os romances A Chave de Casa (Prêmio São Paulo de Literatura), Dois Rios e Paraíso. É autora também de dois livros infantis, Curupira Pirapora (Prêmio FNLIJ) e Tanto Mar (Prêmio ABL), e do ensaio A experiência do fora: Blanchot, Foucault e Deleuze. Seu mais recente livro, O mundo não vai acabar, reúne várias de suas colunas publicadas desde 2014. Eleita pela revista britânica Granta para a seleção dos vinte melhores jovens escritores brasileiros, seus livros já foram publicados em treze países.

 

Era uma terça-feira. O ano: 2014. O Brasil estava bombando. O Rio de Janeiro estava bombando. Em breve, nos tornaríamos a sede da Copa do mundo e, dois anos depois, a capital olímpica. O país do futuro, finalmente, parecia bastante próximo de se concretizar. Nada apontava para um desastre, nem na cidade, nem na minha vida. Não tinha como dar errado, até porque os destinos se fundiam. O meu escritório – naquela época, apenas eu, André e Cadu – tinha vencido o concurso para projetar a sede do campo de golfe. Depois de cento e doze anos, o golfe, enfim, voltava aos jogos olímpicos.

Eu lembro o dia da semana porque tinha deixado um papel em cima da escrivaninha: terça-feira, reunião com a prefeitura. Mais precisamente, a nossa primeira reunião com a prefeitura, a secretaria do meio ambiente, o dono do terreno na Barra da Tijuca, o projetista internacional de campo de golfe, todo mundo junto. Eu não podia esquecer.

Severino, o porteiro do prédio, ainda não havia voltado do almoço e, como de hábito, escondi a chave num vaso de planta ao lado da escada. Nunca levo nada comigo quando saio para correr, só o telefone preso na calça e os headphones nos ouvidos. Até aqui, consigo me lembrar de tudo, da porta do prédio batendo, eu olhando para o lado para conferir se vinha algum carro, atravessando a rua, virando à direita, depois à esquerda, passando pela padaria do Horto e pelo jornaleiro, mas a partir do instante em que começo a subir o trajeto até a Vista Chinesa os detalhes se tornam imprecisos. Não sei dizer se havia outras pessoas, se havia mais pássaros do que o normal, se macacos cruzaram o caminho, ou se o sol, que reluzia forte, em algum momento desapareceu atrás de uma nuvem. Quando estou correndo, eu me desligo do mundo. Nem a floresta que ladeia a pista, nem eventuais passantes, nem mesmo o visual lá de cima, deslumbrante, me chamam a atenção. Só volto à realidade quando a voz metálica do telefone interrompe a música para me anunciar pace, batimento cardíaco e calorias gastas.

Se a cabeça vai longe, o corpo, ao contrário, está sempre presente. Os músculos da perna se contraem, a dor chega, lancinante, e eu fico no limite de parar, desistir da corrida, coisa que nunca aconteceu. Por mais penoso que seja, sou incapaz de interromper a meio. De me dizer: Hoje, estou cansada. Hoje, meu corpo não aguenta. Eu o obrigo a aguentar.

Mas, com a dor, se mistura o prazer, a endorfina se espalhando, o sangue circulando com pressa, a sensação de que estou cumprindo a minha meta.

Eu treinava quatro vezes por semana, e o ritual costumava ser o mesmo. A única diferença naquele dia era o horário: eu nunca corria à tarde. De manhã tem mais gente, e eu detestava ouvir meus pais ou o Michel dizendo que eu não devia correr na Vista Chinesa, é deserta, o Rio de Janeiro, mesmo agora, mesmo sendo a cidade mais falada do mundo, nunca deixou de ser perigoso. Mas até aquela terça-feira o perigo era para mim uma abstração, uma fantasia.

Sem que eu tivesse intuído nada, previsto nada, sem que eu tivesse me dito está vazio, sentido qualquer rastro de medo, avistado alguém estranho ao longe, um arrepio, uma sensação ruim, sem que eu tivesse recebido qualquer sinal do mundo externo, o perigo apareceu de repente nas minhas costas. Ele era baixo, forte, encostou uma pistola na minha cabeça e ordenou me segue, a voz se fundindo à da Daniela Mercury, a mão me apertando o braço, interrompendo a corrida e me arrastando para a floresta, aquela mata linda, exuberante, cantada nos mais belos poemas, vendida nos guias turísticos e na escolha do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas 2016, aquela mata que todo mundo diz que é o que faz a diferença, afinal muitas capitais têm praia, mas mata assim, tropical, verdejante, imensa, só no Rio, aquela mata frondosa, casa de tucanos, cobras e macacos, aquela mata exalando um cheiro doce e enjoativo de jaca, aquela mata que todo mundo admira quando está subindo a Vista Chinesa e na qual eu nunca reparo, porque quando estou correndo eu me desligo do mundo, aquela mata virou o meu inferno.

No mesmo instante em que meus pés deixaram o asfalto e pisaram as folhas caídas na umidade da floresta, percebi que havia alguma coisa incômoda no contato da mão dele com o meu braço. Sem mexer a cabeça, olhei para o lado e vi que ele estava usando luvas. Nos segundos seguintes, ou nos minutos, já não sei, eu só conseguia olhar as luvas, pensar naquelas malditas luvas. Os galhos arranhando o meu corpo, a voz dele, o sol desaparecendo entre as árvores, as ameaças, o barulho dos passos na mata, tudo se diluindo, eu só via as luvas. Eu preciso me esforçar, preciso me lembrar de tudo, só as luvas não basta, mas mesmo agora, com exatidão, só vejo as luvas. O resto, imagens borradas. Depois eu vejo outras coisas. Vejo pedaços, fragmentos, flashes daquele momento. Vejo uma clareira um cinto um tapa a minha garganta folhas no céu uma boca se mexendo sem voz uma língua sapatos um peito nu um passarinho um tapa um soco um cinto folhas caindo do céu outro soco ânsia de vômito gosto ruim uma nuvem dor vai quebrar vai quebrar mosquitos um cheiro ruim dentro outro tapa fora dor dor dor uma jaca duas jacas várias jacas um rosto os detalhes de um rosto um rosto se desfigurando um rosto.

É bem difícil descrever um rosto. Isso vale até para um rosto íntimo que a gente não vê há certo tempo. O rosto da minha avó, por exemplo, eu sou capaz  de descrever apenas com uma fotografia. Às vezes, passo meses sem olhar para ela e penso, insegura: como era mesmo a minha avó? A imagem de um rosto difuso surge e vai ganhando contorno, mas quando tento focar numa parte isolada, nos seus olhos, no seu nariz, não consigo, como se as partes só existissem juntas, uma coisa só.

O que mais importa numa pessoa: o todo ou os detalhes? Aquilo que lembramos ou o que esquecemos?

Nos dias seguintes, eu tive que descrever o rosto do homem. O tamanho do nariz, o formato da boca, a cor dos olhos, a textura do cabelo, todo e qualquer traço distintivo, uma cicatriz, uma pinta, uma marca, uma tatuagem. Foi então que tudo começou a se misturar, os detalhes iam e vinham, se confundiam, entravam e saíam de foco, eu tinha que lembrar, e a lembrança escapava, tal como uma imagem que nos ocorre no meio da noite e que torna a escurecer rapidamente caso se tente agarrá-la, ou uma prova fotográfica deixada muito tempo no banho de revelação.

É desesperador quando a palavra não cola na imagem. Toda fenda é exasperante, mas esta dói no corpo, eu tenho vontade de sair gritando por favor me deem a palavra certa, aí alguém diz não existe, as palavras certas nunca existem, mas eu não acredito nisso, eu acho que para toda coisa existe uma palavra certa e se a gente falar falar falar uma hora a gente encontra.

As palavras certas poderiam ser: Eu fui estuprada. A mãe de vocês foi estuprada. Eu, a mãe de vocês, foi estuprada. Eu, a mãe de vocês, fui estuprada. Foi fui. Estuprada. Estuprada. Es-tu-pra-da.

Isso é o que vocês vão ouvir de alguém, numa conversa distraída, um copo a mais, uma sensibilidade estourada, uma conversa mais íntima, ou até de mim mesma, a mamãe foi estuprada, sabiam? E ainda assim falta alguma coisa.



Revista Pessoa
 



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